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cosme e damiao
A Paróquia Santos Cosme e Damião, no bairro da Liberdade, em Salvador, realiza neste fim de semana a festa em homenagem aos padroeiros. Com o tema “Com os Santos Cosme e Damião, vivendo a sinodalidade” e o lema “Caminhar juntos na caridade, vivendo a gratuidade da Graça!”, a programação reúne missas, momento de louvor e procissão.
O principal dia de celebrações será 26 de setembro, data em que a Igreja Católica celebra a memória litúrgica dos santos. Serão realizadas duas missas: às 7h, presidida pelo pároco, padre Valter Ruy, e às 19h, celebrada pelo bispo auxiliar da Arquidiocese de São Salvador da Bahia, Dom Marco Eugênio Galrão.
A programação será encerrada no dia 27 de setembro, com a festa popular. As missas serão realizadas às 6h, 7h30, 9h, 10h30 e 12h. Às 14h, haverá um momento de louvor. Já às 15h30, a tradicional procissão percorrerá as principais ruas do bairro, com saída e chegada na Matriz. O encerramento será às 18h30, com uma celebração eucarística.
HISTÓRIA DE FÉ E CARIDADE
São Cosme e São Damião são venerados pela Igreja Católica como mártires dos primeiros séculos do cristianismo. Segundo a tradição cristã, os irmãos eram médicos e dedicavam seus conhecimentos ao atendimento de pessoas enfermas, sem cobrar pelos serviços. A prática fez com que fossem associados à caridade, ao cuidado com o próximo e à gratuidade.
De acordo com a tradição, os irmãos utilizavam a medicina como forma de aproximar as pessoas do cristianismo, sem impor a fé, mas por meio da caridade e do atendimento aos enfermos.
O período em que viveram foi marcado pela perseguição aos cristãos durante o governo do imperador Diocleciano. Por se recusarem a abandonar a fé em Jesus Cristo e a cultuar os deuses romanos, Cosme e Damião teriam sido presos e submetidos a torturas.
A tradição relata que os irmãos foram condenados à morte após sobreviverem a diferentes tentativas de execução, como apedrejamento, flechadas, fogo e afogamento. Por fim, foram decapitados por ordem das autoridades romanas.
Após a morte, Cosme e Damião teriam sido sepultados por pacientes que haviam sido tratados por eles. Posteriormente, seus restos mortais foram transferidos para uma igreja dedicada aos santos em Roma, construída pelo papa Félix IV. Desde então, os irmãos são venerados pela Igreja Católica como santos mártires, em referência ao testemunho de fé atribuído a eles.
SERVIÇO
O quê: Festa dos Santos Cosme e Damião
Onde: Paróquia Santos Cosme e Damião, bairro da Liberdade, Salvador
Quando: 26 e 27 de setembro
Programação:
26/09: Missas às 7h e 19h
27/09: Missas às 6h, 7h30, 9h, 10h30 e 12h; momento de louvor às 14h; procissão às 15h30; celebração eucarística às 18h30.
Quiabo, camarão, amendoim e castanha são alguns dos principais ingredientes que integram uma das receitas mais tradicionais para os baianos no mês de setembro: o caruru.
Seja para os santos Cosme e Damião ou para Ibeji, divindades gêmeas do Candomblé, neste mês é tradição preparar, comer e distribuir o prato típico da culinária baiana como forma de oferenda e devoção.
Basta começar o nono mês do ano para muita gente correr atrás de alguém que esteja oferecendo um caruru. Para quem não possui uma rede de contatos na cidade, no entanto, encontrar onde degustar o prato pode ser uma tarefa difícil. É o caso da pesquisadora Amanda Nogueira, cearense que chegou a Salvador há seis anos. “Em Salvador, estou com dificuldade de encontrar ou ser convidada para carurus. Como não tenho amigos de infância aqui, talvez eu precise ampliar meu círculo de amizades ou buscar os carurus pela internet. Mas, este ano, eu preciso ir a um caruru”, relatou.
Pensando nessa dificuldade, o desenvolvedor Fernando Teles utilizou a tecnologia para ajudar a manter a tradição e criou a plataforma “Quero Caruru”, um site que utiliza georreferenciamento para mostrar, em um mapa, onde estão acontecendo carurus. A ferramenta reúne eventos em diferentes locais, inclusive fora do Brasil.
“A ideia partiu de uma conversa entre amigos. Nós somos desenvolvedores, então a gente queria usar a tecnologia para poder mostrar onde tem caruru acontecendo. Além disso, todo ano eu percebo que há essa mesma dúvida nas redes sociais, todo mundo perguntando onde é que tem caruru, pedindo convites, e aí só reforçou a ideia de que colocar o site no ar seria uma boa ideia”, explicou Teles.
Desenvolvedor Fernando Teles | Foto: Acervo Pessoal
O programador nasceu e cresceu na Cidade Baixa, em Salvador, e essa vivência também motivou a criação da plataforma. “A minha história com o caruru vem desde criança. O dia 27 de setembro, para mim, é uma data bastante especial. Quando eu voltava da escola, na infância, vinha pegando os doces na rua e, à noite, eu nem jantava em casa. Saía pela rua para comer caruru. Chegava a comer dois em uma noite”, contou.
Ele explica como a tecnologia pode se aproximar da tradição e facilitar a popularização da prática. “Com o passar dos anos, a gente percebe que as formas de comunicação mudam. Embora a tradição do caruru seja uma tradição oral, sempre passada de boca em boca, as pessoas recebem os convites, até mesmo na hora, passando na rua. Hoje em dia, temos as mídias sociais, que têm feito bastante esse papel. Mas acredito que uma aplicação como essa ajuda a manter viva essa tradição, que algumas pessoas têm a sensação de estar morrendo”, afirmou.
O site funciona como um mapa colaborativo, no qual os usuários podem consultar onde estão acontecendo carurus. Qualquer pessoa que esteja organizando um evento, seja ele gratuito ou pago, pode cadastrá-lo na plataforma. Também existe a possibilidade de destacar o evento. Quem quiser dar mais visibilidade ao seu caruru pode optar pelo recurso mediante uma contribuição, que ajuda a manter o projeto no ar.
Além do mapa, a plataforma conta com um calendário em que é possível visualizar os próximos eventos. Assim, o usuário pode consultar tanto os locais onde os carurus estão acontecendo quanto conferir, pelo calendário, quais serão os próximos eventos.
Segundo o desenvolvedor, desde que o site entrou no ar, em janeiro, foram 86 carurus registrados, com 40 previstos para o fim de semana em que se celebra os santos gêmeos (26 e 27 de Setembro), sendo 20 em Salvador e 40 em outros lugares.
Confira onde tem Caruru:
CARURU, COSME E DAMIÃO E IBEJI
A prática de distribuir caruru e doces em setembro surge da associação entre o catolicismo e a religiosidade de matriz africana, inicialmente imposta pela colonização e, mais tarde, incorporada à cultura brasileira.
“As religiões de matriz africana acabaram adotando, fizeram esse sincretismo porque você tem os orixás gêmeos, que são os Ibeji, e os santos gêmeos da Igreja Católica, São Cosme e São Damião. Então, fez-se diretamente essa ligação. A gente acaba ressignificando e tomando a data para a gente e as festividades para a gente e seguindo em frente”, explica Ernesto Xavier, antropólogo, historiador e Ogan.
Ernesto Xavier | Foto: Fabio Audi / Divulgação
Para religiões de matriz africana, como o Candomblé, os homenageados são os Ibeji, palavra que tem origem no iorubá, em que “ibi” significa nascido e “eji”, dois. Os Ibeji são considerados divindades ligadas à brincadeira e à alegria, com sua regência associada à infância.
“A infância para as religiões de matriz africana não representa apenas as crianças, mas uma energia de pureza, força e vitalidade que é necessária para nós. Resgatar e valorizar a criança interior envolve tanto cuidar e preservar as crianças quanto, já adultos, manter viva essa energia infantil que existe em cada um. Ela nos dá força para criar, prosperar, fazer as coisas brotarem e viver com alegria e fertilidade. As crianças representam tudo isso, e é essa energia que valorizamos e potencializamos nessa festividade, por meio da partilha e dos alimentos que distribuímos nesse período”, detalhou Ernesto.
Cosme e Damião foram irmãos gêmeos e médicos que ficaram conhecidos por exercerem a medicina de forma gratuita, o que lhes rendeu o título grego de “anárgiros” (“inimigos do dinheiro”) e atraiu muitas pessoas para a fé cristã. Eles são considerados santos pela Igreja Católica devido ao martírio durante a perseguição aos cristãos promovida pelo imperador romano Diocleciano. Segundo a tradição cristã, por se recusarem a renunciar ao cristianismo, os irmãos foram submetidos a diversas torturas, das quais teriam saído ilesos milagrosamente, até serem decapitados por volta do ano 303 d.C. Com isso, tornaram-se santos mártires da Igreja Católica.
O padre Valter Ruy, pároco da Paróquia Santos Cosme e Damião, no bairro da Liberdade, em Salvador, destaca como a fé católica nos santos gêmeos convive com a devoção popular afro-brasileira. “A Igreja tenta conviver, cada um dentro do seu quadrado, com essas manifestações populares, que são típicas da nossa realidade brasileira e estão impregnadas de forma positiva no subconsciente das pessoas, porque nós somos um povo afro-brasileiro. E aí entram todas as comidas oferecidas às entidades de matriz africana, mas, no bojo da fé católica, nada é oferecido”, detalhou.
Padre Valter Rui e Paróquia Santos Cosme e Damião | Fotos: Acervo Pessoal e Reprodução Google Maps
O caruru de São Cosme e São Damião é uma tradição reconhecida, desde 2024, como patrimônio imaterial da Bahia.
Em setembro, seja para Cosme e Damião, seja para Ibeji, o caruru é protagonista na mesa dos baianos, como símbolo de fé, partilha e devoção.
O Restaurante Casa de Tereza, comandado pela chef Tereza Paim, oferece o tradicional caruru de Cosme e Damião durante o ano inteiro em seu cardápio. A iguaria, que faz parte da cultura baiana, ganha destaque especial no mês de setembro no almoço ou no jantar, em celebração ao dia dos santos gêmeos, comemorado no dia 27 de setembro.
"Setembro é um mês muito importante para o Grupo Tereza Paim e representa nossos 12 anos, no dia de Cosme e Damião, em 27 de setembro, mas aqui é Caruru 365 dias do ano", afirma Tereza.
O prato, composto por vatapá de inhame, arroz, xinxim de galinha, feijão fradinho, banana da terra frita e farofa de dendê, serve uma pessoa. Além do caruru, o restaurante oferece o 'Menu Experiência da Comida de Santo', que inclui o banquete Ibejí, destinado a duas pessoas, acompanhado de oferenda e um postal com o sistema simbólico dos Orixás.
As reservas podem ser feitas pelo WhatsApp (71) 99170-6475 ou no (71) 3329-3016, e o restaurante está localizado no bairro do Rio Vermelho, em Salvador.
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Devido a Festa dos Santos Cosme e Damião, celebrada nesta quarta-feira (27), o trânsito no bairro da Liberdade, em Salvador, vai sofrer algumas alterações.
Das 15h às 19h, o tráfego de veículos será interditado nas seguintes vias: Corredor da Lapinha (a partir do Largo da Soledade), Estrada da Liberdade (trecho compreendido entre o Largo da Lapinha e a Rua Pero Vaz).
Por conta do bloqueio, haverá instalação de Barreiras Fixas (BF), a partir das 15h, nos seguintes pontos:
BF 01 – Rua Dr° Raimundo Mesquita / Estrada da Liberdade;
BF 02 – Rua Eusébio de Queiróz / Estrada da Liberdade;
BF 03 – Rua Francisco Bianco / Estrada da Liberdade.
Haverá também instalação de Barreiras Móveis (BM), das 15h às 19h, da seguinte forma:
BM 01 – Estrada da Liberdade / Rua Pero Vaz;
BM 02 – Estrada da Liberdade / Largo da Soledade;
BM 03 – Largo do Tmarineiro
Agentes da Superintendência de Trânsito de Salvador (Transalvador) vão estar no local auxiliar a travessia de pedestres e promover o ordenamento do tráfego de veículos.
Os condutores que geralmente circulam pelo trecho que será interditado, terão como opção de tráfego:
Sentido Bairro / Centro: Estrada da Liberdade, Rua Pero Vaz, Rua Conde de Porto Alegre, Largo do Tamarineiro, Rua Saldanha Marinho, Largo do Queimado, Largo da Soledade.
Sentido Centro / Bairro: Largo da Soledade, Largo do Queimado, Rua Saldanha Marinho, Largo do Tamarineiro, Rua Conde de Porto Alegre, Rua Pero Vaz, Estrada da Liberdade.
Para comemorar o aniversário de 11 anos do restaurante Casa de Tereza, a chef Tereza Paim irá promover um Caruru em homenagem a São Cosme e São Damião, os quais é devota. O evento será realizado no dia 27 de setembro, data em que se celebra os santos gêmeos.
"Vamos todos comer e saudar Cosme & Damião. Feliz pelos 11 anos de alegrias do Casa de Tereza, que segue a todo vapor com seus compromissos e muito trabalho à frente do Grupo Tereza Paim ( GTP). O clima é de celebração", declarou Paim.
Baianos e turistas que desejem comer o Caruru, o prato acompanha vatapá de inhame, arroz, xinxim de galinha, feijão fradinho, banana da terra frita, farofa de dendê e serve uma pessoa. Outra boa opção é o 'Menu Experiência da Comida de Santo'. O banquete Ibejí serve duas pessoas, com todos os itens do prato e acompanha oferenda e postal com sistema simbólico dos Orixás.
Localizado no bairro do Rio Vermelho, além do aniversário, o restaurante também celebrará as suas conquistas, como as premiações nacionais e internacionais, sua trajetória, que ultrapassa uma década, com investimentos em sustentabilidade, ingredientes de produtores locais, temperados com qualidade e credibilidade.
As reservas de mesas para o Caruru da Casa Tereza podem ser feitas pelo WhatsApp (71) – 99170 6475 ou no (71) 3329 3016.
Siga o @bnhall_ no Instagram e fique de olho nas principais notícias.
Quem é baiano provavelmente já ouviu os versos da cantiga que diz “São Cosme mandou fazer/ Duas camisinha azul/ No dia da festa dele/ São Cosme quer caruru”. É certo também que muita gente fica eufórica em setembro, na ânsia pelos convites para se esbaldar nos tradicionais banquetes em homenagem a Cosme e Damião e aos Ibejis.
Na esteira dos festejos, após receber muitos pedidos por orientações sobre o preparo dos pratos típicos do período, a afrochef baiana Paloma Zahir, que comanda o Kissanga Restaurante, em Salvador, resolveu fazer mais do que ensinar os passos dessa gastronomia regada a dendê. Ela decidiu desvendar os mistérios por trás desse costume bem baiano, juntando cozinha, história, cultura, religião, tradição e solidariedade.
“[Elas perguntavam] ‘Paloma, como é que faz o caruru, como faz o vatapá? O xinxim o tempero não pega direito, tem algum toque, tem algum segredo?’. E aí eu parei pra pensar em como entregar um conteúdo com mais qualidade para as pessoas. Eu falei ‘pô, não quero ficar só dando direcionamentos curtos, vou formular uma coisa mais completa’. E aí, pelo fato de eu ser uma mulher de Axé, de ser iniciada no Candomblé, eu lembrei de como iniciou a tradição aqui do caruru de Cosme e Damião e toda essa questão também da fraternidade, de matar a fome das pessoas”, explica a cozinheira, que, neste sentido, resolveu criar o Workshop Caruru dos Ibejis, para apresentar dicas culinárias, mas também promover discussões sobre ancestralidade (saiba mais).
Totalmente virtual, o projeto será ministrado ao vivo, na próxima segunda-feira (20), a partir das 13h, por meio da plataforma Zoom. Para aqueles que não puderem acompanhar em tempo real, o conteúdo ficará disponível pelo período de um mês. O ingresso custa R$ 50 e a renda vai ser totalmente revertida para o Instituto Conceição Macedo, que apoia pessoas soropositivas na capital baiana. Além disso, o caruru preparado durante a atividade também será doado em quentinhas distribuídas nas ruas de Salvador, para pessoas em vulnerabilidade social. “Com toda essa pegada caótica que a gente está tendo na economia e como está mais difícil pra colocar comida na mesa, é uma forma também de eu estar entregando meu Axé às pessoas, em forma de comida, em forma de afeto”, pontua Paloma.

"É uma forma também de eu estar entregando meu Axé às pessoas", diz chef baiana que promove workshop sobre o tradicional caruru de Ibejis ou de Cosme e Damião | Foto: Divulgação
DICAS PARA MANDAR BEM NO CARURU
Ao Bahia Notícias, a chef deu alguns macetes para fazer um caruru como manda a tradição, sem sair de um orçamento que caiba no bolso. “Partindo da situação econômica do país, uma dica coringa é você começar a comprar os ingredientes com antecedência”, alerta a especialista, garantindo “uma economia absurda” para aqueles que não deixam para adquirir os produtos em cima da hora.
Outro ponto importante apontado por Paloma Zahir é evitar os excessos. “Em relação à questão de tempero, acho que as pessoas erram quando colocam mais itens do que o necessário. Porque comida baiana, principalmente o caruru de Cosme e Damião, dos Ibejis, que é uma comida votiva [comida preparada para oferecer a divindades], o tempero não é cheio de ingredientes”, adverte a cozinheira. “O único que leva mais tempero mesmo é o vatapá, com as oleaginosas, o amendoim e a castanha. Mas no caruru, no xinxim e outras coisas, o tempero é básico. Tem gente que eu vejo colocando coentro, colocando tomate, que são coisas que não devem ser utilizadas”, instrui.
Paloma explica ainda que na gastronomia baiana há uma base simples para o preparo da maioria dos pratos: cebola e camarão defumado. Mas não o crustáceo tingido com corantes, que custa mais barato, e sim aquele que passa por um processo de cura com fumaça de verdade. “O segredo do caruru é você ter um bom camarão. O camarão é um dos personagens principais na composição do tempero”, resume.

“O segredo do caruru é você ter um bom camarão", alerta a cozinheira | Foto: Divulgação
A HISTÓRIA POR TRÁS DO BANQUETE
Todo mundo já foi criança um dia, e, na Bahia, provavelmente já figurou entre os sete meninos servidos com o caruru de Cosme e Damião, ou dos Ibejis. A origem desta tradição, assim como o motivo da celebração no mês de setembro e o porquê de um banquete tão vasto em guarnições são algumas das informações que serão detalhadas no workshop.
“Vou falar como iniciou a tradição, vou contar os itans, porque se originou essa tradição na Bahia, como tudo ocorreu, para as pessoas entenderem. Porque o pessoal tem muito a cultura de comer o caruru, mas não procurar saber o porquê. Por que ele é em setembro? Como se iniciou?”, promete a afrochef. “Então, a questão é mesmo de trazer esses questionamentos e mostrar o quanto a cultura e a religião é potente ainda no nosso dia a dia”, pontua.
Para os leitores do BN, Paloma adiantou algumas explicações. Conta a lenda que Exu costumava entrar no palácio e devorar toda a comida servida ao rei Xangô. Contrariado, o orixá da justiça resolveu armar uma cilada com a ajuda de seus dois filhos gêmeos, os Ibejis, que propuseram um desafio para que o visitante parasse de “roubar” a comida do pai.
“Essa questão dos pratos vem do Itan, os contos africanos. O que acontece? Os Ibejis são os filhos de Oyá e Xangô. Teve uma certa vez que Exú desafiou Xangô em questão de dança, e aí Xangô colocou seus filhos, sem Exu saber. Então, a questão era, Exu disse que aguentava dançar por muito tempo. Xangô então colocou um dos Ibejis pra tocar. Ele tocava, tocava, tocava, e quando um ficava cansado o outro trocava de lugar. E Exu não percebia isso, porque, na verdade, ele estava comendo as coisas de Xangô. E aí ficou nessa questão e Exu não aguentou (risos) e perdeu”, conta Paloma.
Vencida a aposta, Xangô decidiu dar uma compensação aos filhos. “Aí, em comemoração a isso, Xangô perguntou aos Ibejis o que eles queriam. Eles falaram que queriam o que ele recebia, mas como Xangô comia amalá, com rabada e pimenta, que Ibejis não gostam, eles disseram que poderia ser o caruru mesmo”, narra a chef baiana, lembrando que a celebração não ficou restrita aos gêmeos. “Ele convidou também os outros orixás e cada um levou seu prato preferido, por isso que é o banquete. Tem o caruru de Ibeji; tem o vatapá, que é uma associação ao ipeté de Oxum; você vê a abóbora, que tem enredo com Iansã; o abará a Oxum também; arroz a Iemanjá; o milho branco a Oxalá; e por aí vai. Então, todos os orixás são representados ali naquele banquete. Por isso que o banquete é grande, porque todos os orixás estão ali em comunhão com Ibeji”, detalha os motivos pelos quais o caruru dos Ibejis é tão farto.
Os sete meninos, por sua vez, são representados pelos Ibejis, que não são apenas os dois gêmeos filhos de Xangô. “Tem uma legião de sete crianças, de sete divindades africanas, que não são cultuadas totalmente aqui no Brasil, porque a cultura foi se perdendo. Com o tráfico dos negros pela a travessia atlântica e aquela questão de você não ficar com pessoas da mesma região, então as culturas foram se dispersando, foram tendo uma fusão com a questão da resistência. Então aqui ficou só o culto a Ibeji no Ketu, ou Vunje na nação de Angola, Jeje, por essa questão. Então eles pegaram e cultuaram dois, que é Taiwo e Kehinde, mas tem as outras cinco divindades”, conta a chef. Os outros cinco são Idhoú, Alabá, Talabí, Adoká e Adosú, sobre os quais ela também vai falar no seu workshop.

Registro de Pierre Verger do Caruru de Sete Meninos
TRADIÇÃO NA BAHIA E ASSOCIAÇÃO COM COSME E DAMIÃO
Não é segredo para ninguém que existiu e ainda segue existindo preconceito contra as religiões de matriz africana no Brasil. Foi por isso, que na Bahia, o caruru dos Ibejis foi associado aos santos Cosme e Damião, celebrados pelos católicos em 26 de setembro.
“A gente tem os Ibejis, que são as duas crianças, e temos Cosme e Damião. Como já tinha essa cultura da comemoração do dia de Cosme e Damião, uma grande ialorixá aqui da Bahia fez isso [associar as divindades africanas aos santos], porque ela queria continuar a dar o caruru, que era uma tradição dos Ibejis, mas tinha a questão da perseguição religiosa”, explica Paloma Zahir. “Não gosto do termo sincretismo religioso, eu vejo isso como uma questão de resistência mesmo que os negros tiveram naquela época pra poder continuar a seguir com sua religião e sua culturas”, pontua.
“Pra ter liberação desse culto, tinha que dizer que era de Cosme e Damião, já que ficava próximo da data de comemoração deles. Então, é mais uma maneira de fortalecer e seguir a tradição, e um jeito de burlar mesmo a perseguição”, destaca a cozinheira sobre a estratégia usada para manter um costume que era proibido pelas autoridades da época. “O que aconteceu foi que as crianças começaram a aparecer próximo da roça de Candomblé, e aí ela serviu o caruru, as crianças ficaram brincando, teve aquela profusão de crianças, e daí continuou essa cultura, essa tradição, até os dias de hoje. O caruru de Cosme e Damião, o caruru dos Ibejis, veio em celebração a matar a fome das crianças que estavam passando por necessidade. Foi uma maneira também que o Candomblé achou de ajudar ao próximo, ajudar os seus irmãos”, acrescenta.
E foi assim que o célebre caruru se tornou um delicioso costume em setembro na Bahia. Especificamente, a festa é celebrada no dia 26 pelos devotos de Cosme e Damião e 27 por aqueles que cultuam os Ibejis, mas o hábito acabou se estendendo por todo mês de setembro.
Consumir os pratos típicos da culinária baiana virou tradição também às sextas-feiras. Segundo Paloma, isso é fruto de herança ancestral dos negros, pois é neste dia da semana que eles se reorganizam e fazem um banquete para entrar em comunhao entre si e comer bem. “As pessoas acham, erroneamente, que preto não pode ter fartura, mas os africanos têm fartura em sua essência. E a sexta-feira é o dia de estarem entre si, de lembrarem de onde vieram. Acaba sendo um momento de resistência”, conclui a chef, orgulhosa de ser mulher, preta, baiana e de Axé.
Curtas do Poder
Pérolas do Dia
Valdemar Costa Neto
"Não gostei".
Disse o presidente nacional do Partido Liberal, Valdemar Costa Neto ao comentar a carta divulgada por Flávio Bolsonaro (PL), candidato derrotado à Presidência nesta quarta-feira (28). No pronunciamento, Flávio afirma que pretende liderar a oposição brasileira do exterior.