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Red Pill: Entenda como comunidades online e vídeos virais promovem a violência contra a mulher nas redes sociais 

Por Alana Dias / Eduarda Pinto

Foto: Reprodução / Redes sociais

Apenas em janeiro de 2026, nos primeiros trinta e um dias do ano, o Brasil registrou 131 casos de feminicídio, de acordo com dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). Crimes com alto grau de violência empenhada e o aumento no número de denúncias de agressão a mulheres não são, porém, fruto de uma mobilização completamente orgânica. A violência contra a mulher sempre esteve presente na sociedade brasileira. No entanto, os crimes produzidos na “realidade material” atualmente recebem influencia direta de discurso cada vez mais “viral” online: o red pill.

 

Nesta reportagem, o Bahia Notícias reflete sobre as origens conhecidas sobre esta “filosofia” e como ela se reflete em conteúdos virais nas redes sociais, incentivando a misoginia e fazendo apologias a violências físicas, psicológicas e patrimoniais contra mulheres. 

 

O termo “red pill” é uma referência ao filme norte-americano Matrix (1999), das irmãs Wachowski, em que o protagonista Thomas Anderson é convidado a “despertar para a realidade” ao escolher entre as pílulas azul, que o manteria inerte em uma éspecie de sonho, e a vermelha, que lhe concederia a consciência da realidade.

 

É com base em uma “revisão” da temática do filme ciberpunk distópico que algumas comunidades predominantemente masculinas dos anos 2000, hospedadas em plataformas online como Reddit, alegam promover um “despertar” de seus seguidores a questões relacionadas a gênero e masculinidade. 

 

A “MACHOSFERA”
As pesquisadoras Ana Carolina Weselovski da Silva e Inês Hennigen, ambas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), detalham algumas características desse movimento no artigo “Misoginia Online: A Red Pill No Ambiente Virtual Brasileiro”, publicado em 2024 na Revista Feminismos da Universidade Federal da Bahia (UFBA). 

 

“Analogamente, para esses masculinistas, acreditar que as mulheres foram/são subjugadas é uma ilusão criada para esconder o fato de que, na verdade, os homens são os explorados e oprimidos por um sistema ginocêntrico”, diz um trecho da pesquisa da dupla, com base em estudos de Van Valkenburgh. 

 

Essas comunidades de homens que promovem uma “revisão” das relações históricas de gênero formam a então chamada “manosfera” ou “machosfera”. Seriam ao menos quatro grupos de homens masculinistas nessa bolha: os MRAs (men’s right activists ou ativistas pelo direito dos homens), os PUAs (pick-up artists ou artistas da sedução), os Incels (involuntary celibates ou celibatários involuntários) e os MGTOWs (men going their own way ou homens seguindo seu próprio caminho).

 

O primeiro grupo, dos Ativistas Pelo Direito dos Homens, é definido como um dos mais antigos. Neste caso, os adeptos se baseiam nas ideias do livro “The Myth of the Male Power” (O mito do poder masculino) do autor Warren Farrell, de 1996, em que o autor nega a existência da dominação masculina e defende que os homens seriam o “sexo descartável” na sociedade por assumirem tarefas arriscadas e as mulheres, por sua vez, estariam numa posição mais protegida e privilegiada.

 

A seguir, os Artistas da Sedução, “propõem a ensinar os homens a como seduzir e se relacionar com as mulheres”, segundo a definição das autoras Ana e Inês. Elas explicam que o grupo também tem bases no final dos anos 90 e início dos anos 2000, sob influencia do estadunidense Daryush Valizadeh, que usa a alcunha de Roosh V. O autor defende a ideia da “neomasculinidade”, criada por ele, como a forma de ensinar homens a reagir em um mundo que, segundo ele, desprezaria características ‘tradicionais masculinas’, a partir de uma suposta natureza biológica que diferenciaria homens e mulheres e reforçando papéis de gênero. 

 

Já os Incels, ou celibatários involuntários, seriam um grupo formado majoritariamente por jovens que não conseguem manter relacionamentos sexuais e amorosos da forma como gostariam, tornando-se celibatários involuntários. Desta forma, o grupo sente afinidade com discursos vinculados a misoginia “e, não raro, culpa as mulheres pelos problemas enfrentados pelos homens”, diz o artigo publicado pela Revista Feminismos, da UFBA, em 2024. 

 

Por fim, os Homens Seguindo Seu Próprio Caminho, é um grupo composto por homens decididos a não se relacionar com mulheres seguindo a premissa rejeição ao “casamento, o amor romântico e o cavalheirismo pois, para eles, são 'costumes ginocêntricos' que acabam por levar à servidão masculina”, explicam as estudiosas. 

 

Todos esses grupos, até então limitados a pequenas comunidades online, têm se tornado cada vez mais presentes nas redes sociais e seguem alcançando novos públicos por meio da impulsão dos algoritmos das plataformas digitais. Os conteúdos produzidos por eles são divulgados em diversos formatos, embalados como “conselhos amorosos”, “guia para o sucesso” ou outras propostas que fazem apologia a configuração binária de gêneros na sociedade, a submissão da mulher e até mesmo a violência física ou psicológica de gênero. 

 

REPERCUSSÕES VIRAIS
Com o alcance das redes sociais, parte destes conteúdos divulgados por estes grupos “masculinistas” - como são chamados, em oposição ao feminismo -, vem alcançando ainda mais seguidores e adeptos. Com conteúdos muitas vezes disfarçados de aconselhamentos ou “dicas de sucesso”, os coachs da masculinidade utilizam seu conteúdo para reforçar o “lugar da mulher” e o “lugar do homem” na sociedade.

 

Um exemplo é o vídeo de influenciador em que ele indica aos seguidores que “toda mulher deveria ter um trabalho pela internet”, mas não por conforto, comodidade ou qualidade de vida, mas para garantir que os tradicionais papeis de gênero sejam cumpridos. 

 

“Porque eu tenho uma teoria. É o seguinte, se a mulher quer namorar, ela quer casar, ela precisa de tempo mais do que o homem. O homem precisa trabalhar mesmo, mas a mulher precisa de um tempo de qualidade para ela gerenciar a casa, para ela ter força e alegria, para ter ideias para fazer um bolo, para ela surpreender, para ela ter energia com ela mesma, se cuidar, porque mulher tem que cuidar, mulher tem que ficar no salão”, narra um influenciador, com mais de 1 milhão de seguidores, conhecido como Mentor e Terapeuta. 

 

 

Esse modelo de conselhos de relacionamento é comum. Um conselheiro famoso por seus posicionamentos quanto ao papel feminino na sociedade é o “Café Com Teu Pai”, também com mais de 1 milhão de seguidores. Em suas “pílulas de incentivo”, o influenciador se predispõe a “ensinar” mulheres a como se comportar, lidar com seus corpos e se adequar ao ponto de vista masculino. 

 

Em uma das ocasiões, ele faz uma correlação entre mulheres que tem relações sexuais fora dos relacionamentos e prostitutas. “A diferença entre a prostituta e a ficante é que a prostituta cobra em troca dos seus serviços sexuais”, afirma. E completa: “Você deveria se valorizar e não ficar se entregando pra qualquer um por aí. ‘Ai, mas ela não pode só querer transar também?’ É claro que você pode, você é livre pra fazer o que você quiser, só não adianta ficar chorando depois”, afirma. 

 

 

Outros influenciadores se detém a explicar como e porquê mulheres seriam privilegiadas na sociedade, enquanto os homens, por sua vez, são “descartáveis” na concepção da sociedade. Um deles afirma que as mulheres deveriam “agradecer ao patriarcado”. “As mulheres deveriam agradecer o patriarcado porque as coisas que existiram ao longo do tempo foram, acima de tudo, para melhorar a vida das mulheres. As mulheres foram privilegiadas de diversas formas ao longo da história. Tiveram privilégios, por exemplo, de não ir para a guerra, de serem preservadas em desastres naturais”, destaca. 

 

Em entrevista a um podcast, ele cita o Titanic como exemplo de privilégio feminino: “As mulheres eram socorridas muito antes dos homens. Os homens eram sempre os últimos a entrar. Uma das tragédias mais conhecidas da humanidade é o Titanic. O Titanic, 80% das mulheres sobreviveram e 5% dos homens sobreviveram. Mulheres foram sim privilegiadas”, completa. 

 

 

Um influenciador com mais de 1 milhão de seguidores em uma conta privada destacou que as leis de proteção a mulher são, na verdade, um processo de demonização dos homens. “Você não tá entendendo que essas leis aí que tão passando, elas vão cada vez deixar o homem ser menos homem. E aí você vê essa onda de mulher reclamando que o homem não chega mais na balada, por que será? Porque os homens da nova geração estão vindo menos homens e tem a ver com as leis. O cara tem medo de chegar numa mulher e a mulher dizer assim ‘ele me assediou’”, narra o influenciador que se apresenta como escritor best seller e TED speaker. 

 

 

Estes são apenas alguns dos conteúdos que circulam nas redes sociais todos os dias e os efeitos disso nos crimes registrados contra mulheres já são nítidos. Na última semana, um dos jovens acusados de participar de um esturpro coletivo contra uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro exibiu uma camiseta com a frase "regret nothing" (não se arrependa de nada, em inglês), que também é uma síntese do pensamento do influenciador americano-britânico Andrew Tate, declaradamente misógino, réu por estupro, tráfico humano e exploração sexual de menores.

 


Foto: Reprodução / G1

 

No artigo “Misoginia Online: A Red Pill No Ambiente Virtual Brasileiro”, as autoras, Ana Carolina Weselovski da Silva e Inês Hennigen, ambas pesquisadoras na área de psicologia destacam que “apesar de a princípio muitos desses sujeitos tentarem se mostrar como alguém que está apenas preocupado em discutir problemas que afligem homens na contemporaneidade, sempre acabam desembocando em ódio direcionado às mulheres.”

 

Elas completam dizendo que “assim, [os adeptos a estes grupos] criam um ambiente confortável para dar vazão a toda a misoginia que ainda precisa ser superada em nossa sociedade. Vemos a importância de combater a ascensão desses grupos, desvelando aquilo do que realmente se tratam e a lógica desumana e cruel que levam adiante”. 

 

É neste sentido, que ativistas sociais destacam a necessidade de estabelecer regras para a circulação de conteúdos nas redes sociais. Um exemplo disso é a proposta do senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), que protocolou, nesta terça-feira (10), um Projeto de Lei (PL) que cria a Política Nacional de Combate ao Discurso de Ódio contra a Mulher na Internet. A lei propõe que as plataformas digitais sejam obrigadas a retirar conteúdos com discurso de ódio e incentivo à violência de gênero nas redes sociais, na tentativa de criar uma rede mais eficaz de proteção a mulher.