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Ex-funcionários denunciam atrasos em pagamentos e alunos relatam problemas estruturais em academia de Itapuã

Por Redação

Foto: Google Street View e Arquivo pessoal

Ex-funcionários e alunos da academia Boa Vida, localizada no bairro de Itapuã, em Salvador, denunciam uma série de problemas relacionados ao funcionamento do estabelecimento. Entre as queixas estão pagamentos pendentes após o encerramento das atividades profissionais, atrasos na remuneração de funcionários, equipamentos danificados, falhas de higienização e falta de ventilação adequada na área de musculação.

 

Os relatos foram enviados ao Bahia Notícias por ex-estagiários e frequentadores da academia. Segundo eles, os problemas não seriam pontuais e envolveriam tanto as condições de trabalho quanto a estrutura oferecida aos alunos. A reportagem teve acesso a mensagens trocadas entre ex-funcionários e o responsável pelo estabelecimento, nas quais são discutidos valores em atraso, dificuldades financeiras e previsões de pagamento.

 

Procurado pela reportagem, o responsável pela academia reconheceu que a empresa enfrentou dificuldades financeiras nos dois meses anteriores à conversa, realizada em 16 de outubro de 2026. Ele afirmou, porém, que todos os funcionários receberam os valores devidos, embora com atraso, e contestou as críticas sobre a manutenção dos equipamentos. Segundo ele, a academia conta com uma equipe responsável por realizar inspeções preventivas semanais.

 

Um dos denunciantes, Vitor Lima, afirma que deixou de trabalhar na Boa Vida há mais de um mês e, até o momento do relato, não havia recebido integralmente os valores referentes aos dias trabalhados. Segundo ele, as cobranças feitas à administração não resultaram no pagamento. “Eu saí da Boa Vida há mais de um mês e não foi feito meu pagamento de dias trabalhados e até hoje cobro e até o momento ele não me pagou”, relatou.

 

Vitor também afirmou que recebeu como justificativa que não seria prioridade por já não integrar a equipe da academia. Em áudios enviados a Vitor e disponibilizados à reportagem, o responsável pela academia reconhece o atraso e atribui o problema a dificuldades bancárias.

 

Na gravação, ele afirma que os valores recebidos por meio das máquinas de pagamento não estariam sendo transferidos normalmente para a conta da empresa. “Isso não está acontecendo por sacanagem, por irresponsabilidade, não. É porque de fato teve um problema bancário que já está sendo resolvido”, afirmou.

 

Em outro áudio, entretanto, o tom da conversa muda. O responsável afirma que verificaria os registros de frequência e que poderia descontar os dias em que Vitor teria faltado ao trabalho após sofrer uma lesão no pé durante a prática de jiu-jítsu. “Você está enchendo o saco demais. Você é uma pessoa ingrata”, disse.

 

Na sequência, ele menciona que havia custeado a faculdade de Vitor durante um ano e afirma que a academia passou por dificuldades financeiras, precisando priorizar outros compromissos, entre eles o pagamento dos funcionários que continuavam trabalhando e a manutenção das máquinas. “Pagar os funcionários que estão lá, honrando todo dia o compromisso. Pagar as máquinas que quebraram”, afirmou.

 

Uma segunda ex-funcionária, que pediu para não ser identificada, também relatou dificuldades para receber os valores referentes ao período em que trabalhou na academia como estagiária. Segundo ela, a saída ocorreu após três meses de atividade, quando considerou que já não tinha condições de continuar prestando serviços no local.

 

A ex-funcionária afirma que recebeu os pagamentos referentes aos meses trabalhados, mas não recebeu os valores relativos aos 11 dias de julho em que ainda esteve vinculada ao estabelecimento. Ela afirma que procurou o responsável diversas vezes depois de deixar a academia, mas que raramente recebia respostas. Com o passar do tempo, desistiu de insistir nas cobranças.

 

“Até hoje espero o pagamento dos meus dias trabalhados, até desisti de cobrar, pois troquei o celular e perdi as conversas e muitas provas contra a academia”, disse.

 

“COBRO E ELE NÃO RESPONDE”

Outro ex-estagiário, chamado Marco Bahia, relatou que ainda aguardava o pagamento de valores referentes a julho, agosto e 12 dias de setembro. Em mensagens enviadas à reportagem em nesta quinta-feira (16), ele afirmou que já não trabalhava na academia e que tentava receber os valores pendentes sem conseguir estabelecer contato efetivo com o responsável.

 

Marco também relatou que havia recebido uma previsão de pagamento para aquela sexta-feira, mas que, após enviar uma nova mensagem, não obteve resposta. “Falou comigo na terça que iria pagar hoje, mandei mensagem, ele ignora”, afirmou.

 

Foto: Arquivo pessoal

 

Além das queixas financeiras, Marco fez acusações sobre as condições de trabalho na academia. Segundo ele, estagiários eram colocados para executar atividades que, em sua avaliação, deveriam ser acompanhadas por profissionais formados em Educação Física. “Ele não contrata nenhum professor formado em Educação Física, só coloca estagiários, eu mesmo era estagiário e fazia papel de professor formado”, declarou.

 

O ex-funcionário também afirmou que os profissionais trabalhavam sozinhos e que não havia contratos de trabalho formalizados. Segundo seu relato, ele começava a jornada às 5h30 e encerrava às 15h. Aos sábados, trabalhava das 7h às 12h; aos domingos e feriados, das 8h às 12h e das 7h às 12h, respectivamente. Marco ainda alegou que não recebia pelos períodos trabalhados aos domingos e feriados.

 

A atuação de estagiários na área de musculação aparece como uma das principais preocupações dos ex-funcionários ouvidos pela reportagem. Vitor afirmou que não havia professores formados acompanhando os estagiários, que ficavam sozinhos, sem o suporte necessário para desempenhar as atividades.

 

Duas alunas entrevistadas pela reportagem também mencionaram a presença predominante de estagiários e a ausência de supervisão constante. Uma das frequentadoras, que pediu anonimato, afirmou que alguns funcionários precisavam conduzir diferentes atividades e que, em determinadas situações, a academia ficava sem um auxiliar disponível.

 

“Às vezes o mesmo funcionário tem que dar aula de flexibilidade, boxe, o que for, e a academia fica sozinha sem um auxiliar, em tempo de algum aluno sofrer um acidente”, relatou.

 

PROBLEMAS ESTRUTURAIS

As críticas à estrutura física da Boa Vida não se restringem aos ex-funcionários. As alunas também descreveram problemas relacionados à conservação dos equipamentos, à limpeza dos ambientes e à ventilação da academia. Uma das frequentadoras afirmou que escolheu o estabelecimento pela proximidade de casa, mas considera que a estrutura oferecida não corresponde ao valor cobrado pela mensalidade.

 

“Antes mesmo de começar a frequentar, fui informada sobre problemas na higienização dos aparelhos, como o uso de algumas flanelas cortadas e a falta de álcool para a limpeza dos equipamentos”, relatou.

 

Uma delas também descreveu problemas de ventilação e acúmulo de poeira nas dependências da academia. “A academia é super mal ventilada, contava com apenas dois ventiladores pequenos e agora tem somente um funcionando. Além disso, é visível poeira nas paredes, no chão e nos aparelhos”, afirmou.

 

Segundo ela, equipamentos como esteiras apresentavam falhas frequentes e demoravam para ser consertados. A frequentadora também relatou que ouvia comentários sobre atrasos nos pagamentos dos funcionários. Outra aluna, que frequentou o estabelecimento de janeiro até meados de setembro, afirmou que encontrou máquinas quebradas e estofados danificados, cuja substituição, segundo ela, poderia levar semanas.

 


Foto: Arquivo pessoal

 

Em um dos relatos mais contundentes, a ex-frequentadora afirmou que um estofado chegou a ser pintado para esconder a espuma exposta. “Houve uma época que pintaram o estofado de um equipamento de preto, pra não aparecer a espuma”, disse.

 

A mulher também criticou a organização dos atendimentos e a presença de profissionais sem supervisão constante. Segundo ela, a falta de auxiliares em determinados momentos poderia deixar os frequentadores sem assistência imediata. Além das críticas à conservação dos aparelhos, Vitor fez acusações sobre situações que, segundo ele, representaram riscos à segurança de alunos e funcionários.

 

O ex-estagiário afirmou que um ventilador teria pegado fogo na área de musculação. De acordo com seu relato, os extintores disponíveis não estariam em condições adequadas de uso. “A estrutura é tão mal preparada que um ventilador já pegou fogo no meio da sala de musculação e não tinha um extintor para usar, pois estão vencidos e vazios”, relatou.

 

O ex-estagiário também apontou falhas de manutenção em equipamentos, incluindo uma polia na qual, segundo ele, uma pessoa teria se cortado. Em outro caso, relatou que uma aluna sofreu uma lesão durante a utilização do leg press. Segundo Vitor, o equipamento apresentava problemas no rolamento, e a aluna teria se machucado utilizando 10 quilos de cada lado.

 

O ex-funcionário afirmou que, ao ser questionado sobre o reparo, o responsável teria argumentado que a troca era cara e que bastaria evitar colocar muito peso no aparelho. A reportagem não teve acesso a laudos, registros de atendimento médico ou documentos que confirmem os incidentes descritos.

 

Em resposta ao BN, o responsável pela academia reconheceu que a empresa enfrentou dificuldades financeiras nos dois meses anteriores à conversa. Ele afirmou que os pagamentos dos funcionários foram realizados, embora fora do prazo. “A empresa está no terceiro ano de funcionamento, nos últimos dois meses enfrentamos dificuldades em pagamentos, todos receberam, com atraso é verdade”, declarou.

 

Na mesma resposta, ele atribuiu o cenário a uma queda na atividade comercial e ao esforço necessário para manter a empresa em funcionamento. “O comércio de maneira geral no Brasil sofreu uma queda muito grande, e o esforço para continuar insistindo e acreditando é muito grande”, afirmou.

 

Sobre as reclamações relacionadas à estrutura física, o responsável afirmou que a academia possui uma equipe dedicada à manutenção preventiva dos equipamentos. “Temos equipe de manutenção que semanalmente realiza a manutenção preventiva”, declarou.

 

Ele argumentou que a quebra de aparelhos é uma situação comum em estabelecimentos do setor, especialmente diante do uso frequente por um grande número de pessoas. “Equipamentos quebram todos os dias em todas as academias, é algo bem comum, e nós temos a maior atenção nesse aspecto”, afirmou.

 

Em outra mensagem, ele descreveu a estrutura da academia e afirmou que o estabelecimento possui dois andares, mais de 30 máquinas de exercícios e mais de 400 clientes que utilizam os equipamentos diariamente. “A manutenção é feita semanalmente, hoje, por exemplo, não temos uma máquina na musculação parada por quebra”, afirmou.

 

O Bahia Notícias também entrou em contato com o Conselho Regional de Educação Física da 13ª Região (CREF13/BA) para solicitar um posicionamento sobre as denúncias envolvendo a atuação de estagiários sem supervisão de profissionais formados na academia. Até o fechamento desta reportagem, o órgão não havia se manifestado sobre o caso