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Vilma Reis chega à AL-BA após quatro décadas de militância e promete levar luta antirracista ao Legislativo

Por Lucas Vieira

Foto: Reprodução / Instagram @vilmareisoficial

A trajetória política da deputada estadual eleita Vilma Reis (PT) começou muito antes de a socióloga, professora e defensora dos direitos humanos conquistar espaço nas urnas. Ainda adolescente, aos 15 anos, ela já participava de mobilizações em defesa da escola pública em Salvador. Mais de quatro décadas depois, a militante do movimento de mulheres negras se prepara para assumir uma cadeira na Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA).

 

Mulher negra, de 57 anos, nascida em Salvador e criada em Nazaré das Farinhas, no Recôncavo baiano, Vilma construiu sua formação política a partir das experiências da própria família e das desigualdades que atravessaram sua juventude. Filha de um trabalhador ferroviário e neta de uma mulher que valorizava a educação como caminho de transformação, ela passou pelo movimento estudantil, pela pesquisa acadêmica e por instituições públicas antes de ingressar na disputa eleitoral.

 

A história da futura deputada começa em uma família cuja relação com a política foi marcada pela luta dos trabalhadores. Embora tenha nascido em Salvador, em 29 de outubro de 1969, Vilma passou parte da infância em Nazaré das Farinhas, para onde foi aos três anos. Seu pai trabalhava na Rede Ferroviária e participou de uma mobilização de funcionários que estavam há meses sem receber salários. Após o movimento, segundo ela, ele foi expulso da cidade.

 

A família voltou para Salvador, onde o pai passou a trabalhar como barraqueiro nas festas populares. A atividade aproximou Vilma de uma parte da cultura da cidade que, na avaliação dela, também representava uma forma de resistência dos trabalhadores negros. Nas festas de largo, as barracas precisavam disputar espaço e negociar sua permanência com o poder público.

 

“Barraqueiro de festa de largo sempre teve que lutar com o poder público para manter sua barraca, para ter os seus espaços garantidos todos os anos”, lembrou em entrevista ao Bahia Notícias.

 

Na adolescência, ela trabalhou como empregada doméstica e como feirante no interior. Mesmo diante das dificuldades, seguiu em busca de uma formação acadêmica e construir outro caminho por meio da educação. “Minha avó dizia: ‘Um dia você vai para a Bahia para ser doutora’”, recordou. Bahia era a referência que pessoas mais velhas faziam a Salvador.

 

Já de volta à capital, Vilma estudou em escolas públicas e se envolveu com atividades culturais e políticas no ambiente escolar. Participou de movimentos em defesa da educação e chegou à presidência do grêmio estudantil do Colégio Central, instituição que, segundo ela, reunia milhares de estudantes de diferentes regiões da cidade e também das ilhas da Baía de Todos-os-Santos.

 

A militância também esteve presente na busca por moradia. Aos 19 anos, a militante participou de uma ocupação na terceira etapa de Castelo Branco, em Salvador. Aos 21 anos, ela passou a morar na residência universitária da Universidade Federal da Bahia (Ufba), onde continuou envolvida com o movimento estudantil, o movimento negro e a organização de mulheres.

 

A formação acadêmica se desenvolveu em paralelo à militância, que também a aproximou de debates internacionais sobre racismo e diáspora africana. Em 1993, Vilma foi para Viena, na Áustria, onde viveu por dois anos. No período, teve contato com outras experiências políticas e ampliou suas referências intelectuais, como os autores Frantz Fanon, Abdias Nascimento, Aimé Césaire e Lélia Gonzalez.

 

De volta à Bahia, ingressou na Ufba e aprofundou a atuação acadêmica e política. Em 1999, participou da reconstrução dos festivais de cultura da União Nacional dos Estudantes (Une), iniciativa que, segundo ela, reuniu artistas e promoveu debates sobre juventude.

 

Vilma integrou o programa Cor da Bahia, de iniciação científica, e participou de atividades relacionadas ao projeto Raça e Democracia nas Américas, desenvolvido com o Centro de Recursos Humanos da Ufba e a Associação de Cientistas Políticos Negros dos Estados Unidos. Posteriormente, passou a atuar no CEAFRO, programa de educação para a igualdade racial e de gênero ligado à universidade, do qual se tornou coordenadora executiva.

 

Vilma relatou que o trabalho também envolveu profissionais dos distritos sanitários de Salvador, com o objetivo de ampliar a compreensão sobre os efeitos do racismo no atendimento à população. “Isso é uma coisa muito importante para enfrentar o racismo institucional na saúde, para que a gente pudesse apurar o olhar sobre as questões de anemia falciforme, de hipertensão, de diabetes, de glaucoma”, explicou.

 

Depois da formação acadêmica, Vilma ingressou na docência universitária. Em 2009, começou a lecionar na Universidade do Estado da Bahia (Uneb), no campus de Seabra, na Chapada Diamantina, onde trabalhou com estudantes quilombolas. Em 2015, Vilma foi eleita pela sociedade civil para a função de ouvidora-geral da Defensoria Pública do Estado da Bahia (DPE-BA), cargo que ocupou até 2019.

 

No período, também presidiu o Conselho Nacional das Ouvidorias Externas das Defensorias Públicas do Brasil. Antes de ingressar na política, ela liderou o movimento “Agora é Ela por uma Cidade de Direitos – Mulheres Negras na Prefeitura de Salvador”. Em 2022, concorreu a deputada federal, obteve 60.949 votos e ficou na suplência. Em 2026, foi eleita com 83.222 votos, sendo a 18ª mais votada.

 

PROPOSTAS PARA O MANDATO
Para o mandato na Assembleia, Vilma Reis defende propostas voltadas ao combate ao racismo, à violência contra mulheres e à discriminação, além da ampliação de direitos sociais. Entre as prioridades estão o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), a valorização dos trabalhadores, a defesa dos territórios quilombolas e indígenas e a ampliação do acesso à educação.

 

Na área da segurança pública, a socióloga defende uma atuação orientada pelos direitos humanos, com acompanhamento da letalidade policial e ampliação da rede de atendimento às mulheres vítimas de violência. Ela também se posiciona contra a chamada “guerra às drogas”, que, segundo ela, atinge principalmente a população negra e periférica.

 

Vilma também propõe medidas para ampliar a participação popular nas decisões públicas, fortalecer políticas de igualdade racial e de gênero e combater a violência política. Na educação, defende o fortalecimento da Educação de Jovens e Adultos (EJA), a valorização da educação quilombola e o cumprimento das leis que tornam obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena.

 

LEGADO DE OLÍVIA SANTANA
A chegada de Vilma Reis ao legislativo baiano também ganha relevância diante da eleição de Olívia Santana (PCdoB) para a Câmara dos Deputados. Referência na defesa dos direitos da população negra, Olívia era a única mulher negra no Parlamento baiano.

 

Para Vilma, a presença de uma única mulher negra no Legislativo é insuficiente. “Eu penso que a gente tem que batalhar, daqui para frente, para ter muitas outras mulheres negras. Essa política de ser a única, ela é muito ruim. Essa política do sozinho, do único, ela não nos ajuda”, afirmou.

 

Vilma e Olívia se conhecem desde o movimento estudantil. Enquanto Vilma dirigia a União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas (Umes), em Salvador, Olívia atuava no Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal da Bahia (Ufba). A futura deputada também destacou a eleição de Maria Marighella para o Congresso Nacional como um avanço para a representação política de mulheres negras.