Iphan encontra danos estruturais durante vistoria na Igreja de São Bento e solicita manifestação de diocese em Salvador
Por Eduarda Pinto
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) encontrou falhas estruturais e de conservação na Igreja e Mosteiro de São Bento, no Centro Histórico de Salvador. Os danos foram encontrados em um processo administrativo de fiscalização, por meio vistoria técnica na edificação, que está interditada pela Defesa Civil de Salvador desde 2025, e é tombada desde 1938.
A fiscalização do órgão, que é responsável pela gestão de preservação e divulgação de patrimônios nacionais, ocorreu em junho deste ano e, segundo relatório oficial obtido pelo Bahia Notícias, encontrou “danos ao patrimônio, em razão da ausência de intervenções de manutenção e restauração do imóvel”, que é parte do patrimônio histórico de arquitetura barroca na capital baiana.
No relatório, assinado pela servidora técnica Monalisa Macedo e protocolado no dia 07 de julho, o Iphan destaca que “a maior parte dos danos constatados derivam do precário estado de conservação do sistema de cobertura, que favorece a infiltração em diversos pontos da Igreja e do Mosteiro e provocando a deterioração das estruturas”.
A interdição do espaço foi confirmada pela Codesal em fevereiro de 2025. Mais de um ano depois, a análise do Iphan identificou danos em ao menos três aspectos no prédio: infiltrações e oxidação nas estruturas, ação de cupins e fissuras. O material protocolado conta com imagens do cenário encontrado.

Foto: Reprodução / Relatório do Iphan
“Dentre os principais danos, registra-se trechos com desprendimento de concreto expondo a armadura e favorecendo o processo de oxidação do aço na nave da Igreja, infiltrações em diversos pontos da Igreja e do Mosteiro, resultando em deterioração de forros e assoalhos de madeira, bem como deterioração de estruturas em concreto armado”, diz o trecho do relatório do Instituto do Patrimônio.

Foto: Reprodução / Relatório do Iphan
A servidora relatou ainda que “praticamente em todos os pontos acessados foi possível verificar deficiência no sistema de telhamento, com a presença de telhas danificadas e deslocadas, além do acúmulo de limo e outras sujidades”.

Foto: Reprodução / Relatório do Iphan
No entendimento do Iphan, o cenário encontrado na Igreja, que é mantida pela Ordem de São Bento na Bahia, fere diretamente o artigo 17 da Lei do Tombamento (Decreto-Lei nº 25/1937), que organiza a proteção do patrimônio histórico e artístico nacional.
O texto aponta que “as coisas tombadas não poderão, em caso nenhum ser destruídas, demolidas ou mutiladas, nem, sem prévia autorização especial do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, ser reparadas, pintadas ou restauradas, sob pena de multa de cinquenta por cento do dano causado”.
Em resposta aos problemas encontrados na Igreja e Mosteiro, o superintendente do Iphan na Bahia, Hermano Guanais Queiroz enviou um ofício, datado do dia 10 de julho, para a manifestação da Ordem beneditina em Salvador acerca das irregularidades encontradas.
A entidade foi intimada a se manifestar sobre o processo administrativo em até 15 dias a partir do recebimento do ofício. “Destaca-se que o não atendimento à presente Notificação, dentro do prazo acima estipulado, poderá ensejar a continuidade dos atos regulares desta Superintendência, relativos à fiscalização do patrimônio tombado”, afirma.
Ainda no dia 10 de julho, o Arquiabade do Mosteiro de São Bento, Joaquim Augusto, conhecido como Dom Emanuel d’Able do Amaral, reconheceu o recebimento do ofício. O andamento do processo agora depende da resposta da Ordem frente aos apontamentos do Iphan.
IGREJA DE SÃO BENTO
O primeiro prédio do Mosteiro começou a ser construído a partir de 1582 e as edificações, ainda incompletas, começaram a ser habitadas pelos monges em 1584. O edifício atual foi construído entre os séculos XVII e XX, e seu altar-mor é de 1871. Estudos brasileiros como o de Handel Cecílio (2014), apontam que o espaço foi o primeiro Mosteiro Beneditino nas Américas e fora da Europa.
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Igreja de São Bento, localizado no Largo de São Bento, em um cartão postal do século XX e de 1870, respectivamente. Fotos: Acervo digital do Iphan.
Com mais de 400 anos de história, o prédio foi reconhecido como patrimônio histórico e cultural do Brasil em 1938, há 88 anos. Além do valor arquitetônico, o Mosteiro ainda abriga uma das mais completas bibliotecas históricas com registros raros, datados entre 1500 e 1503.
A Biblioteca do Mosteiro de São Bento da Bahia foi fundada em 1582, reúne um acervo bibliográfico considerável, acumulado e conservado ao longo de mais de quatro séculos com obras como são manuscritos, iluminuras, livros, documentos históricos, cartas, testamentos, mapas, desenhos e plantas de arquitetura, partituras musicais.
