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App reúne carurus de Salvador e ajuda baianos a encontrar onde degustar o prato em setembro

Por Daniel Araújo

Foto: Emanuele Pereira

Quiabo, camarão, amendoim e castanha são alguns dos principais ingredientes que integram uma das receitas mais tradicionais para os baianos no mês de setembro: o caruru.

 

Seja para os santos Cosme e Damião ou para Ibeji, divindades gêmeas do Candomblé, neste mês é tradição preparar, comer e distribuir o prato típico da culinária baiana como forma de oferenda e devoção.

 

Basta começar o nono mês do ano para muita gente correr atrás de alguém que esteja oferecendo um caruru. Para quem não possui uma rede de contatos na cidade, no entanto, encontrar onde degustar o prato pode ser uma tarefa difícil. É o caso da pesquisadora Amanda Nogueira, cearense que chegou a Salvador há seis anos. “Em Salvador, estou com dificuldade de encontrar ou ser convidada para carurus. Como não tenho amigos de infância aqui, talvez eu precise ampliar meu círculo de amizades ou buscar os carurus pela internet. Mas, este ano, eu preciso ir a um caruru”, relatou.

 

Pensando nessa dificuldade, o desenvolvedor Fernando Teles utilizou a tecnologia para ajudar a manter a tradição e criou a plataforma “Quero Caruru”, um site que utiliza georreferenciamento para mostrar, em um mapa, onde estão acontecendo carurus. A ferramenta reúne eventos em diferentes locais, inclusive fora do Brasil.

 

“A ideia partiu de uma conversa entre amigos. Nós somos desenvolvedores, então a gente queria usar a tecnologia para poder mostrar onde tem caruru acontecendo. Além disso, todo ano eu percebo que há essa mesma dúvida nas redes sociais, todo mundo perguntando onde é que tem caruru, pedindo convites, e aí só reforçou a ideia de que colocar o site no ar seria uma boa ideia”, explicou Teles.

 

Desenvolvedor Fernando Teles | Foto: Acervo Pessoal

 

O programador nasceu e cresceu na Cidade Baixa, em Salvador, e essa vivência também motivou a criação da plataforma. “A minha história com o caruru vem desde criança. O dia 27 de setembro, para mim, é uma data bastante especial. Quando eu voltava da escola, na infância, vinha pegando os doces na rua e, à noite, eu nem jantava em casa. Saía pela rua para comer caruru. Chegava a comer dois em uma noite”, contou.

 

Ele explica como a tecnologia pode se aproximar da tradição e facilitar a popularização da prática. “Com o passar dos anos, a gente percebe que as formas de comunicação mudam. Embora a tradição do caruru seja uma tradição oral, sempre passada de boca em boca, as pessoas recebem os convites, até mesmo na hora, passando na rua. Hoje em dia, temos as mídias sociais, que têm feito bastante esse papel. Mas acredito que uma aplicação como essa ajuda a manter viva essa tradição, que algumas pessoas têm a sensação de estar morrendo”, afirmou.

 

O site funciona como um mapa colaborativo, no qual os usuários podem consultar onde estão acontecendo carurus. Qualquer pessoa que esteja organizando um evento, seja ele gratuito ou pago, pode cadastrá-lo na plataforma. Também existe a possibilidade de destacar o evento. Quem quiser dar mais visibilidade ao seu caruru pode optar pelo recurso mediante uma contribuição, que ajuda a manter o projeto no ar.

 

Além do mapa, a plataforma conta com um calendário em que é possível visualizar os próximos eventos. Assim, o usuário pode consultar tanto os locais onde os carurus estão acontecendo quanto conferir, pelo calendário, quais serão os próximos eventos.

Segundo o desenvolvedor, desde que o site entrou no ar, em janeiro, foram 86 carurus registrados, com 40 previstos para o fim de semana em que se celebra os santos gêmeos (26 e 27 de Setembro), sendo 20 em Salvador e 40 em outros lugares. 

 

Confira onde tem Caruru:

 

CARURU, COSME E DAMIÃO E IBEJI
A prática de distribuir caruru e doces em setembro surge da associação entre o catolicismo e a religiosidade de matriz africana, inicialmente imposta pela colonização e, mais tarde, incorporada à cultura brasileira.

 

“As religiões de matriz africana acabaram adotando, fizeram esse sincretismo porque você tem os orixás gêmeos, que são os Ibeji, e os santos gêmeos da Igreja Católica, São Cosme e São Damião. Então, fez-se diretamente essa ligação. A gente acaba ressignificando e tomando a data para a gente e as festividades para a gente e seguindo em frente”, explica Ernesto Xavier, antropólogo, historiador e Ogan.

 

Ernesto Xavier | Foto: Fabio Audi / Divulgação

 

Para religiões de matriz africana, como o Candomblé, os homenageados são os Ibeji, palavra que tem origem no iorubá, em que “ibi” significa nascido e “eji”, dois. Os Ibeji são considerados divindades ligadas à brincadeira e à alegria, com sua regência associada à infância.

 

“A infância para as religiões de matriz africana não representa apenas as crianças, mas uma energia de pureza, força e vitalidade que é necessária para nós. Resgatar e valorizar a criança interior envolve tanto cuidar e preservar as crianças quanto, já adultos, manter viva essa energia infantil que existe em cada um. Ela nos dá força para criar, prosperar, fazer as coisas brotarem e viver com alegria e fertilidade. As crianças representam tudo isso, e é essa energia que valorizamos e potencializamos nessa festividade, por meio da partilha e dos alimentos que distribuímos nesse período”, detalhou Ernesto.

 

Cosme e Damião foram irmãos gêmeos e médicos que ficaram conhecidos por exercerem a medicina de forma gratuita, o que lhes rendeu o título grego de “anárgiros” (“inimigos do dinheiro”) e atraiu muitas pessoas para a fé cristã. Eles são considerados santos pela Igreja Católica devido ao martírio durante a perseguição aos cristãos promovida pelo imperador romano Diocleciano. Segundo a tradição cristã, por se recusarem a renunciar ao cristianismo, os irmãos foram submetidos a diversas torturas, das quais teriam saído ilesos milagrosamente, até serem decapitados por volta do ano 303 d.C. Com isso, tornaram-se santos mártires da Igreja Católica. 

 

O padre Valter Ruy, pároco da Paróquia Santos Cosme e Damião, no bairro da Liberdade, em Salvador, destaca como a fé católica nos santos gêmeos convive com a devoção popular afro-brasileira.  “A Igreja tenta conviver, cada um dentro do seu quadrado, com essas manifestações populares, que são típicas da nossa realidade brasileira e estão impregnadas de forma positiva no subconsciente das pessoas, porque nós somos um povo afro-brasileiro. E aí entram todas as comidas oferecidas às entidades de matriz africana, mas, no bojo da fé católica, nada é oferecido”, detalhou.

 

Padre Valter Rui e Paróquia Santos Cosme e Damião  | Fotos: Acervo Pessoal e Reprodução Google Maps

 

O caruru de São Cosme e São Damião é uma tradição reconhecida, desde 2024, como patrimônio imaterial da Bahia.

 

Em setembro, seja para Cosme e Damião, seja para Ibeji, o caruru é protagonista na mesa dos baianos, como símbolo de fé, partilha e devoção.