Modo debug ativado. Para desativar, remova o parâmetro nvgoDebug da URL.

Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Marca Bahia Notícias Saúde
Você está em:
/
/
Artigos

Colunistas

Podcast Bengalas recebe idealizadoras do projeto “Vó, vai fazer o que hoje?” para debater longevidade, pertencimento e redes de apoio

Podcast Bengalas recebe idealizadoras do projeto “Vó, vai fazer o que hoje?” para debater longevidade, pertencimento e redes de apoio
Foto: Bahia Notícias
As idealizadoras da comunidade Amigas do Itaigara & Redondezas, Lara Kertész e Safira Luna, participam da mais recente edição do Podcast Bengalas, que vai ao ar nesta quinta-feira (18), às 15h, sob o comando da psicóloga Marta Luzbel.

Bengalas Podcast debate humanização e desafios da institucionalização de pessoas idosas

Bengalas Podcast debate humanização e desafios da institucionalização de pessoas idosas
Foto: Bahia Notícias
O Podcast Bengalas recebe hoje Silvio Mutti, fundador da Longévité Casa de Repouso, para uma conversa sobre um dos temas mais delicados e emocionalmente complexos do envelhecimento: a institucionalização de pessoas idosas.

Podcast Bengalas debate Medicina do Estilo de Vida com endocrinologista Olivia Bomfim

Podcast Bengalas debate Medicina do Estilo de Vida com endocrinologista Olivia Bomfim
Foto: Bahia Notícias
O Podcast Bengalas recebe hoje a médica endocrinologista e metabologista Olivia Bomfim para uma conversa sobre Medicina do Estilo de Vida (MEV), abordagem que vem ganhando destaque mundial por integrar hábitos cotidianos à prevenção e ao tratamento de doenças crônicas.

Artigos

Hidradenite Supurativa: por que uma doença relativamente comum ainda leva anos para ser diagnosticada?
Foto: Divulgação

Imagine conviver durante anos com lesões dolorosas, recorrentes, que surgem principalmente nas axilas, virilhas, nádegas ou abaixo das mamas. Imagine procurar diferentes profissionais de saúde, receber diagnósticos variados, ser tratado repetidas vezes como portador de infecções ou furúnculos e, mesmo assim, continuar sofrendo com os mesmos sintomas.

 

Essa ainda é a realidade de muitos pacientes com Hidradenite Supurativa (HS), uma doença inflamatória crônica que afeta aproximadamente 1% da população mundial e que continua sendo subdiagnosticada em diferentes países, incluindo o Brasil.

 

O que mais chama atenção é que não estamos falando de uma doença rara nem de um diagnóstico complexo. Pelo contrário. A hidradenite supurativa pode ser identificada por critérios clínicos relativamente simples, sem necessidade de exames sofisticados para confirmação. Ainda assim, estudos mostram que o tempo entre os primeiros sintomas e o diagnóstico correto pode variar entre sete e 15 anos.

 

Esse atraso ocorre por diversos motivos. Muitas vezes, o paciente procura atendimento durante uma fase aguda da doença e recebe tratamento para um suposto quadro infeccioso. Em outros casos, as lesões são interpretadas como furúnculos recorrentes, foliculites ou problemas localizados da região acometida. Como consequência, o paciente passa anos tratando episódios isolados, sem que a doença de base seja reconhecida.

 

A principal característica da Hidradenite Supurativa é justamente a recorrência. Lesões que aparecem repetidamente nos mesmos locais, especialmente em regiões de dobra do corpo, devem servir de alerta tanto para pacientes quanto para profissionais de saúde.

 

Nas últimas décadas, também houve uma mudança importante na forma como compreendemos a doença. Durante muito tempo, a hidradenite supurativa foi encarada como uma condição relacionada principalmente a infecções. Hoje sabemos que se trata de uma doença inflamatória complexa, mediada por alterações do sistema imunológico e associada a diferentes vias inflamatórias.

 

Essa evolução do conhecimento científico permitiu avanços significativos no tratamento. Atualmente, o Brasil já dispõe de terapias biológicas capazes de atuar diretamente nos mecanismos inflamatórios envolvidos na doença. Além disso, novas moléculas continuam sendo estudadas em pesquisas clínicas internacionais, ampliando as perspectivas para pacientes que convivem com formas moderadas e graves da condição.

 

Mas é importante destacar que a hidradenite supurativa não se limita às lesões de pele. Frequentemente ela está associada à obesidade, tabagismo, síndrome metabólica, diabetes, alterações hormonais e transtornos relacionados à saúde mental. Por isso, o tratamento ideal exige uma abordagem multidisciplinar, envolvendo diferentes especialidades médicas e profissionais de saúde.

 

Recentemente, durante o 4º Imuno & Derma e o 5º SOLAPSO, realizados no Rio de Janeiro, especialistas de diferentes países discutiram justamente os avanços terapêuticos e os desafios que ainda enfrentamos no cuidado desses pacientes. Entre os temas debatidos estiveram novas terapias biológicas, estudos de longo prazo sobre segurança e eficácia dos tratamentos e perspectivas futuras para o controle mais duradouro da doença.

 

Os avanços são animadores. No entanto, nenhum tratamento será capaz de atingir seu potencial máximo se continuarmos falhando no diagnóstico precoce.

 

Precisamos ampliar o conhecimento sobre a Hidradenite Supurativa não apenas entre dermatologistas, mas também entre médicos de outras especialidades, enfermeiros, fisioterapeutas e demais profissionais que possam ter contato com esses pacientes. Quanto mais cedo a doença for identificada, maiores serão as chances de evitar cicatrizes permanentes, complicações e impactos significativos na qualidade de vida.

 

O maior desafio da hidradenite supurativa atualmente talvez não seja a falta de tratamento. É garantir que o paciente chegue ao diagnóstico antes que a doença deixe marcas irreversíveis.

 

*Gleison Duarte é dermatologista da Clínica Ibis (CRM - 18130 / RQE - 11203)

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

A matemática da vida e o desafio de envelhecer com saúde

Por Claudia Velasco

A matemática da vida e o desafio de envelhecer com saúde
Foto: Divulgação

Os números mais recentes do IBGE, consolidados na pesquisa Tábuas de Mortalidade 2024, trazem uma confirmação estatística de um fenômeno que observamos diariamente no ambiente clínico: a vida está se estendendo. A expectativa de vida do brasileiro atingiu a marca histórica de 76,6 anos, um incremento de 2,5 meses em apenas um ano. No entanto, como diretora médica e gestora de saúde, meu olhar se volta para uma pergunta mais profunda e analítica: estamos apenas somando anos à vida ou estamos somando vida aos anos?


A análise comparativa histórica é fascinante e, ao mesmo tempo, um alerta. Em 1940, um brasileiro que alcançava os 60 anos tinha, estatisticamente, mais 13,2 anos de jornada pela frente. Hoje, esse mesmo indivíduo de 60 anos tem uma projeção de mais 22,6 anos de vida. Ganhamos quase uma década de existência adicional após a chamada melhor idade. É um triunfo da medicina, do saneamento e do acesso à informação. Mas esse bônus cronológico não vem de graça. Ele exige um novo contrato de saúde assinado muito antes, aos 30 e 40 anos.


É comum que, no auge da fase produtiva, entre os 30 e 40 anos, o indivíduo negligencie os sinais do corpo em nome da carreira e das obrigações familiares. No entanto, é precisamente nesta janela de tempo que o "boleto biológico" da longevidade começa a ser emitido. Os dados mostram que a população masculina, embora tenha tido um ganho de expectativa de vida (passando de 73,1 para 73,3 anos), ainda vive significativamente menos que as mulheres, que já beiram os 80 anos (79,9). 


Essa diferença de quase sete anos entre os gêneros é um indicador analítico de que o comportamento preventivo, mais frequente no público feminino, é o divisor de águas entre a sobrevivência e a vitalidade. 
Sob o ponto de vista técnico, a longevidade ativa depende do manejo precoce das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT). O diagnóstico de uma hipertensão ou de um pré-diabetes aos 35 anos não é uma sentença, mas uma oportunidade estratégica de ajuste. Se ignorados, esses fatores serão os responsáveis por transformar os 22 anos extras de vida conquistados desde 1940 em anos de dependência e limitação física. 


O aumento da expectativa de vida é um dado para ser comemorado, mas a longevidade ativa é uma construção diária. O futuro promissor que os dados do IBGE desenham só se concretiza se as escolhas de hoje forem tão robustas quanto as estatísticas. Afinal, viver mais é um fato; viver bem é uma escolha técnica e consciente.


*Claudia Velasco é Diretora Médica da Clínica SiM

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

Chikungunya não termina quando a febre passa

Por Viviane Machicado

Chikungunya não termina quando a febre passa
Foto: Arquivo Clínica Ibis

O aumento de 92% nos casos de chikungunya na Bahia em 2026, segundo dados da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), acende um alerta importante sobre os impactos da doença para além da fase aguda da infecção. Entre janeiro e meados de junho deste ano, foram registrados 3.191 casos prováveis no estado, com notificações em 141 municípios.

 

Quando pensamos em chikungunya, geralmente associamos a doença aos dias de febre, mal-estar e dores intensas que acompanham a fase aguda da infecção. No entanto, essa visão é incompleta e pode fazer com que muitas pessoas deixem de receber o acompanhamento adequado no momento certo.

 

Para uma parcela significativa dos pacientes, a chikungunya não termina quando a infecção acaba. Ao contrário do que muitos imaginam, as dores articulares provocadas pelo vírus podem persistir por meses e, em alguns casos, por anos após o desaparecimento dos sintomas iniciais. 

 

Não se trata apenas de um desconforto residual. Estamos falando de um quadro que pode comprometer a mobilidade, a capacidade de trabalhar, a prática de atividades físicas e até tarefas simples do dia a dia. A experiência clínica e os estudos de acompanhamento mostram que entre 30% e 60% dos pacientes podem apresentar sintomas articulares persistentes após a fase aguda da doença. 

 

Em alguns casos, essas manifestações assumem características semelhantes às observadas em doenças reumatológicas inflamatórias, exigindo avaliação especializada e tratamento específico. E é aí que está um dos principais desafios relacionados à chikungunya. Muitas pessoas acreditam que sentir dor por semanas ou meses faz parte do processo natural de recuperação. Como consequência, convivem com sintomas incapacitantes sem buscar ajuda médica ou chegam tardiamente ao especialista.

 

É importante compreender que a persistência da dor não deve ser encarada como algo normal. Quando os sintomas não apresentam melhora progressiva, quando existe inchaço nas articulações, rigidez pela manhã ou dificuldade para realizar atividades habituais, é fundamental investigar se existe um processo inflamatório em curso.

 

A atenção deve ser ainda maior entre pacientes que apresentaram quadros mais intensos da doença, com acometimento de múltiplas articulações e presença de inchaço durante a fase aguda. Mulheres, pessoas acima dos 40 anos e indivíduos com doenças reumatológicas prévias também parecem apresentar maior risco de desenvolver complicações articulares prolongadas.

 

Outro aspecto que merece destaque é a necessidade de diferenciar a chikungunya de outras arboviroses, como dengue e zika. Embora compartilhem diversos sintomas, a chikungunya costuma se destacar pela intensidade da dor articular e pelo potencial de evolução para um quadro inflamatório persistente. Essa característica faz com que a doença tenha impacto muito além do período da infecção viral.

 

Felizmente, existem formas de tratamento capazes de controlar a inflamação, reduzir a dor e preservar a funcionalidade das articulações. O acompanhamento especializado permite identificar quais pacientes necessitam apenas de medidas de suporte e quais demandam terapias mais específicas para evitar a cronificação dos sintomas.

 

Em um cenário de crescimento dos casos da doença, precisamos olhar para a chikungunya além das estatísticas epidemiológicas. A febre passa, o vírus desaparece, mas, para muitos pacientes, a doença pode continuar presente nas articulações. E quanto mais cedo essa realidade for reconhecida, maiores serão as chances de preservar qualidade de vida, autonomia e bem-estar. Por isso, o acompanhamento com um reumatologista é fundamental para identificar precocemente processos inflamatórios persistentes, indicar o tratamento mais adequado e evitar que as sequelas comprometam a rotina e a funcionalidade do paciente a longo prazo.

 

*Viviane Machicado é reumatologista da Clínica IBIS

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

Saúde nas eleições, por que promessa não basta?

Por Tacyra Valois

Saúde nas eleições, por que promessa não basta?
Foto: Divulgação

A saúde é um dos setores mais relevantes da vida brasileira, mas continua ocupando espaço menor do que deveria nas decisões centrais. O problema não é falta de diagnóstico. O Brasil produz planos, metas e propostas. O que falta é capacidade de transformar isso em decisão consistente, coordenação institucional e política de Estado.


Isso ajuda a explicar por que um setor que responde por mais de 9,5% do PIB e emprega mais de 5 milhões de pessoas segue tratado de forma fragmentada. A saúde aparece no discurso, mobiliza eleições e pressiona governos. Mas ainda não se firmou como critério efetivo de qualidade da decisão política. Continua submetida ao calendário eleitoral, à pressão imediata e à baixa continuidade institucional.


A pandemia de Covid-19 expôs esse limite. Ficou evidente que a resposta em saúde não depende apenas de hospital, leito ou insumos. Depende da capacidade do poder público de decidir com rapidez, coordenar setores, compartilhar informação e agir com base em evidências. Onde isso funcionou melhor, a resposta foi mais consistente. Onde não funcionou, o custo foi maior.


Ainda assim, essa lição não foi incorporada. O debate sobre saúde no Brasil continua fragmentado. Discute-se o financiamento do SUS, a pressão sobre a saúde suplementar, a regulação e o avanço da judicialização como se fossem problemas isolados. Não são. Revelam um sistema que decide mal, coordena pouco e corrige falhas de forma tardia e mais cara.


Na mesma direção, as emendas parlamentares podem expressar demandas legítimas dos territórios, mas precisam estar mais conectadas ao planejamento público. Quando os recursos chegam sem articulação com prioridades sanitárias, metas regionais e avaliação de resultados, o orçamento se dispersa e perde capacidade de produzir mudanças duradouras. Não queremos aqui negar o papel político das emendas, mas garantir que elas fortaleçam uma estratégia de saúde contínua, coordenada e orientada por necessidades reais da população.


Essa fragmentação compromete a racionalidade do sistema. Cada ator busca resolver sua parte e cada nível de governo administra seu próprio limite. Mas saúde não funciona por pedaços. Ela depende de coordenação entre Executivo, Legislativo e Judiciário, articulação federativa e capacidade para conectar financiamento, regulação, serviços e resultados.
É justamente nesse ponto que a dimensão municipal continua subestimada. A vida acontece nas cidades. A saúde se produz nos territórios. A população sente a política pública no posto de saúde, no deslocamento, na qualidade do saneamento, na segurança alimentar e na capacidade do serviço local de responder com continuidade. Saúde, na prática, também é mobilidade, habitação, ambiente urbano, educação e assistência social.


Municípios que articulam melhor saúde, assistência, educação, urbanismo e mobilidade tendem a produzir respostas mais consistentes. Não necessariamente porque tenham mais recursos, mas porque conseguem decidir melhor, integrar melhor e acompanhar melhor. Mas nenhuma cidade sustenta isso sozinha. Essa capacidade depende de financiamento estável, coordenação federativa, regras previsíveis e instrumentos de gestão que sobrevivam à troca de governos.


O Brasil entrou mais uma vez em ciclo político. Esse deveria ser o momento de exigir menos retórica e mais método. Plano de governo que não informa prioridade, prazo, responsabilidade, critério de implementação e lógica de coordenação não é compromisso real de governo. É apenas intenção.


Na saúde, isso deveria estar ainda mais claro. Seus efeitos aparecem na vida cotidiana, na confiança institucional e na capacidade do Estado de entregar respostas concretas à população. O país não precisa de mais promessas genéricas na área. Precisa de decisão pública à altura da complexidade do setor.


A saúde já está no centro das preocupações da sociedade. Falta ocupar o mesmo lugar na qualidade da decisão pública.


*Tacyra Valois é executiva em saúde, vice-presidente da ABRIG, pesquisadora em gestão e governança e doutoranda em administração pública pela Université de Bordeaux.

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

Infertilidade: quando o sonho de engravidar impacta também a vida emocional e sexual do casal
Foto: Divulgação

Quando falamos sobre infertilidade, é comum que a atenção esteja voltada para exames, diagnósticos e tratamentos. No entanto, existe uma dimensão dessa condição que ainda recebe pouca visibilidade: os impactos emocionais e sexuais vivenciados pelos casais ao longo da jornada em busca da gravidez.

 

Em junho, mês dedicado à conscientização sobre a infertilidade, somos convidados a ampliar esse olhar. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 17,5% da população adulta mundial enfrenta dificuldades para engravidar, o que equivale a uma em cada seis pessoas. Trata-se, portanto, de uma condição bastante frequente, mas que ainda é cercada por desinformação, estigmas e silêncios.

 

Historicamente, a fertilidade foi associada principalmente à mulher. Ainda hoje, é comum que a investigação clínica se inicie por ela, enquanto o parceiro demora mais tempo para realizar avaliações básicas. No entanto, sabemos que essa visão não corresponde à realidade. Os fatores masculinos estão presentes em aproximadamente metade dos casos de infertilidade, seja de forma isolada ou combinados com fatores femininos.

 

Por isso, é fundamental compreender que a infertilidade é uma condição do casal e que seu diagnóstico deve ser conduzido de forma conjunta. Mais do que uma questão biológica, ela afeta relacionamentos, expectativas e projetos de vida.

 

Ao longo dos anos acompanhando pacientes na área de reprodução humana, percebo que uma das consequências mais marcantes da infertilidade é a transformação da vida íntima. O que antes acontecia de forma espontânea passa a ser organizado em função do calendário, dos exames e do período fértil. A sexualidade, que deveria ser um espaço de prazer e conexão, muitas vezes se torna uma atividade associada à obrigação e à cobrança.

 

Esse processo pode gerar um desgaste significativo. A ansiedade diante da espera, o medo de novas frustrações e a pressão por resultados acabam interferindo diretamente na autoestima e na qualidade das relações. Não raro, casais relatam perda do desejo sexual, diminuição da intimidade e dificuldades de comunicação.

 

Homens e mulheres costumam vivenciar esse cenário de maneiras diferentes. Entre as mulheres, doenças frequentemente associadas à infertilidade, como a síndrome dos ovários policísticos e a endometriose, podem provocar sintomas físicos, desconfortos e alterações que impactam também a sexualidade e o bem-estar emocional.

 

Já entre os homens, o diagnóstico de um fator masculino frequentemente desperta sentimentos de culpa, insegurança e medo. Ainda existe uma associação equivocada entre fertilidade e masculinidade, o que pode fazer com que muitos homens enfrentem sofrimento emocional silencioso ao receberem esse tipo de diagnóstico.

 

Além disso, fatores relacionados ao estilo de vida têm papel importante na saúde reprodutiva masculina. Obesidade, tabagismo, consumo excessivo de álcool, sedentarismo, uso de anabolizantes e algumas doenças crônicas podem comprometer a fertilidade, reforçando a importância da prevenção e do acompanhamento especializado.

 

Apesar dos desafios, é importante destacar que a infertilidade não precisa ser enfrentada apenas como uma experiência de sofrimento. Quando existe diálogo aberto, acolhimento e apoio mútuo, muitos casais conseguem fortalecer seus vínculos durante essa trajetória. Compartilhar medos, expectativas e frustrações permite construir uma relação mais sólida e uma parceria mais consciente diante das dificuldades.

 

A infertilidade vai muito além da capacidade de engravidar. Ela envolve sonhos, emoções, identidade, autoestima e relações afetivas. Por isso, o cuidado com esses pacientes deve ser integral, contemplando não apenas os aspectos médicos, mas também a saúde emocional e a qualidade de vida.

 

Falar sobre infertilidade é, acima de tudo, falar sobre pessoas. E quanto mais ampliarmos esse debate, mais preparados estaremos para oferecer informação, acolhimento e suporte a quem vive essa realidade.


*Wendy Delmondes é Médica especialista em Reprodução Humana (CRM 17629), com Atuação em Ginecologia e Obstetrícia (RQE 23958) e Reprodução Assistida (RQE 23959)

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

Precisamos construir uma vida para além da carreira profissional

Por Carlane Machado

Precisamos construir uma vida para além da carreira profissional
Foto: Divulgação

Muito se fala sobre burnout, sobrecarga profissional e adoecimento mental relacionado ao trabalho. Os números crescentes de afastamentos por questões emocionais têm despertado debates importantes sobre a responsabilidade das empresas na promoção da saúde mental dos trabalhadores. Mas existe uma reflexão que, talvez, ainda esteja recebendo pouca atenção: será que estamos construindo uma vida para além do trabalho?

 

A discussão sobre saúde mental costuma ganhar força quando o sofrimento já está instalado. Quando surgem sintomas como ansiedade, exaustão, insônia, irritabilidade ou falta de motivação. No entanto, a prevenção começa muito antes disso. Ela está presente na forma como distribuímos nosso tempo, nossas prioridades e nossas fontes de realização.

 

Na prática clínica, tenho observado um fenômeno cada vez mais frequente. Muitas pessoas passaram a concentrar grande parte de suas expectativas, reconhecimento e senso de valor pessoal na carreira. O trabalho deixou de ser apenas uma atividade profissional e passou a ocupar um lugar central na identidade de muitos indivíduos.

 

Não há problema em buscar crescimento profissional, estabilidade financeira ou reconhecimento. O trabalho é uma parte importante da vida e pode, inclusive, ser uma fonte legítima de satisfação. A questão é quando ele se torna a única fonte.

 

Quando toda a realização se concentra no ambiente profissional, qualquer frustração ganha proporções maiores. Uma crítica, um erro, uma meta não alcançada ou a falta de reconhecimento podem ser interpretados não apenas como desafios do trabalho, mas como uma ameaça ao próprio valor pessoal.

 

É nesse contexto que muitas pessoas começam, sem perceber, a abrir mão de outras áreas fundamentais da vida. O lazer é adiado. Os encontros com amigos tornam-se raros. O tempo em família diminui. Os hobbies desaparecem. A atividade física deixa de ser prioridade. O descanso passa a ser visto como perda de tempo.

 

Aos poucos, a rotina se resume ao trabalho.

 

E é justamente aí que mora um dos grandes riscos. Quando deixamos de cultivar outras fontes de prazer, pertencimento e significado, ficamos emocionalmente mais vulneráveis. Afinal, toda a nossa satisfação passa a depender de um único lugar: o trabalho.

 

Os sinais desse desequilíbrio costumam aparecer antes mesmo de um adoecimento mais grave. Dificuldade para desligar a mente, sensação constante de cansaço, culpa ao descansar, ansiedade, tensão muscular e a impressão de que nunca se faz o suficiente são alguns dos alertas mais comuns.

 

Ao mesmo tempo, é importante destacar que essa reflexão não retira a responsabilidade das empresas. As organizações têm papel fundamental na construção de ambientes saudáveis, na prevenção do adoecimento emocional e na promoção de relações de trabalho mais equilibradas.

 

No entanto, também existe uma responsabilidade individual na construção de limites e no cuidado com a própria vida. Nenhuma carreira, por mais bem-sucedida que seja, consegue suprir sozinha todas as necessidades emocionais de uma pessoa.

 

A saúde mental também se constrói em experiências simples e cotidianas. Em uma caminhada ao ar livre. Em uma conversa com alguém querido. Em um hobby. Em um momento de lazer. Em um almoço em família. Em uma pausa sem culpa.

 

Talvez a grande pergunta que precisamos fazer não seja apenas por que estamos adoecendo no trabalho. Talvez seja também: o que estamos deixando de viver fora dele?

 

Porque o nosso valor não está apenas naquilo que produzimos. E uma vida saudável é aquela que encontra espaço para o trabalho, mas também para tudo aquilo que nos lembra que somos muito mais do que nossa profissão.

 

*Carlane Machado é psicóloga da Hapvida

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

Dia dos Namorados: quando a data desperta mais cobrança do que celebração
Foto: Divulgação

Com a chegada do Dia dos Namorados, somos cercados por vitrines temáticas, campanhas publicitárias, jantares especiais e declarações românticas que ocupam espaço nas ruas, nas telas e no imaginário coletivo. Para muitos casais, a data representa um momento de celebração. Mas para quem está solteiro, esse período pode despertar sentimentos como ansiedade, tristeza, comparação e até uma sensação de inadequação.

 

Ao longo da minha atuação como psicóloga, percebo que o impacto emocional dessa data vai muito além da condição de estar ou não em um relacionamento. O que costuma gerar sofrimento é o significado que a sociedade atribui ao amor romântico e à vida a dois. Existe uma narrativa bastante difundida de que estar acompanhado é sinônimo de realização afetiva, felicidade e sucesso pessoal. Quando alguém não se percebe dentro desse contexto, pode surgir a impressão de que está ficando para trás ou de que há algo faltando em sua vida.

 

Esse sentimento tende a se intensificar em tempos de redes sociais, onde somos constantemente expostos a recortes cuidadosamente selecionados da vida dos outros. Fotografias, homenagens e demonstrações públicas de afeto podem reforçar comparações que nem sempre são justas ou reais. Afinal, raramente enxergamos a complexidade das relações por trás das imagens que consumimos diariamente.

 

Além disso, datas simbólicas costumam carregar emoções silenciosas. Para alguns, o Dia dos Namorados celebra encontros. Para outros, desperta ausências, saudades, frustrações ou questionamentos. Términos recentes, lutos afetivos, decepções amorosas e inseguranças podem ganhar mais força nesse período. E tudo bem. Nem toda data precisa ser vivida da mesma forma.

 

É importante compreender que sentir tristeza, solidão ou desconforto diante dessa data não significa fraqueza nem incapacidade de ser feliz. Significa apenas que determinadas emoções encontraram espaço para se manifestar. O problema não está em sentir, mas em acreditar que esses sentimentos definem quem somos ou o valor que temos.

 

Talvez o convite mais importante deste período seja ampliar a nossa compreensão sobre o amor. O amor não se limita aos relacionamentos românticos. Ele também está presente nas amizades, nos vínculos familiares, no cuidado com os filhos, nos encontros sinceros, nos projetos de vida e, principalmente, na relação que construímos com nós mesmos.

 

Mais do que corresponder a expectativas sociais, acredito que o essencial é compreender o próprio momento, acolher os sentimentos que surgem e respeitar a própria história. Cada trajetória afetiva possui seu ritmo, seus aprendizados e seus significados.

 

Em uma época marcada pela hiperexposição e pela comparação constante, olhar para si com mais gentileza e menos exigência pode ser um exercício valioso. Afinal, a felicidade não precisa caber em uma data específica nem seguir um modelo pré-estabelecido para ser legítima.

 

*Niliane Brito é psicóloga (CRP03/12433)

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

O sonho da maternidade não acaba com um diagnóstico de câncer de mama

Por Juliana Orrico

O sonho da maternidade não acaba com um diagnóstico de câncer de mama

Receber o diagnóstico de câncer de mama costuma provocar uma avalanche de sentimentos. Entre as preocupações com o tratamento e a recuperação, muitas mulheres, especialmente as mais jovens, também enfrentam um medo profundo e silencioso: o de perder a possibilidade de ser mãe.

 

Durante muito tempo, o câncer foi visto como um ponto final para diversos projetos de vida, inclusive a maternidade. Felizmente, a medicina evoluiu e hoje sabemos que esse sonho pode continuar sendo possível em muitos casos.

 

Cada vez mais, o cuidado com a fertilidade faz parte da abordagem inicial do tratamento oncológico. Isso significa que, logo após o diagnóstico, muitas pacientes já podem ser encaminhadas para avaliação especializada com foco na preservação da fertilidade, antes mesmo do início da quimioterapia.

 

Esse planejamento precoce é fundamental. Alguns tratamentos podem impactar a função ovariana, mas atualmente existem estratégias seguras e eficazes, como o congelamento de óvulos ou embriões, que permitem preservar a possibilidade de uma gestação futura.

 

Mais do que combater a doença, nosso papel enquanto médicos é olhar para a mulher de forma integral. Estamos falando de pacientes que continuam tendo sonhos, planos, desejos e projetos de vida que merecem ser respeitados e acolhidos durante todo o processo de tratamento.

 

Os avanços científicos também trouxeram mais segurança em relação à gestação após o câncer de mama. Hoje, já sabemos que, em muitos casos, engravidar após o tratamento pode ser seguro, desde que exista acompanhamento multidisciplinar e uma avaliação individualizada de cada paciente.

 

É importante reforçar que não existe uma fórmula única. Cada caso precisa ser analisado de maneira cuidadosa, considerando o tipo do tumor, o estágio da doença, a idade da paciente, o tratamento realizado e o momento ideal para uma possível gestação.

 

Nesse contexto, a atuação integrada entre mastologista, oncologista e especialista em reprodução humana se torna essencial. O objetivo é equilibrar segurança oncológica e qualidade de vida, sem que a mulher precise abrir mão de sonhar.

 

Receber um diagnóstico de câncer de mama é, sem dúvida, um dos momentos mais difíceis na vida de qualquer mulher. Mas é importante que elas saibam que esse diagnóstico não precisa significar o fim da maternidade.

 

Hoje, mais do que tratar tumores, tratamos histórias. E preservar a possibilidade de ser mãe também faz parte desse cuidado.

 

*Juliana Orrico é mastologia (RQE 12346) e especialista reconstrução mamária.

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

Menstruação saudável começa com informação de qualidade

Por Mariana Viza

Menstruação saudável começa com informação de qualidade
Foto: Divulgação

A menstruação faz parte da vida de cerca de 1,8 bilhão de pessoas todos os meses no mundo, segundo dados do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Ainda assim, o assunto segue cercado por tabus, constrangimentos e desinformação: uma pesquisa do UNICEF e do UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas) mostrou que mais de 60% das jovens já deixaram de frequentar a escola ou espaços públicos por estarem menstruadas. Esse cenário revela que, apesar dos avanços no debate sobre saúde feminina, ainda há um longo caminho para transformar informação em acolhimento, autonomia e cuidado.


Por um lado, temos as redes sociais e os ambientes digitais, ampliando as fontes de informação sobre saúde, especialmente entre mulheres mais novas; do outro, conteúdos sem embasamento científico que também ganham espaço e aumentam o risco de normalizarmos sintomas que merecem atenção médica ou perpetuarmos crenças ultrapassadas sobre o corpo feminino.


No consultório, ainda é comum ouvir relatos de mulheres que convivem há anos com dores intensas, sangramentos excessivos ou alterações menstruais sem procurar ajuda, porque aprenderam que “é normal sofrer” durante o período menstrual – o que não é verdade.


Cólicas leves podem acontecer, mas dores incapacitantes, que impedem atividades cotidianas, precisam ser investigadas. Sangramentos muito intensos, prolongados ou que afetam a qualidade de vida também são sinais de alerta para condições como endometriose e sangramento uterino anormal. Nessas situações, o diagnóstico precoce faz diferença no tratamento e na qualidade de vida das pacientes, que têm o cotidiano impactado pelo mal-estar físico, emocional e, muitas vezes, social. 


Outro ponto importante é entender que histórico familiar não deve servir como justificativa para naturalizar sintomas. Muitas mulheres acreditam que, se a mãe ou outros familiares sempre tiveram fluxo intenso ou dor, isso faz parte da genética e deve ser aceito, mas alterações menstruais merecem avaliação individualizada. Hoje, existem diversas opções terapêuticas seguras e eficazes, como pílulas hormonais e dispositivos intrauterinos (DIUs) hormonais, que ajudam no controle do fluxo, alívio dos sintomas e melhora do bem-estar, sempre com orientação médica.


Também é fundamental conversamos sobre esses temas para combatermos mitos antigos que ainda persistem, como as histórias de que lavar o cabelo durante a menstruação faz mal e de usar absorventes internos, coletores menstruais ou DIUs podem afetar a “virgindade” (um conceito social complexo que não pode ser reduzido à presença ou ausência do hímen). Da mesma forma, embora a ausência de menstruação seja um dos principais sinais de gravidez, é importante que as mulheres saibam que sangramentos podem ocorrer durante a gestação e que conhecer o próprio fluxo é o primeiro passo para buscar acompanhamento médico diante de qualquer alteração.


Por outro lado, existem hábitos e ferramentas que devem ser incentivados: alimentação equilibrada, prática regular de exercícios físicos e atenção à saúde emocional podem aliviar sintomas e melhorar o bem-estar ao longo do ciclo. Além disso, aplicativos de monitoramento menstrual podem auxiliar na identificação de padrões e alterações importantes, contribuindo para diagnósticos mais precoces.


Com hábitos como esses e conversas abertas, caminhamos para abandonar a ideia de que sofrimento menstrual é algo que deve ser suportado em silêncio. 


O ciclo menstrual é uma realidade enfrentada por todas e não deve ser tratado com estigmas. E quanto mais cedo entendermos isso, mais cedo poderemos garantir dignidade, cuidado, acolhimento e acesso a diagnósticos e tratamentos corretos para milhões de pessoas.

 

*Mariana Viza é ginecologista fundadora da Casa Irene

 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

O exame esquecido: por que ainda diagnosticamos tarde a doença renal crônica?

Por José A. Moura Neto

O exame esquecido: por que ainda diagnosticamos tarde a doença renal crônica?
Foto: Divulgação

Há exames que se tornaram parte da cultura médica e da expectativa do paciente. O colesterol é um deles. Basta uma consulta de rotina para que sua ausência na solicitação cause estranhamento. Com a creatinina, isso não acontece.

 

Entretanto; creatinina alta, normalmente, é pior do que colesterol alto. A invisibilidade é tamanha que, em uma campanha recente, cogitou-se o slogan “Creatinina para Todos”. A ideia foi abandonada – e ajustamos os dizeres para “Exame de Creatinina para Todos” - em razão do alto risco da confusão com o ilustre parônimo. O suplemento creatina, que veio bem depois, tornou-se mais popular do que o exame que pode diagnosticar a doença renal antes do aparecimento dos sintomas.


A doença renal crônica é, talvez, uma das condições mais subdiagnosticadas da prática clínica contemporânea. Não por ser rara ou de difícil identificação - ao contrário. Trata-se de uma condição frequente, silenciosa e progressiva, cujo diagnóstico, na maioria dos casos, depende de dois exames simples: a dosagem de creatinina no sangue e um exame de urina. Ainda assim, milhões de brasileiros convivem com algum grau de comprometimento renal sem saber.


O problema não está na ausência de tecnologia. Está na ausência de sistematização. Não incorporamos, de forma consistente, o rastreamento da doença renal crônica à consulta médica de rotina, inclusive na atenção primária - justamente o espaço onde o diagnóstico deveria acontecer. O resultado é conhecido: pacientes que chegam tardiamente ao sistema, muitas vezes já em estágios avançados, quando as possibilidades de intervenção são mais limitadas e mais custosas — para o indivíduo e para o próprio sistema de saúde.


É nesse ponto que a crítica precisa ser feita com clareza. Falhamos enquanto sistema ao não priorizar o diagnóstico precoce de uma condição cuja identificação é simples e cujo impacto é profundo. Mas há também razões para um olhar construtivo.


Nos últimos anos, a nefrologia brasileira tem buscado enfrentar esse desafio de forma mais estruturada. A Sociedade Brasileira de Nefrologia vem investindo em iniciativas voltadas à ampliação do diagnóstico precoce, com destaque para o projeto Epi-DRC, além de ações contínuas de capacitação de profissionais da atenção primária - um passo importante para transformar conhecimento em prática.


Em 2025, o projeto avaliou 8.374 pessoas em 40 cidades brasileiras. Cerca de 3.370 apresentaram alterações na creatinina e foram encaminhadas para confirmação diagnóstica e tratamento - indivíduos que, até então, desconheciam sua condição. Duas em cada três das pessoas avaliadas sequer sabiam quais seriam os fatores de risco para doença renal crônica. Em 2026, o projeto foi ampliado para 12 mil testes, com acompanhamento dos casos identificados. Trata-se de um esforço relevante e, sob muitos aspectos, inédito no mundo. Mas é preciso reconhecer: iniciativas pontuais, por mais robustas que sejam, não substituem política pública estruturada.


O Brasil dispõe de uma das maiores redes de atenção primária do mundo, com cerca de 40 mil Unidades Básicas de Saúde. É nesse nível de atenção que o diagnóstico precoce deve ser incorporado de forma sistemática, especialmente em grupos de risco como pacientes com hipertensão, diabetes, obesidade e idosos. Transformar essa realidade exige mais do que evidência científica. Exige coordenação, financiamento, protocolos claros e, sobretudo, constância.


Constância das instituições, constância dos profissionais de saúde, constância das políticas públicas. E exige também engajamento. Da comunidade médica, ao incorporar de forma rotineira exames simples que fazem diferença. Do sistema de saúde, ao priorizar o que é custo-efetivo. E da sociedade, ao compreender que prevenção não é acessório - é estratégia.


Enquanto falamos de performance e ganhos rápidos, a creatina ganhou espaço na prateleira. Ganhou popularidade. A creatinina, não. E, no entanto, é ela que, muitas vezes, separa dois caminhos: o da descoberta precoce e o da surpresa tardia. Talvez o desafio não seja apenas técnico. Talvez seja cultural. A doença renal crônica não precisa ser uma descoberta tardia. Os exames estão disponíveis - inclusive no Sistema Único de Saúde. Falta transformar o óbvio em rotina.

 

Não se trata de tecnologia sofisticada ou de soluções complexas. Às vezes, tudo começa com um exame que ninguém pediu. Ou que ninguém lembrou: a creatinina.

 

*José A. Moura Neto é Presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia
 

*Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

Entrevistas

Presidente da BahiaFarma, Ceuci Nunes aposta em crescimento de laboratório baiano no Brasil

Presidente da BahiaFarma, Ceuci Nunes aposta em crescimento de laboratório baiano no Brasil
Fotos: Tito Ferreira / Bahia Notícias
Segundo ela, a entidade agora vai produzir novos medicamentos e terá algumas novidades para o ano de 2026.