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mosteiro de sao bento
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) encontrou falhas estruturais e de conservação na Igreja e Mosteiro de São Bento, no Centro Histórico de Salvador. Os danos foram encontrados em um processo administrativo de fiscalização, por meio vistoria técnica na edificação, que está interditada pela Defesa Civil de Salvador desde 2025, e é tombada desde 1938.
A fiscalização do órgão, que é responsável pela gestão de preservação e divulgação de patrimônios nacionais, ocorreu em junho deste ano e, segundo relatório oficial obtido pelo Bahia Notícias, encontrou “danos ao patrimônio, em razão da ausência de intervenções de manutenção e restauração do imóvel”, que é parte do patrimônio histórico de arquitetura barroca na capital baiana.
No relatório, assinado pela servidora técnica Monalisa Macedo e protocolado no dia 07 de julho, o Iphan destaca que “a maior parte dos danos constatados derivam do precário estado de conservação do sistema de cobertura, que favorece a infiltração em diversos pontos da Igreja e do Mosteiro e provocando a deterioração das estruturas”.
A interdição do espaço foi confirmada pela Codesal em fevereiro de 2025. Mais de um ano depois, a análise do Iphan identificou danos em ao menos três aspectos no prédio: infiltrações e oxidação nas estruturas, ação de cupins e fissuras. O material protocolado conta com imagens do cenário encontrado.

Foto: Reprodução / Relatório do Iphan
“Dentre os principais danos, registra-se trechos com desprendimento de concreto expondo a armadura e favorecendo o processo de oxidação do aço na nave da Igreja, infiltrações em diversos pontos da Igreja e do Mosteiro, resultando em deterioração de forros e assoalhos de madeira, bem como deterioração de estruturas em concreto armado”, diz o trecho do relatório do Instituto do Patrimônio.

Foto: Reprodução / Relatório do Iphan
A servidora relatou ainda que “praticamente em todos os pontos acessados foi possível verificar deficiência no sistema de telhamento, com a presença de telhas danificadas e deslocadas, além do acúmulo de limo e outras sujidades”.

Foto: Reprodução / Relatório do Iphan
No entendimento do Iphan, o cenário encontrado na Igreja, que é mantida pela Ordem de São Bento na Bahia, fere diretamente o artigo 17 da Lei do Tombamento (Decreto-Lei nº 25/1937), que organiza a proteção do patrimônio histórico e artístico nacional.
O texto aponta que “as coisas tombadas não poderão, em caso nenhum ser destruídas, demolidas ou mutiladas, nem, sem prévia autorização especial do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, ser reparadas, pintadas ou restauradas, sob pena de multa de cinquenta por cento do dano causado”.
Em resposta aos problemas encontrados na Igreja e Mosteiro, o superintendente do Iphan na Bahia, Hermano Guanais Queiroz enviou um ofício, datado do dia 10 de julho, para a manifestação da Ordem beneditina em Salvador acerca das irregularidades encontradas.
A entidade foi intimada a se manifestar sobre o processo administrativo em até 15 dias a partir do recebimento do ofício. “Destaca-se que o não atendimento à presente Notificação, dentro do prazo acima estipulado, poderá ensejar a continuidade dos atos regulares desta Superintendência, relativos à fiscalização do patrimônio tombado”, afirma.
Ainda no dia 10 de julho, o Arquiabade do Mosteiro de São Bento, Joaquim Augusto, conhecido como Dom Emanuel d’Able do Amaral, reconheceu o recebimento do ofício. O andamento do processo agora depende da resposta da Ordem frente aos apontamentos do Iphan.
IGREJA DE SÃO BENTO
O primeiro prédio do Mosteiro começou a ser construído a partir de 1582 e as edificações, ainda incompletas, começaram a ser habitadas pelos monges em 1584. O edifício atual foi construído entre os séculos XVII e XX, e seu altar-mor é de 1871. Estudos brasileiros como o de Handel Cecílio (2014), apontam que o espaço foi o primeiro Mosteiro Beneditino nas Américas e fora da Europa.
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Igreja de São Bento, localizado no Largo de São Bento, em um cartão postal do século XX e de 1870, respectivamente. Fotos: Acervo digital do Iphan.
Com mais de 400 anos de história, o prédio foi reconhecido como patrimônio histórico e cultural do Brasil em 1938, há 88 anos. Além do valor arquitetônico, o Mosteiro ainda abriga uma das mais completas bibliotecas históricas com registros raros, datados entre 1500 e 1503.
A Biblioteca do Mosteiro de São Bento da Bahia foi fundada em 1582, reúne um acervo bibliográfico considerável, acumulado e conservado ao longo de mais de quatro séculos com obras como são manuscritos, iluminuras, livros, documentos históricos, cartas, testamentos, mapas, desenhos e plantas de arquitetura, partituras musicais.
Uma das primeiras igrejas do Brasil, sendo erguida antes mesmo da fundação de Salvador na primeira metade do século XV, a Igreja de Nossa Senhora da Graça, localizada na Avenida Princesa Leopoldina, foi alvo de uma vistoria no âmbito de uma força-tarefa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O ato resultou em uma notificação ao Mosteiro de São Bento da Bahia, responsável pela administração do prédio histórico, após a identificação de “patologias” na conservação.

Igreja da Graça, na Av. Princesa Leopoldina | Foto: Iphan
Em documento obtido pelo Bahia Notícias, o Iphan determinou que o Mosteiro preste esclarecimentos sobre o estado de conservação da Igreja da Graça. Além disso, a entidade solicitou que sejam realizadas as providências referentes à necessidade de manutenção do imóvel para evitar danos ao patrimônio cultural tombado.
A reportagem apurou que a notificação foi enviada no dia 31 de março neste ano, sendo estabelecido um prazo de 15 dias para que o Mosteiro se posicionasse em relação aos requerimentos do Iphan. Foi solicitado que um ofício fosse encaminhado à Defesa Civil de Salvador (Codesal) e ao Corpo de Bombeiros para a realização de uma nova vistoria no imóvel e manifestação sobre suas condições.
“Fica o Mosteiro de São Bento da Bahia, notificado a prestar esclarecimentos quanto ao atual estado de conservação do imóvel, tomando providências referente à necessidade de manutenção do imóvel em prol de evitar danos ao patrimônio cultural tombado. Recomenda-se, ainda, que sejam acionados os órgãos de prevenção de desastres e combate à incêndio e pânico para que também façam vistoria no imóvel e se manifestem, de acordo às suas competências institucionais”, escreveu o Iphan.
O Bahia Notícias também recebeu informações de que o Instituto realizou uma cobertura fotográfica do imóvel, sinalizando falhas em áreas internas e externas. Em relatório, a entidade destaca a ocorrência de infiltrações, além da ausência de telhas na cobertura da Igreja da Graça.
Veja imagens:



Fotos recolhidas do relatório do Iphan obtido pelo Bahia Notícias
O laudo também destaca a ausência de bens integrados que compõem o coro da igreja. O relatório indicou que alguns desses elementos do coro foram identificados armazenados em uma das clausuras, e sua recolocação é recomendada. O Iphan sinalizou que as fachadas “necessitam de pequenos reparos na pintura e tratamento de áreas com descascamento e biofilme”.
Confira:



Fotos recolhidas do relatório do Iphan obtido pelo Bahia Notícias
PATRIMÔNIO
Tombada pelo Iphan em 1938, a construção foi erguida por volta dos anos de 1535, sendo a primeira igreja de Salvador. No entanto, além do patrimônio em suas estruturas, o edifício também recebe um dos acervos mais valiosos da Bahia. Um exemplo são os restos mortais de Catarina Paraguaçu, um dos nomes mais importantes da história do país.

Túmulo de Catarina Paraguaçu na Igreja da Graça | Foto: Reprodução / Redes Sociais
A Igreja, inclusive, foi erguida a mando de Paraguaçu após o retorno de uma viagem do Caramuru à França. Uma reportagem do AratuOn conta que o historiador Zé Raimundo Lima, coordenador do Complexo Cultural da Igreja da Graça, revelou que Catarina teve um sonho com uma imagem, que seria de Nossa Senhora da Graça.
"Logo em seguida, após o sonho de Catarina, foi encontrada, num naufrágio na região Sul da Bahia, uma imagem de Nossa Senhora da Graça. Foi então que Catarina pediu que fosse erguida uma igreja. O terreno foi cedido por ela para a construção", disse o historiador.

Foto: Acervo Digital / Iphan
O edifício também recebe os restos mortais de Júlia Fetal, uma jovem assassinada pelo noivo por ciúmes em 1847, na Avenida Sete, sendo reconhecido como 'o crime da bala de ouro', em 1847. O caso serviu também de inspiração para a novela "Espelho da Vida", da TV Globo.
Segundo a lenda, a bala era de ouro, feita do derretimento da aliança de noivado. Todavia, este relato não é verídico, a bala foi retirada em meados do século XX e foi confirmado que o material era de chumbo.
Voltando a falar sobre o acervo, a Igreja da Graça ainda tem um apanhado valioso de documentos, obras de arte, objetos como lavabos e madeiramento original, além de telas do baiano Manuel Lopes Rodrigues, um dos mais importantes pintores brasileiros do realismo, e peças artísticas do século XVIII.
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