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Erika Hilton vence obstrução do PL e se transforma na primeira mulher trans a presidir a Comissão da Mulher na Câmara

Por Edu Mota, de Brasília

Foto: Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados

Apesar de uma forte mobilização contrária e protestos de parlamentares do PL e de ideologia conservadora, a deputada Erika Hilton, do Psol de São Paulo, foi eleita presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara. O mandato da deputada vai até o final de janeiro do ano que vem. 

 

Pela divisão de comissões entre partidos e blocos, coube ao Psol a indicação para a Comissão dos Direitos da Mulher. A Comissão foi uma das últimas a ter seu comando decidido, por conta da forte oposição do PL ao nome de Erika Hilton. 

 

O líder do PL, o deputado Sóstenes Cavacalnte (RJ), foi um dos que protestou contra a eleição de Erika Hilton.

 

“Deveria haver uma regra que restringisse o comando dessa comissão a quem é mulher biologicamente”, defendeu Sóstenes. 

 

Por conta da obstrução do PL, foram necessários dois turnos de votação para eleger Hilton. No primeiro turno da eleição, apesar de a votação ocorrer com chapa única, a deputada não alcançou o número necessário para ser confirmada no cargo, pois foram registrados dez votos favoráveis e 12 em branco, o que impediu a eleição naquele momento. 

 

Como os votos em branco não atingiram a maioria absoluta, que seria de 13, a então presidente da comissão, Célia Xakriabá (PSol-MG), abriu um segundo turno. Na nova votação, em que bastava maioria simples, Erika Hilton foi eleita com 11 votos favoráveis e dez em branco.

 

Após assumir o cargo, a deputada Erika Hilton afirmou que pretende concentrar o trabalho da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na construção de políticas públicas voltadas à proteção e à dignidade das mulheres. A deputada minimizou as críticas à sua eleição e disse que o foco da comissão deve ser o enfrentamento de problemas estruturais que afetam as mulheres no país.

 

“Eu estou preocupada mais em que nós vamos trabalhar em prol da dignidade das mulheres. Precisamos enfrentar o feminicídio, a cultura do estupro, a violência doméstica e facilitar legislações que salvem a vida das mulheres”, afirmou.

 

A deputada acrescentou que pretende transformar a comissão em um espaço de acolhimento e debate sobre propostas legislativas relacionadas à pauta feminina. Segundo ela, o objetivo é evitar disputas políticas que, em sua avaliação, desviem o foco das políticas públicas.

 

“Eu quero fazer da comissão um espaço de escuta e acolhimento das mulheres, mas também de discussão de legislações que tratem da vida das mulheres”, disse. 

 

“Está decidido por maioria: fui eleita a primeira travesti, mulher trans, presidenta da Comissão das Mulheres, criando um marco histórico. Vamos trabalhar por todas as mulheres, pelas meninas, pelas mulheres trans, pelas mulheres cis, pelas mães e por todas as dignidades das mulheres”, concluiu a deputada.

 

Diversas deputadas presentes durante a votação defenderam a eleição de Erika Hilton para o cargo, e celebraram o que chamaram de avanço da Câmara na luta por maior diversidade. Foi o caso da deputada federal Talíria Petrone (Psol-RJ). 

 

“A presidência da Comissão da Mulher nas mãos da Erika Hilton é uma vitória histórica. É o reconhecimento de uma trajetória de luta e da necessidade de ampliar as vozes que defendem os direitos das mulheres no Congresso”, declarou a parlamentar.

 

Também do PSOL, a deputada Célia Xakriabá (MG), que presidia anteriormente o colegiado, celebrou a continuidade da condução da comissão por uma parlamentar comprometida com a pauta feminista e de direitos humanos. Segundo ela, a eleição de Hilton "representa a força das mulheres diversas que ocupam a política e seguem lutando contra a violência, o racismo e o machismo".

 

Deputadas de oposição lamentaram a eleição de Erika Hilton e afirmaram que a comissão deveria ser presidida por uma mulher cisgênero. Elas também criticaram o que chamaram de "ideologização" da comissão.

 

"Não podemos concordar com a entrega desta comissão, que deveria zelar pela dignidade da mulher, da vida e da família, a uma pauta que desvirtua a própria essência feminina", disse Chris Tonietto (PL-RJ).