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Coluna

OPINIÃO: O Bahia precisa ser, na prática, aquilo que defende no discurso

Por Bia Jesus

Foto: Rafael Rodrigues / EC Bahia

Verdade. Substantivo feminino. Separação silábica: ver-da-de.

Definição 1: Aquilo que está de acordo com os fatos ou com a realidade; autenticidade, exatidão, veracidade. Definição 2: Fidelidade de uma representação em relação ao original; precisão, correspondência.

 

Existem algumas verdades sobre o Bahia que precisam ser ditas. E, neste momento, há uma que considero indispensável: ser um clube democrático e progressista exige, antes de qualquer discurso, o exercício da democracia e do progressismo. Não basta defender valores quando eles são convenientes. Não se pode utilizar uma balança com dois pesos e duas medidas. A coerência precisa existir tanto nas manifestações públicas quanto nas decisões tomadas dentro do clube.

 

Os acontecimentos dos últimos dias expuseram uma contradição que merece ser discutida. De um lado, uma instituição que construiu parte de sua identidade contemporânea sobre a defesa de causas sociais, da diversidade e do orgulho nordestino. Do outro, atitudes de integrantes do próprio clube que, no mínimo, colocam em dúvida o quanto esses valores são compreendidos e compartilhados internamente.

 

Tudo começou no último sábado (24), durante o empate por 1 a 1 entre Santos e Bahia, na Vila Belmiro. Em meio à confusão protagonizada por Neymar Jr. e Rodrigo Nestor, o meia tricolor demonstrou, diante das câmeras do Premiere, o respeito que possui pela camisa que veste. Ao relatar ter sido desrespeitado pelo camisa 10 santista, Nestor não se intimidou diante de um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro. Defendeu a si próprio, sua trajetória e, principalmente, o escudo do Bahia.

 

A atitude foi celebrada pela torcida, que ocupou as redes sociais para defender seu jogador. Por alguns instantes, havia ali a identificação que tantas vezes se cobra de um elenco: um atleta disposto a se posicionar publicamente em defesa da instituição que representa.

 

Depois, uma confusão generalizada causada por Neymar ao ser expulso fez com que a torcida abraçasse ainda mais naquele momento.

 

Mas o que aconteceu depois revelou mais um capítulo da desconexão entre parte do elenco e a arquibancada. Primeiro, dentro de campo, o Bahia sofreu o empate nos acréscimos, desperdiçando dois pontos fundamentais na disputa por uma vaga direta na fase de grupos da Libertadores. Depois, fora dele, vieram manifestações que ampliaram a frustração.

 

Rogério Ceni, que também havia sido empurrado por Neymar durante a reclamação do camisa 10 do Santos após o gol do Bahia, preferiu minimizar o episódio envolvendo a si próprio. "Com relação à parte comigo, eu tenho zero problema, isso é do jogo, ele defende o Santos, e eu o Bahia", declarou. É verdade que o treinador também afirmou que Neymar precisava se policiar quanto à postura diante de Nestor. Ainda assim, a naturalidade com que tratou o empurrão recebido contrasta com o sentimento de indignação manifestado por parte dos tricolores.

 

Na sequência, Erick Pulga e Marcos Victor utilizaram as redes sociais para celebrar o encontro com Neymar. Vazou a imagem de Pulga exibindo a camisa recebida do atacante santista e classificou o momento como a realização de um sonho. Marcos Victor, depois de receber um tapa na cara do jogador do Santos, também foi às redes sociais para enaltecer a oportunidade de dividir o campo com um de seus ídolos, algo que foi proporcionado pelo Bahia, que fique claro.

 

Não há problema algum em admirar Neymar. Seu talento e sua importância para uma geração de jogadores são indiscutíveis. O problema está no contexto. Depois de um episódio em que um companheiro denunciou ter sido desrespeitado, seu técnico ter sido empurrado, você ter recebido um tapa na cara e o próprio clube ter precisado publicar uma nota repudiando as agressões verbais, faltou, no mínimo, sensibilidade para compreender o momento.

 

Afinal, até onde vai a admiração por um ídolo e onde começa o compromisso com o escudo que se carrega no peito e com a torcida que te apoia? O torcedor não exige que seus jogadores deixem de admirar adversários, muito menos que torçam para o Bahia. Exige que compreendam que, enquanto estiverem representando o Bahia, existe uma responsabilidade coletiva que precisa se sobrepor às realizações individuais.

 

E é justamente essa responsabilidade que nos conduz ao episódio mais grave desta sequência.

 

No último domingo (25), após o resultado das eleições presidenciais, o atacante Willian José compartilhou um vídeo com ofensas à população nordestina. Na gravação, um influenciador associava os moradores da região à dependência de benefícios sociais e reproduzia um discurso de desprezo ao Nordeste.

 

O atacante, posteriormente, justificou a publicação afirmando que pretendia estimular uma reflexão sobre a atuação dos políticos e as escolhas dos eleitores, apagando a mensagem de ódio publicada anteriormente. Mas é necessário estabelecer uma distinção fundamental: divergência política é uma coisa; reproduzir conteúdo que ofende e estigmatiza uma população inteira é outra.

 

O Bahia é um clube que, historicamente, encontra na identidade nordestina uma de suas maiores fontes de orgulho. Uma instituição que se apresenta como símbolo de resistência, pertencimento e valorização de um povo que, durante décadas, enfrentou preconceitos e marginalização. Como conciliar esse discurso com a atitude de um atleta que representa justamente essa instituição?

 

É nesse ponto que cabe a reflexão do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, em Humano, Demasiado Humano: "As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras".

 

O Bahia parece convicto dos valores que defende. Mas a convicção, por si só, não garante a coerência. É preciso que os princípios anunciados nas campanhas institucionais encontrem correspondência nas atitudes de quem representa o clube, independentemente de cargo, salário, prestígio ou importância esportiva.

 

E, para não dizer que não falei das flores, seria injusto ignorar o papel desempenhado pelo Bahia na defesa de pautas sociais. Ao longo dos últimos anos, o clube utilizou sua visibilidade para abordar o combate ao racismo, a valorização dos povos originários, o respeito às religiões de matriz africana, os direitos da população LGBTQIAPN+, a proteção das mulheres e a valorização da identidade nordestina, entre outras causas importantes.

 

Essas iniciativas possuem relevância e merecem reconhecimento. Entretanto, quanto maior o compromisso público assumido por uma instituição, maior também é a responsabilidade de demonstrar que ele não termina quando uma campanha chega ao fim ou quando uma publicação deixa de aparecer nas redes sociais.

 

E talvez o episódio envolvendo a goleira Yanne seja o que melhor sintetize essa contradição.

 

Incomodada com a reprodução de discursos que marginalizam a população nordestina, a atleta das Mulheres de Aço utilizou suas redes sociais para defender a região e questionar a associação de seu povo à dependência de auxílios governamentais. Segundo informações divulgadas pela imprensa, o Bahia teria solicitado que a goleira apagasse a publicação, o que de fato aconteceu. Procurado sobre o assunto, o clube informou que não se pronunciaria.

 

Se essa orientação realmente partiu da instituição, é preciso perguntar: por que uma atleta que defendeu publicamente a dignidade do povo nordestino precisaria silenciar justamente quando essa dignidade estava sendo questionada por outro atleta do clube?

 

A opção institucional pelo apartidarismo é legítima. Um clube pode optar por não se associar a partidos ou candidaturas, afinal, dado o tamanho da massa tricolor, há torcedores de ambos os lados. Mas defender uma população de ataques preconceituosos não é, necessariamente, assumir uma posição partidária. É defender um princípio que o próprio Bahia afirma considerar inegociável.

 

Não se trata de exigir que todos os atletas compartilhem as mesmas opiniões políticas. Trata-se de cobrar que todos respeitem os valores fundamentais da instituição que representam. Democracia não significa ausência de responsabilidade, assim como apartidarismo não pode servir para equiparar manifestações de preconceito à defesa de quem sofre esse preconceito.

 

Na terça-feira (27), o Bahia divulgou uma nota oficial reafirmando seu compromisso com o Nordeste e com o povo nordestino. No comunicado, declarou estar "ciente de sua história e importância por uma sociedade mais justa e igualitária" e informou que o episódio envolvendo Willian José havia sido tratado internamente.

 

O posicionamento é importante, mas também deixa uma pergunta: de que maneira esse compromisso se traduz em atitudes concretas dentro do clube? Não se exige a exposição pública de procedimentos internos, mas transparência suficiente para que a torcida compreenda como os princípios anunciados são efetivamente preservados.

 

Porque um clube que defende tantas causas importantes não pode permitir que sua atuação progressista seja percebida apenas como uma estratégia de comunicação. O respeito ao povo nordestino precisa estar presente no cotidiano, no vestiário, nas relações profissionais e nas decisões institucionais.

 

O Bahia cresceu esportivamente, ampliou sua estrutura e passou a ocupar espaços cada vez mais relevantes no futebol brasileiro. Mas grandeza não se mede somente por investimentos, resultados ou campanhas publicitárias. Mede-se também pela capacidade de preservar a própria identidade, especialmente quando isso exige decisões difíceis.

 

Na nota oficial, o clube recorreu à célebre frase de Euclides da Cunha, em Os Sertões (1902), para afirmar que "O nordestino é, antes de tudo, um forte".

 

Aproveito a referência para recuperar outra passagem da mesma obra, escrita há mais de um século, mas que ainda permite uma reflexão sobre o presente:

 

"Estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desaparecemos."

 

O Bahia não precisa desaparecer de suas convicções. Precisa, justamente, fazer com que elas sejam reconhecidas nas práticas de quem integra a instituição.

 

Porque a verdade é uma só: não basta ser progressista nas redes sociais, democrático nos manifestos e defensor do Nordeste nas campanhas. É preciso ser tudo isso também quando as circunstâncias exigem posicionamento, coerência e responsabilidade.

 

E, acima de qualquer resultado dentro das quatro linhas, é essa verdade que o Bahia não pode deixar para trás.