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Safra, sabor e sanfona: mudanças climáticas acendem alerta para a segurança alimentar na Bahia

Por Eduarda Pinto

Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Quando o outono chega ao Nordeste, alguns elementos dão o tom da festa mais popular da região. No entanto, antes da comemoração que culmina no dia 24 de junho – e dura pelo mês inteiro –, as festas juninas são marcadas pela colheita dos principais itens da festividade, entre eles o milho, o amendoim e a mandioca. Na Bahia e em quase todo o país, a maior parte da “fartura” na mesa é fruto da agricultura e da pecuária familiar, que são as primeiras a sentir os efeitos das mudanças climáticas.

 

O Bahia Notícias apresenta, a partir desta quinta-feira (18), a série de reportagens “Safra, sabor e sanfona”. O especial exibe as nuances que tornam o festejo junino uma das maiores manifestações culturais da Bahia, com destaque para as mudanças na dinâmica da agricultura, na comida que chega à mesa e nas celebrações embaladas pela música tradicional (ou não).

 

Nesta primeira reportagem, damos destaque à agricultura e à habitação no sertão baiano, que deve passar por adaptações importantes para a garantia da preservação da vida no semiárido. Esses impactos podem ser vistos em dados e imagens disponibilizados pelo Sistema de Informações e Análises sobre Impactos das Mudanças Climáticas, o AdaptaBrasil. Na aba de segurança alimentar, alimentada com dados de 2017, é possível obter os índices de impactos dos 417 municípios da Bahia.

 

Ao analisar a segurança alimentar, o painel do MCTI se divide nos subsetores de “Disponibilidade de Alimentos” e “Acesso e Consumo de Alimentos”. A dimensão “Estabilidade” foi incorporada como mediadora dos dois subsetores, sendo utilizada para analisar a constância dos indicadores.

 

Conforme o entendimento da própria cartilha, a Disponibilidade de Alimentos é a dimensão que demonstra maior impacto direto das mudanças climáticas, já que os fenômenos naturais influenciam de maneira quase imediata a produção de alimentos. É neste subsetor que iremos nos aprofundar.

 

No mapa de Índice de risco de impacto, onde são avaliados os riscos das mudanças climáticas (como a seca) nos sistemas socioecológicos, a maior parte dos municípios, até então, apresentava resultados otimistas: 212 municípios apresentaram risco considerado muito baixo; 113 demonstraram baixo risco; 66 cidades foram destacadas com risco médio; 22 foram registradas com risco alto e quatro com risco muito alto. Os municípios com risco muito alto foram: Matina, Malhada e Sítio do Mato, na região do Velho Chico; e Abaré, na região norte do estado.

 


Mapa com dados sobre o riscos das mudanças climáticas na Bahia. Fonte: AdaptaBrasil

 

Já no Índice de vulnerabilidade, que mede o grau de suscetibilidade de um sistema socioecológico aos efeitos da seca que pode comprometer a disponibilidade de alimentos, o cenário se complexifica e a maior parte dos municípios entra em nível médio ou alto de risco. Conforme os dados do AdaptaBrasil, seriam 27 municípios com baixo risco de vulnerabilidade; 325 – a maioria absoluta – com índice médio, e outros 64 municípios com índice alto de vulnerabilidade. Apenas um município, Rodelas, no território de Itaparica, no norte do estado, registrou índice muito alto de suscetibilidade à falta de alimentos.

 


Mapa com dados sobre a vulnerabilidade frente a disponibilidade de alimentos na Bahia. Fonte: AdaptaBrasil

 

Considerando a fragilidade dos dados, que apontam para uma realidade de quase dez anos atrás – desconsiderando mudanças cruciais de ação antrópica, urbanização dos municípios, evoluções das ocorrências de desastres e as políticas públicas voltadas para o tema –, o Bahia Notícias conversou com alguém que acompanha essa realidade de perto no tempo presente.

 

GESTÃO E POLÍTICA PÚBLICA
Débora Rodrigues, presidente do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional do Estado da Bahia (Consea-BA), é uma das representantes da sociedade civil que acompanha as políticas estaduais de promoção da segurança alimentar. Ela elucida que “temos hoje, no território do semiárido, já pesquisas caminhando para apontar questões de que nós podemos ter, sim, impacto na produção de alimentos”. “O Brasil saiu do mapa da fome, mas a fome ainda não saiu do mapa do Brasil”, porém essa projeção não é uma sentença.

 


Foto: Jonas Santos/Ascom Seades

 

“A gente consegue, a partir da experimentação, mostrar que esse território não é inabitável e improdutivo. É preciso, na verdade, aprender a conviver com esse território”, ressalta.

 

Em entrevista ao BN, a ativista explana que um primeiro fator importante para a compreensão do processo de adaptação climática é compreender que os desafios ambientais e climáticos não são novidade no semiárido baiano e nordestino.

 

Segundo ela, considerando que a maior parte dos municípios baianos está dentro do Semiárido Brasileiro – 287 deles objetivamente (68,8% do total) –, é importante deixar de lado o entendimento prévio de “combate à seca”.

 

“Nós temos um território grande da Bahia, que vai para além do Centro-Oeste e do Norte, que é considerado esse território do semiárido, certo? Por isso a gente muda o paradigma: de um paradigma de desenvolvimento de combate à seca e passa para um paradigma de desenvolvimento de convivência com o semiárido. Quando você trata do processo de convivência, você muda a perspectiva da produção de alimentos”, explica Débora.

 

Ela, que é mestra em Desenvolvimento Social pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), destaca que as medidas de adaptação são importantes justamente porque o semiárido já é uma região amplamente produtiva na Bahia e que, para além da dimensão econômica, é o lar de milhões de baianos.

 

“O El Niño e a seca são fenômenos naturais, mas o agravamento deles é aumentado pela nossa contribuição, pela ação humana, da forma como a gente lida com a exploração das terras, das matas e do ambiente do território”, afirma.

 

Mas é justamente neste ponto que surge o primeiro desafio: “Nós temos um desafio grande, que é: esse território é também objeto de um modelo de desenvolvimento predatório. Aí você tem as mineradoras e as eólicas”, cita.

 

O desafio apresentado pela presidente do Consea já é conhecido. A Bahia foi o terceiro estado com maior índice de desmatamento no ano de 2025. Ao todo, foram 110.616 hectares desmatados em todo o estado, com predominância na região oeste, onde o território integra uma fronteira de expansão agrícola ao lado do Maranhão, Tocantins e Piauí: o Matopiba. O desmatamento impulsionado pelo desenvolvimento energético também foi registrado.

 

Nesse viés, Débora Rodrigues explica que o Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional do Estado da Bahia é um órgão colegiado de fiscalização de políticas públicas, vinculado à Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social da Bahia (Seades). Atualmente, o grupo é composto por representantes de 24 entidades da sociedade civil organizada e ONGs.

 

“O conselho tem a função de monitoramento, de fazer o controle social das políticas públicas. A legislação diz que nós temos a responsabilidade de elaborar, propor políticas e legislações, e fazer o monitoramento e o acompanhamento das políticas de segurança alimentar, aquelas que são construídas dentro do Sistema Nacional de Segurança Alimentar”, explica a presidente.

 

O Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, o Sisan, é um sistema público brasileiro criado pela Lei nº 11.346, em 2006. Conforme dados de 2024 registrados no sistema, cerca de 37,4% da população baiana viveria em algum nível de insegurança alimentar (IA), sendo que em nível de IA leve seriam 23,6%; moderada seriam 8,4% e outros 5,4% viveriam em insegurança alimentar grave.

 

Segundo o Consea, mais de 200 municípios já teriam aderido ao Sisan no estado. No entanto, a plataforma federal não disponibilizou o acesso aos dados. Especialmente sobre a realidade estadual, Débora destaca que “a Bahia é um estado onde as pesquisas, quando a gente olha, vai ver que a insegurança alimentar moderada e grave é maior na cidade do que no campo”. Ela diz que, “nos outros estados, isso é o inverso".

 

“Os estudiosos apontam que o semiárido é capaz de produzir alimento em quantidade suficiente, inclusive para contribuir com o resto da nação, desde que mantenha a caatinga em pé”, sustenta a ativista.

 

“Na Bahia, a partir dessa luta política da sociedade, em um diálogo aberto com o governo no conselho, principalmente, nós temos avançado para ter no estado da Bahia uma legislação de convivência com o semiárido”, alega. Essa legislação é baseada no Plano Estadual de Convivência com o Semiárido.

 

Com mais de 168 ações que se articulam com o padrão nacional para garantir um direcionamento à gestão, Débora explica que o plano inclui não apenas medidas de caráter ambiental ou ações emergenciais, mas busca uma ação transversal.

 

“A política de segurança alimentar é uma política intersetorial. O programa de cisterna, por exemplo, é uma ação que começa experimentada com a sociedade civil e depois passa, a partir de 2003, a virar política pública. Há também a política de saúde, tratando as consequências da má alimentação e a obesidade, que são também problemas graves que a gente tem hoje no mundo”, exemplifica.

 


Foto: Fernando Frazão / Arquivo / Agência Brasil

 

Sobre as políticas públicas efetivamente executadas, a presidente do Consea sustenta que as ações vêm de diversas frentes, desde propostas nacionais direcionadas pelo Conselho Nacional e pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), assim como em âmbito estadual e federal.

 

Para Débora, “as políticas existem, são experimentadas e mostram que dá certo. Qual é o desafio disso? Como é que a gente fortalece isso? A gente tem que ampliar o orçamento para que essas políticas possam chegar a mais famílias, a mais territórios”.

 

É nesse sentido que, ao som de Asa Branca, de Luiz Gonzaga – música que narra a complexidade da vida no campo e o sentimento de pertencimento –, ela finaliza: “não existe segurança alimentar sem água, sem terra e sem território”.