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O bairro de Cajazeiras XI concentra ao menos 80 terreiros ou templos de religiões de matriz africana em Salvador. Isso é o que diz o levantamento da Secretaria Municipal da Reparação de Salvador, obtido pelo Bahia Notícias. Com base nos dados encontrados até o momento, o bairro pode concentrar a maior comunidade de terreiros da cidade.
Até outubro deste ano, o projeto já registrou 1.385 comunidades de terreiros na capital baiana, sendo que os 80 que foram registrados em Cajazeiras XI representam 5,78% do total. O bairro é um dos que compõem a comunidade de Cajazeiras, que soma outros 17 bairros de Salvador.
Os dados compartilhados pela pasta detalham que os terreiros foram registrados, até o momento, em 15 bairros da capital baiana. A Semur não detalhou a localização de todos os terreiros informados, nem os terreiros que estariam fora dos bairros inicialmente divulgados. Com base nas informações disponíveis, o segundo maior contingente de terreiros da capital estaria em Paripe, no Subúrbio Ferroviário, com 76 registros.
Em seguida, aparecem os bairros de São Cristóvão, Liberdade e Itapuã, todos com 27 terreiros registrados. Ao olhar para estes bairros, é possível notar similaridades: em Paripe, Cajazeiras e São Cristóvão, é notável a proximidade com a natureza e áreas verdes no entorno dos bairros, fator relevante para a prática dos cultos afro-brasileiros. Já a Liberdade foi por anos considerada o bairro mais negro da capital baiana, título que segue carregando simbolicamente até hoje.
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Monumento da Pedra de Xangô, Patrimônio Cultural da Cidade inserido no Parque Pedra de Xangô Foto: Valter Pontes / Secom PMS
Outros bairros tradicionais pelos cultos de matriz africana na capital, como Engenho Velho de Brotas e Federação, aparecem na lista com 24 e 23 terreiros registrados.
O Bahia Notícias solicitou dados complementares sobre as nações das comunidades de terreiro registradas pela Semur. As nações do candomblé costumam se organizar em grupos alinhados de acordo com as origens étnico-geográficas, os dialetos litúrgicos e as divindades cultuadas.
Neste tópico, os dados da Prefeitura de Salvador apontam que a maior parte dos 1.385 terreiros registrados, cerca de 957, é da nação Ketu. O número é o equivalente a 69,1% do total, ou quase sete em cada dez. Em seguida, aparece a nação Bantu/Angola, com 228 comunidades registradas, cerca de 16,5%.
As demais comunidades são: Centro de Caboclo (55); Jeje (4,1%); Umbanda Cruzada (2,8%); Umbanda Branca (1,9%); Ijexá (1%); e Culto Bàbá Egun (0,6%).
Além das nações, a Secretaria Municipal da Reparação (Semur) compartilhou dados sobre a autodeclaração racial e étnica das lideranças ou representantes dos terreiros no cadastro. Conforme o balanço da Semur, 777 dos 1.385 são pessoas negras, entre pretos (572) e pardos (202). Pessoas brancas à frente dos terreiros registrados seriam apenas 31, e outros 7 seriam indígenas e 3 amarelos. Outros 555 responsáveis por terreiros não teriam registrado uma autodeclaração de raça ou etnia.
QUEM É VISTO, É LEMBRADO
O registro faz parte do projeto Baobá, como é conhecido o Sistema de Cadastramento de Povos e Comunidades de Terreiros da Semur. Conforme o registro oficial do programa, o principal objetivo do sistema Baobá é “cadastrar as Organizações dos Povos e Comunidades de Terreiro para fins de reconhecimento jurídico, administrativo e social”. Por meio do cadastro, os terreiros e suas lideranças religiosas passam a ter um canal direto de assistência social junto à Prefeitura de Salvador.
Ao Bahia Notícias, a secretária municipal de Reparação, Isaura Genoveva, detalha que, antes de qualquer política pública mais aprofundada, é preciso identificar essa população e comunidade de matriz africana, descobrir onde ela está, como vive e quais são as suas demandas e necessidades.
Ela narra que a ideia de criar o Sistema de Cadastramento de Povos e Comunidades de Terreiros foi para centralizar o atendimento a essa população em um só lugar, podendo direcionar os líderes ou representantes dessas entidades para outras secretarias conforme a necessidade.
“A gente sabe quais são as principais demandas dessas pessoas na prefeitura, então o programa é para poder identificar essa população, onde ela está, como ela vive, quais as demandas a comunidade tem, para que, a partir daí, a Semur seja essa porta de entrada”, destaca.
Em entrevista, a gestora da pasta desde 2024 diz que, apesar dos números já encontrados pela Secretaria, por meio do projeto Semur na Rua, não é possível “cravar” o número de terreiros e comunidades de matriz africana em Salvador.
“A gente está mapeando. O contato da equipe técnica com o ‘Semur na Rua’, que está fazendo o levantamento na rua, com contato telefônico e com a demanda espontânea dos terreiros, é para poder compilar. Mas a gente não tem esse dado preciso ainda, porque uma casa gera filhos, gera netos que vão se estruturando. Às vezes a pessoa está até dentro da sua própria residência já exercitando o terreiro, mas não divulgou, não registrou, não disse. Então, eu acho muito inseguro dizer esse número exato”, detalha Genoveva.
Como filha de terreiro, a secretária completa que o cadastro é menos rígido e mais focado em compreender a realidade prática dos grupos de terreiros: “Essa reparação começa quando você conhece o seu público e onde ele está, com quem ele faz, como é que ele trabalha, eles dão cesta básica, eles cuidam das crianças, dos filhos dos outros…”
Isaura completa que o Semur na Rua não atua somente no eixo de cadastro de terreiros, mas realiza ações transversais para públicos marginalizados, como pessoas com deficiência, pessoas LGBT+, quilombolas e populações ribeirinhas.
“Eu sou secretária, mas eu sou do bairro da Liberdade, eu sou uma mulher de bairro periférico. Então, qual é a grande dificuldade de quem vem de bairro periférico? Acreditar no serviço público e acessar ele com qualidade. A gente vai nas comunidades para poder apresentar as políticas públicas, apresentar a Semur e como a gente pode ajudar. Essa é a nossa função: garantir o serviço público”, ressalta a secretária, que é advogada e ativista de Direitos Humanos.
Ao BN, a secretária registra que o trabalho de campo, somado à captação de dados no Baobá, permite que as políticas públicas sejam melhor formuladas e direcionadas: “A gente faz essa identificação dos serviços [que a comunidade pede] e é por isso que surgiram, depois daí, os programas da Prefeitura, ‘Viver Salvador’ e ‘Viver Terreiros’, em que a gente foi para a rua, comunidades, identificou que precisava de serviço de saúde, de empregabilidade, de curso. O ‘Semur na Rua’ é para a gente ouvir as pessoas e trazer para dentro da gestão as necessidades e mostrar melhor como encaminhar”, completa.
Tradicionais terreiros de candomblé de Salvador declararam apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e convocaram suas comunidades e a sociedade a participar da disputa eleitoral. Em manifestações publicadas nas redes sociais, as instituições religiosas associaram o voto no petista à defesa da democracia, da liberdade religiosa, da justiça social e dos direitos dos povos de matriz africana.
Entre os espaços que se posicionaram estão os terreiros Casa Branca, do Cobre, Gantois, Ilê Asé Kalé Bokún, Bogum, Casa do Mensageiro e Casa de Oxumarê. As manifestações destacam a trajetória de resistência dessas comunidades diante do racismo, da intolerância religiosa e da repressão às práticas tradicionais de matriz africana.
CASA BRANCA E TERREIRO DO COBRE
No caso do Terreiro Casa Branca e do Terreiro do Cobre, a manifestação foi conjunta. Mãe Valnízia de Ayrá, ialorixá do Terreiro do Cobre e egbomi do Casa Branca, convocou integrantes das religiões de matriz africana, simpatizantes e pessoas de outras crenças a defender a democracia e votar em favor do futuro do Brasil.
O Ilê Axé Iyá Nassô Oká (Terreiro Casa Branca), foi tombado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em 31 de maio de 1984 (com processo oficializado em 1986) Foi o primeiro terreiro e o primeiro monumento ligado à cultura negra a ser tombado como patrimônio histórico no Brasil.
TERREIRO DO GANTOIS
No Terreiro do Gantois, o posicionamento foi apresentado por Ângela Ferreira, Iyá Kekerê da casa, neta de Mãe Menininha do Gantois e filha de Mãe Carmen. Em publicação nas redes sociais, ela reafirmou o compromisso da comunidade com a democracia, a liberdade de crença e a preservação das tradições ancestrais. A manifestação também defendeu um Estado laico e a proteção dos direitos da população negra.
Ângela afirmou que, diante do cenário eleitoral, a comunidade enxerga no governo Lula a possibilidade de continuidade de um projeto comprometido com a justiça social, a igualdade, o respeito à diversidade e a liberdade religiosa. O posicionamento foi divulgado em um momento de luto e recolhimento da comunidade, com referência à responsabilidade de preservar os ritos e a ancestralidade para as próximas gerações.
Oficialmente denominado Ilê Iyá Omi Axé Iyamassê, o Gantois está situado no bairro da Federação e é uma das principais referências do candomblé da nação Ketu. Sua história ficou especialmente ligada a Mãe Menininha do Gantois, uma das mais conhecidas lideranças religiosas do Brasil, que contribuiu para ampliar o reconhecimento público do candomblé. O terreiro foi tombado pelo Iphan em 2002.
ILÊ ASÉ KALÉ BOKUN
O Ilê Asé Kalé Bokún também declarou apoio explícito ao presidente. Em publicação de vídeo no Instagram, a Ialorixá Vânia de Oyá e membros da comunidade do terreiro, afirmaram que a instituição vota no petista, e associou a decisão à resistência histórica dos povos de matriz africana, à defesa da liberdade religiosa e à valorização de suas tradições. A casa ressaltou a importância de garantir que as comunidades de terreiro tenham voz na sociedade e que seus direitos sejam preservados.
Localizado no bairro de Plataforma, no Subúrbio Ferroviário, é uma referência da tradição Ijexá e tem sua origem associada ao final do século XIX, com registros oficiais a partir de 1933. Fundado pelo babalorixá Severiano Santana Porto, preserva práticas rituais e tradições ancestrais, incluindo o culto às gueledés. O terreiro possui tombamento estadual e municipal pela Fundação Gregório de Mattos (FGM) e recebeu, em julho de 2026, novo reconhecimento de proteção patrimonial pelo Governo da Bahia.
TERREIRO DO BOGUM
Já o Terreiro do Bogum divulgou uma manifestação com a afirmação de que a casa está com Lula. O texto recordou a perseguição enfrentada por homens e mulheres negros que mantiveram viva a tradição jeje e relacionou o apoio ao petista à defesa da democracia, dos direitos da população negra e da liberdade religiosa. A publicação também alertou para os riscos de retrocessos e para a permanência do racismo religioso.
Conhecido como Terreiro Zoogodô Bogum Malê Hundó, fica no Engenho Velho da Federação e é uma referência da tradição Jeje-Mahi, ligada ao culto dos voduns. Sua história remonta ao século XVIII. Em 2026, o terreiro passou a integrar o conjunto de bens tombados pelo Governo da Bahia, por meio do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC).
CASA DE OXUMARÊ
A Casa de Oxumarê também anunciou voto em Lula, em nome de seu Babalorixá, Babá Pecê. A publicação recordou episódios históricos de perseguição, criminalização dos cultos e invasão de terreiros, além de destacar que o racismo religioso continua ameaçando comunidades e territórios. O texto defendeu a democracia e o direito de os praticantes do candomblé viverem sua fé e preservarem suas tradições.
Também conhecida como Ilê Oxumarê Araká Ogodô, está situada na região da Federação e é uma das tradicionais casas de candomblé de Salvador, ligada à tradição Nagô-Vodum. O terreiro foi tombado pelo Iphan em 2014.
CASA DO MENSAGEIRO
A Casa do Mensageiro, por sua vez, reafirmou o compromisso com a democracia, a justiça social, a liberdade religiosa e o respeito às comunidades tradicionais de matriz africana. Ao apresentar seu apoio a Lula, o terreiro destacou a importância de assegurar dignidade, oportunidades e respeito às comunidades, em referência à memória de seus ancestrais.
A ialorixá Elza Bahia de Araújo, conhecida como Mãe Senhora de Ewá, morreu na madrugada deste sábado (17), aos 104 anos, em Salvador. Uma das filhas de santo mais antigas do Terreiro do Gantois (Terreiro Ilê Iyá Omi Axé Iyamassê), ela dedicou mais de sete décadas ao candomblé e comandava o Ilê Axé Omí Ewá, localizado no bairro de Praia Grande, no Subúrbio Ferroviário da capital baiana.
A morte foi comunicada pela Associação de São Jorge Ebé Oxóssi e pelo Terreiro do Gantois, por meio de uma nota de pesar. A causa da morte e as informações sobre velório e o sepultamento não foram divulgadas.
Mãe Senhora deixou cinco filhos, além de netos, bisnetos e tataranetos. Ao longo da trajetória religiosa, atuou na preservação das tradições de matriz africana, na transmissão dos conhecimentos do candomblé e no acolhimento de filhos e filhas de santo. Também ficou conhecida pelo trabalho junto a mulheres em situação de vulnerabilidade social e pela defesa da autonomia feminina e do enfrentamento à intolerância religiosa.
A ialorixá Elza Bahia de Araújo, conhecida como Mãe Senhora de Ewá, morreu na madrugada deste sábado (17), aos 104 anos, em Salvador. Uma das filhas de santo mais antigas do Terreiro do Gantois, ela dedicou mais de sete décadas ao candomblé e comandava o Ilê Axé Omí Ewá, localizado no bairro de Praia Grande, no Subúrbio Ferroviário da capital baiana.
CRIAÇÃO NO GANTOIS E INICIAÇÃO NO CANDOMBLÉ
Elza Bahia de Araújo perdeu a mãe durante o parto e foi levada ao Terreiro do Gantois quando tinha apenas um mês de vida. Ela cresceu sob os cuidados de Mãe Menininha do Gantois e de Mãe Laura, referências que tiveram papel importante em sua formação pessoal e religiosa.
Em 1950, foi iniciada no candomblé por Mãe Menininha para a orixá Ewá. A partir daí, construiu uma trajetória marcada pela dedicação ao sagrado e à comunidade religiosa. Mais tarde, assumiu a liderança do Ilê Axé Omí Ewá, onde continuou a exercer suas funções sacerdotais e a orientar gerações de praticantes.
Sua história permaneceu ligada à do Gantois, uma das casas tradicionais do candomblé na Bahia. Para a comunidade religiosa, segundo nota do Gantois, Mãe Senhora representava um elo com a ancestralidade e com os ensinamentos transmitidos por Mãe Menininha, além de contribuir para a continuidade das tradições da casa.
RECONHECIMENTO E HOMENAGENS
Em 11 de setembro de 2022, Mãe Senhora comemorou 100 anos de vida. A data foi celebrada por familiares e amigos, e a ialorixá recebeu uma placa da Federação Nacional do Culto Afro-Brasileiro em reconhecimento à sua trajetória.
Em dezembro daquele ano, a Câmara Municipal de Salvador aprovou um projeto de resolução para conceder à sacerdotisa a Comenda Maria Quitéria, honraria destinada a mulheres que se destacam pelos serviços prestados à cidade. A homenagem foi concedida em 2023 e reconheceu sua contribuição à cultura afro-brasileira, à religiosidade e à comunidade soteropolitana.
Na justificativa da homenagem, Mãe Senhora foi apresentada como referência no enfrentamento à intolerância religiosa e na luta pela autonomia das mulheres.
LEGADO RELIGIOSO
Na nota de pesar, a Associação de São Jorge Ebé Oxóssi e o Terreiro do Gantois comunicaram o falecimento de Mãe Senhora com referência ao retorno ao Òrun, termo utilizado para se referir a morte nas tradições iorubás para designar o mundo espiritual.
A instituição destacou que a ialorixá dedicou mais de 70 anos ao sagrado, ao axé, ao Gantois e à formação de centenas de filhos e filhas de santo, que ajudou a criar e orientar.
O comunicado também ressaltou a importância de sua trajetória para a preservação da memória e dos ensinamentos da casa religiosa.
“Uma das mais antigas filhas desta Casa, sua história representa um elo precioso com a ancestralidade, com os ensinamentos de Mãe Menininha e com a preservação de nossas tradições”, diz a nota.
A associação e o terreiro manifestaram solidariedade aos familiares, amigos e irmãos de santo, além de agradecer pela trajetória e pela contribuição da sacerdotisa à comunidade.
Ao final, a instituição pediu que os ancestrais recebessem Mãe Senhora e que os orixás a acolhessem em seu seio sagrado, desejando serenidade e paz aos familiares e amigos.
O Fórum da Comarca de Camaçari recebeu, nesta quarta-feira (30), o assentamento do Machado de Xangô, símbolo associado ao orixá da Justiça, do equilíbrio e da retidão na tradição afro-brasileira. A cerimônia integra o projeto 12 Machados de Xangô, promovido pela Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Bahia (OAB-BA), em parceria com o Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA) e casas tradicionais de matriz africana.
A iniciativa busca reforçar o respeito à diversidade religiosa, à liberdade de crença e à valorização da cultura afro-brasileira em espaços do Poder Judiciário. O projeto já instalou o símbolo na sede do TJBA, em Salvador, em maio de 2025, e no Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região (TRT-BA), em outubro do mesmo ano. Com o assentamento em Camaçari, a iniciativa chega a uma comarca do interior do estado.
A ação foi articulada pela OAB-BA em parceria com a Associação Beneficente, Cultural e Religiosa do Terreiro Unzó Tatêto Lembá Diá Nzambi (Terreiro de Lembá), comunidade reconhecida como Patrimônio Cultural de Camaçari e liderada pelo sacerdote Táta Ricardo Tavares.
Durante a solenidade, a secretária-geral da OAB-BA, Cléia Costa, afirmou que o assentamento representa mais uma etapa do projeto voltada à construção de uma Justiça que reconheça a pluralidade da sociedade baiana. “É mais um machado, que é um simbólico para continuarmos refletindo sobre o país que precisamos”, declarou.
O presidente da Subseção da OAB em Camaçari, Eduardo Requião, relacionou a presença do símbolo no Fórum ao respeito à diversidade e à pluralidade religiosa. Segundo ele, a iniciativa está de acordo com o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) no Tema 1.086 da repercussão geral.
Em 2024, o STF decidiu, por unanimidade, que a presença de símbolos religiosos em prédios públicos, quando destinada a manifestar a tradição cultural da sociedade brasileira, não viola os princípios da não discriminação, da laicidade estatal e da impessoalidade.
“Participando desse importante ato em respeito à diversidade, à pluralidade e, principalmente, a manutenção dos espaços religiosos com itens de natureza religiosa não ofende o princípio da laicidade”, afirmou Requião.
O presidente do TJBA, José Edivaldo Rocha Rotondano, também destacou a relação entre a iniciativa e o reconhecimento da diversidade cultural e religiosa da população baiana.
“Acredito que a Justiça precisa ter a cor, a sensibilidade e a alma do seu povo. Precisa olhar para a diversidade cultural e religiosa como uma vivência diária de acolhimento e garantia de liberdades fundamentais”, declarou.
Para Táta Ricardo Tavares, líder espiritual do Terreiro de Lembá, a solenidade representa um marco no processo de reconhecimento e garantia de direitos da população negra e dos povos de terreiro.
“Um marco histórico para a nossa sociedade. Na casa do Tribunal de Justiça da Bahia, a gente tem uma retrospectiva de ações de negação de direitos, de promoção de dor e morte. Então hoje se reescreve uma nova história”, afirmou.
Segundo o sacerdote, o assentamento também está relacionado a um processo de reparação e à garantia do direito à identidade, à memória e à preservação dos símbolos das comunidades de matriz africana.
ARTE E ANCESTRALIDADE
O Machado de Ouro de Xangô assentado no Fórum de Camaçari, chamado Luazi Kikete, foi produzido pelo artista Rodrigo Siqueira, responsável também pela confecção do primeiro Machado de Xangô instalado em Salvador. Siqueira afirmou que a produção das peças está relacionada a um processo de reparação e valorização da população afrodescendente. “O primeiro machado que foi inaugurado em Salvador, na Bahia, foi o segundo lugar no Brasil, foi feito por minhas mãos. E esse é o terceiro que eu voltei a fazer, sendo o primeiro em Camaçari”, disse.
Com o assentamento em Camaçari, o projeto 12 Machados de Xangô amplia sua presença no sistema de Justiça baiano e mantém a proposta de aproximar instituições, sociedade civil e comunidades tradicionais de matriz africana em torno do respeito à liberdade religiosa, à diversidade e à valorização da cultura afro-brasileira.
O Fórum da Comarca de Camaçari recebeu, nesta quarta-feira (30), o assentamento do Machado de Xangô, símbolo associado ao orixá da Justiça, do equilíbrio e da retidão na tradição afro-brasileira. A cerimônia integra o projeto 12 Machados de Xangô, promovido pela Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Bahia (OAB-BA), em parceria com o Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA) e casas tradicionais de matriz africana.
A iniciativa busca reforçar o respeito à diversidade religiosa, à liberdade de crença e à valorização da cultura afro-brasileira em espaços do Poder Judiciário. O projeto já instalou o símbolo na sede do TJBA, em Salvador, em maio de 2025, e no Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região (TRT-BA), em outubro do mesmo ano. Com o assentamento em Camaçari, a iniciativa chega a uma comarca do interior do estado.
A ação foi articulada pela OAB-BA em parceria com a Associação Beneficente, Cultural e Religiosa do Terreiro Unzó Tatêto Lembá Diá Nzambi (Terreiro de Lembá), comunidade reconhecida como Patrimônio Cultural de Camaçari e liderada pelo sacerdote Táta Ricardo Tavares.
Durante a solenidade, a secretária-geral da OAB-BA, Cléia Costa, afirmou que o assentamento representa mais uma etapa do projeto voltada à construção de uma Justiça que reconheça a pluralidade da sociedade baiana. “É mais um machado, que é um simbólico para continuarmos refletindo sobre o país que precisamos”, declarou.
O presidente da Subseção da OAB em Camaçari, Eduardo Requião, relacionou a presença do símbolo no Fórum ao respeito à diversidade e à pluralidade religiosa. Segundo ele, a iniciativa está de acordo com o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) no Tema 1.086 da repercussão geral.
Em 2024, o STF decidiu, por unanimidade, que a presença de símbolos religiosos em prédios públicos, quando destinada a manifestar a tradição cultural da sociedade brasileira, não viola os princípios da não discriminação, da laicidade estatal e da impessoalidade. “Participando desse importante ato em respeito à diversidade, à pluralidade e, principalmente, a manutenção dos espaços religiosos com itens de natureza religiosa não ofende o princípio da laicidade”, afirmou Requião.
O presidente do TJBA, José Edivaldo Rocha Rotondano, também destacou a relação entre a iniciativa e o reconhecimento da diversidade cultural e religiosa da população baiana. “Acredito que a Justiça precisa ter a cor, a sensibilidade e a alma do seu povo. Precisa olhar para a diversidade cultural e religiosa como uma vivência diária de acolhimento e garantia de liberdades fundamentais”, declarou.
Para Táta Ricardo Tavares, líder espiritual do Terreiro de Lembá, a solenidade representa um marco no processo de reconhecimento e garantia de direitos da população negra e dos povos de terreiro. “Um marco histórico para a nossa sociedade. Na casa do Tribunal de Justiça da Bahia, a gente tem uma retrospectiva de ações de negação de direitos, de promoção de dor e morte. Então hoje se reescreve uma nova história”, afirmou.
Segundo o sacerdote, o assentamento também está relacionado a um processo de reparação e à garantia do direito à identidade, à memória e à preservação dos símbolos das comunidades de matriz africana.
XANGÔ
Xangô é uma das divindades mais reverenciadas nas religiões de matriz africana, reconhecido como o orixá da justiça, do fogo, dos raios e dos trovões. Na tradição iorubá, ele foi o quarto rei do Império de Oió, governando com pulso firme, sabedoria e autoridade. Representando a lei e a retidão, Xangô não tolera a mentira, o roubo ou a injustiça; ele atua com absoluta imparcialidade.
O símbolo máximo dessa divindade é o oxê, um machado de dois gumes que carrega um significado filosófico. As duas lâminas do machado representam a dualidade e a neutralidade da justiça de Xangô, lembrando que a mesma lei que protege e absolve também pune, "cortando" para ambos os lados de forma justa e equilibrada. Além do machado, Xangô é fortemente associado aos edés (pedras de raio) e aos meteoritos, que simbolizam sua força vinda dos céus. Suas cores são, o vermelho e o branco (ou marrom, dependendo da tradição), e o dia da semana associado a ele é a quarta-feira.
Quiabo, camarão, amendoim e castanha são alguns dos principais ingredientes que integram uma das receitas mais tradicionais para os baianos no mês de setembro: o caruru.
Seja para os santos Cosme e Damião ou para Ibeji, divindades gêmeas do Candomblé, neste mês é tradição preparar, comer e distribuir o prato típico da culinária baiana como forma de oferenda e devoção.
Basta começar o nono mês do ano para muita gente correr atrás de alguém que esteja oferecendo um caruru. Para quem não possui uma rede de contatos na cidade, no entanto, encontrar onde degustar o prato pode ser uma tarefa difícil. É o caso da pesquisadora Amanda Nogueira, cearense que chegou a Salvador há seis anos. “Em Salvador, estou com dificuldade de encontrar ou ser convidada para carurus. Como não tenho amigos de infância aqui, talvez eu precise ampliar meu círculo de amizades ou buscar os carurus pela internet. Mas, este ano, eu preciso ir a um caruru”, relatou.
Pensando nessa dificuldade, o desenvolvedor Fernando Teles utilizou a tecnologia para ajudar a manter a tradição e criou a plataforma “Quero Caruru”, um site que utiliza georreferenciamento para mostrar, em um mapa, onde estão acontecendo carurus. A ferramenta reúne eventos em diferentes locais, inclusive fora do Brasil.
“A ideia partiu de uma conversa entre amigos. Nós somos desenvolvedores, então a gente queria usar a tecnologia para poder mostrar onde tem caruru acontecendo. Além disso, todo ano eu percebo que há essa mesma dúvida nas redes sociais, todo mundo perguntando onde é que tem caruru, pedindo convites, e aí só reforçou a ideia de que colocar o site no ar seria uma boa ideia”, explicou Teles.
Desenvolvedor Fernando Teles | Foto: Acervo Pessoal
O programador nasceu e cresceu na Cidade Baixa, em Salvador, e essa vivência também motivou a criação da plataforma. “A minha história com o caruru vem desde criança. O dia 27 de setembro, para mim, é uma data bastante especial. Quando eu voltava da escola, na infância, vinha pegando os doces na rua e, à noite, eu nem jantava em casa. Saía pela rua para comer caruru. Chegava a comer dois em uma noite”, contou.
Ele explica como a tecnologia pode se aproximar da tradição e facilitar a popularização da prática. “Com o passar dos anos, a gente percebe que as formas de comunicação mudam. Embora a tradição do caruru seja uma tradição oral, sempre passada de boca em boca, as pessoas recebem os convites, até mesmo na hora, passando na rua. Hoje em dia, temos as mídias sociais, que têm feito bastante esse papel. Mas acredito que uma aplicação como essa ajuda a manter viva essa tradição, que algumas pessoas têm a sensação de estar morrendo”, afirmou.
O site funciona como um mapa colaborativo, no qual os usuários podem consultar onde estão acontecendo carurus. Qualquer pessoa que esteja organizando um evento, seja ele gratuito ou pago, pode cadastrá-lo na plataforma. Também existe a possibilidade de destacar o evento. Quem quiser dar mais visibilidade ao seu caruru pode optar pelo recurso mediante uma contribuição, que ajuda a manter o projeto no ar.
Além do mapa, a plataforma conta com um calendário em que é possível visualizar os próximos eventos. Assim, o usuário pode consultar tanto os locais onde os carurus estão acontecendo quanto conferir, pelo calendário, quais serão os próximos eventos.
Segundo o desenvolvedor, desde que o site entrou no ar, em janeiro, foram 86 carurus registrados, com 40 previstos para o fim de semana em que se celebra os santos gêmeos (26 e 27 de Setembro), sendo 20 em Salvador e 40 em outros lugares.
Confira onde tem Caruru:
CARURU, COSME E DAMIÃO E IBEJI
A prática de distribuir caruru e doces em setembro surge da associação entre o catolicismo e a religiosidade de matriz africana, inicialmente imposta pela colonização e, mais tarde, incorporada à cultura brasileira.
“As religiões de matriz africana acabaram adotando, fizeram esse sincretismo porque você tem os orixás gêmeos, que são os Ibeji, e os santos gêmeos da Igreja Católica, São Cosme e São Damião. Então, fez-se diretamente essa ligação. A gente acaba ressignificando e tomando a data para a gente e as festividades para a gente e seguindo em frente”, explica Ernesto Xavier, antropólogo, historiador e Ogan.
Ernesto Xavier | Foto: Fabio Audi / Divulgação
Para religiões de matriz africana, como o Candomblé, os homenageados são os Ibeji, palavra que tem origem no iorubá, em que “ibi” significa nascido e “eji”, dois. Os Ibeji são considerados divindades ligadas à brincadeira e à alegria, com sua regência associada à infância.
“A infância para as religiões de matriz africana não representa apenas as crianças, mas uma energia de pureza, força e vitalidade que é necessária para nós. Resgatar e valorizar a criança interior envolve tanto cuidar e preservar as crianças quanto, já adultos, manter viva essa energia infantil que existe em cada um. Ela nos dá força para criar, prosperar, fazer as coisas brotarem e viver com alegria e fertilidade. As crianças representam tudo isso, e é essa energia que valorizamos e potencializamos nessa festividade, por meio da partilha e dos alimentos que distribuímos nesse período”, detalhou Ernesto.
Cosme e Damião foram irmãos gêmeos e médicos que ficaram conhecidos por exercerem a medicina de forma gratuita, o que lhes rendeu o título grego de “anárgiros” (“inimigos do dinheiro”) e atraiu muitas pessoas para a fé cristã. Eles são considerados santos pela Igreja Católica devido ao martírio durante a perseguição aos cristãos promovida pelo imperador romano Diocleciano. Segundo a tradição cristã, por se recusarem a renunciar ao cristianismo, os irmãos foram submetidos a diversas torturas, das quais teriam saído ilesos milagrosamente, até serem decapitados por volta do ano 303 d.C. Com isso, tornaram-se santos mártires da Igreja Católica.
O padre Valter Ruy, pároco da Paróquia Santos Cosme e Damião, no bairro da Liberdade, em Salvador, destaca como a fé católica nos santos gêmeos convive com a devoção popular afro-brasileira. “A Igreja tenta conviver, cada um dentro do seu quadrado, com essas manifestações populares, que são típicas da nossa realidade brasileira e estão impregnadas de forma positiva no subconsciente das pessoas, porque nós somos um povo afro-brasileiro. E aí entram todas as comidas oferecidas às entidades de matriz africana, mas, no bojo da fé católica, nada é oferecido”, detalhou.
Padre Valter Rui e Paróquia Santos Cosme e Damião | Fotos: Acervo Pessoal e Reprodução Google Maps
O caruru de São Cosme e São Damião é uma tradição reconhecida, desde 2024, como patrimônio imaterial da Bahia.
Em setembro, seja para Cosme e Damião, seja para Ibeji, o caruru é protagonista na mesa dos baianos, como símbolo de fé, partilha e devoção.
A busca pelo equilíbrio mental e emocional muitas vezes esbarra em um dilema comum: quando procurar auxílio médico e quando recorrer ao suporte espiritual? O tema foi debatido durante o podcast Voz Própria, em que especialistas e apresentadores destacaram que a medicina e as práticas religiosas não são excludentes, mas sim complementares.
Durante a conversa, o médico psiquiatra André Gordilho enfatizou que tratamentos médicos, psicoterapias e atividades de bem-estar — como ioga e dança — podem ajudar no cuidado com a saúde mental.
O psiquiatra ressaltou também a importância de distinguir o que faz parte do repertório cultural e religioso de um indivíduo do que pode sinalizar o início de um transtorno psiquiátrico.
Segundo o médico, manifestações como a incorporação possuem momentos e ambientes específicos dentro de tradições como o Candomblé, a Umbanda ou o Espiritismo. Por outro lado, a ocorrência repentina e descontextualizada de delírios, alucinações ou alterações de comportamento no cotidiano pode indicar um quadro de adoecimento mental.
"A própria religião percebe o que é adequado e o que não é. Ter uma manifestação dentro de um local apropriado é uma coisa. Outra é apresentar sintomas de forma abrupta, fora de contexto, o que exige uma avaliação clínica", explicou o especialista.
Ele destacou ainda a responsabilidade das lideranças religiosas no encaminhamento adequado de fiéis. Mães e pais de santo, médiuns e dirigentes de casas espirituais desempenham um papel crucial na identificação de casos que demandam intervenção médica.
O psiquiatra relatou, inclusive, que já recebeu pacientes encaminhados diretamente por líderes espirituais que perceberam que a demanda do frequentador ultrapassava a esfera espiritual e exigia acompanhamento psiquiátrico.
"E eu vejo que os centros espíritas, eles têm muito esse olhar, essa percepção. E já vi também terreiros com essa percepção, de perceber: 'Olha, você tem que ir no psiquiatra'. Já recebi pacientes encaminhados pela mãe de santo, pelo pai de santo, que percebeu que aquilo ali não estava adequado”, apontou.
Veja o vídeo:
A ialorixá Mãe Deca denunciou ter sido vítima de ataques de racismo religioso contra o terreiro Ilê Axé Tonan Onirê, localizado no distrito de Acupe, em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano. O caso foi divulgado neste domingo (13) pela Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia (AFA).
Segundo a líder religiosa, um pastor da região, identificado como Sandro, teria destruído por duas vezes um assentamento do Orixá Exú localizado em frente ao terreiro.
Após os episódios, Mãe Deca comunicou o caso à AFA, que acionou a Ronda Omnira, da Polícia Militar da Bahia (PMBA).
Em nota, a PM informou que tem realizado rondas na região para garantir a segurança e a tranquilidade das comunidades religiosas. A corporação afirmou ainda que a responsável pelo terreiro foi orientada a comparecer a uma delegacia, acompanhada de testemunhas, para registrar a ocorrência e adotar os procedimentos necessários para evitar novos episódios.
A PM ressaltou que o caso teria ocorrido no mês de agosto e que informações sobre a investigação e seus desdobramentos devem ser obtidas junto à Polícia Civil. A corporação também reafirmou o compromisso com a proteção dos direitos culturais e religiosos.
Procurada pela reportagem, a Polícia Civil não respondeu até o fechamento desta matéria.
Nesta sexta-feira (11), o alabê, pesquisador e integrante do Grupo Ofá, Iuri Passos, revelou em entrevista ao programa Bahia Notícias no Ar, da Rádio Antena 1 Salvador, os bastidores da colaboração com a cantora Anitta na faixa "Contemplação".
O flerte musical entre os artistas, segundo Iuri, já vinha de antes. O grupo baiano chegou a convidar a artista para participar do álbum Iya Agba Sire (2024), mas a agenda da cantora impediu o encontro na época. O jogo virou quando a produtora artística de Anitta, procurou Iuri pelo Instagram. Ela revelou que a a carioca era muito fã do trabalho do Grupo Ofá e havia se aproximado bastante de sua musicalidade, especialmente da faixa Ara Wa Romi Wa / Oxum La Omiro, gravada anteriormente por Marisa Monte no álbum Obatalá (2019).
A EMOÇÃO DE ANITTA
Atendendo a um pedido da cantora para criar algo semelhante a música, o grupo desenvolveu a faixa "Contemplação", estruturada a partir de Aridé Beô, uma cantiga sagrada dedicada ao Orixá Oxum.
O momento de maior impacto, no entanto, ocorreu na entrega do primeiro arranjo, gravado inteiramente em iorubá. "Ela chorou, ficou super emocionada, mas disse: 'poxa, eu não vou conseguir cantar em iorubá não, eu tenho pouco tempo'", relatou o músico.
Iuri revelou ainda uma curiosidade de bastidor: originalmente, a música havia sido encomendada apenas para tocar na abertura do show da artista, sem intenção de lançamento oficial. O impacto emocional foi tamanho que a cantora mudou de ideia na mesma hora. "Ela disse: 'não, agora eu quero que a música entre no álbum'", contou.
Iuri revelou ainda uma curiosidade de bastidor: originalmente, a música havia sido encomendada apenas para tocar na abertura do show da artista, sem intenção de lançamento oficial. O impacto emocional foi tamanho que a cantora mudou de ideia na mesma hora. "Ela disse: 'não, agora eu quero que a música entre no álbum'", contou.
COMPOSIÇÃO COLETIVA E ANCESTRALIDADE
Para solucionar a barreira do idioma, o Grupo Ofá viajou para trabalhar lado a lado com a equipe de compositores de Anitta. O processo envolveu os chamados camps (acampamentos de composição), onde criaram, a quatro mãos, uma versão que mescla o português com o iorubá.
Para Iuri, o grande trunfo da parceria foi a preservação do sentido sagrado da obra. "O momento mais importante dessa composição, e aí é muito nosso do grupo Ofá, é não se distanciar da letra em iorubá, da sua tradução. [...] Pra gente que entende o que está sendo cantado, não perder o significado", destacou o professor, celebrando o respeito mútuo e a satisfação de ambas as partes com o resultado final.
Confira a entrevista completa:
O empresário Pablo Marçal afirmou durante uma entrevista ao canal BNTV, que "se macumba funcionasse, a Bahia era Dubai". A declaração, dada em resposta a um questionamento sobre ele ter medo de "macumbaria", gerou repercussão nas redes sociais.
Durante a mesma gravação, Marçal desqualificou os praticantes de religiões de matriz africana, atrelando a fé à falta de sucesso pessoal e financeiro, em trechos da entrevista que circulam nas redes, ele associa os praticantes ao fracasso e à inveja. "Todo macumbeiro é um derrotado na vida. É gente invejosa e que não prospera", declarou.
Na mesma ocasião, o empresário também criticou pessoas que, segundo a sua visão, recorrem a esse tipo de prática religiosa com a intenção exclusiva de prejudicar indivíduos que alcançaram a prosperidade financeira.
A Bahia ganhará uma nova homenagem no Carnaval do Rio de Janeiro. A tradicional Festa de Oxumarê, também conhecida como Ajodun, mantida pela Casa de Oxumarê em Salvador, será o enredo da escola de samba carioca Unidos do Jacarezinho no Carnaval de 2027.
A agremiação cruza a Marquês de Sapucaí no dia 5 de fevereiro, como a segunda escola a desfilar, com o enredo 'Ajodun Oxumarê – O dia em que o arco-íris tocou a Terra'.
De acordo com os enredistas Mateus Pranto, Raphael Homem e João Gabriel, a ideia é apresentar ao público uma narrativa conduzida pela voz de um filho do orixá, transformando sua existência em celebração.
"Queríamos fugir de uma narrativa tradicional sobre o orixá, que se limitasse a contar suas origens na África, a travessia atlântica e seu assentamento no Brasil. Embora esses elementos sejam fundamentais para compreender a presença de Oxumarê entre nós, procuramos construir uma história mais intimista, que pudesse ser sentida pelo componente", explicam.
A história aborda temas como transformação, pertencimento, autoconhecimento, renovação e a força de recomeçar. Com o enredo, a escola mira o retorno ao Grupo Especial do Carnaval do Rio.
“Depois de tudo o que vivemos no último carnaval, era preciso ‘trocar de pele’. Nosso carnavalesco trouxe uma proposta que traduz esse sentimento e também atende a um desejo antigo do nosso componente: levar para a Avenida um enredo de temática afro, que valorize nossa ancestralidade”, afirma o presidente Valdir Bytoko.
A Bahia também estará presente em outras escolas, como a Paraíso do Tuiuti que vai homenagear a baiana Tia Ciata com o enredo "Ciata: a mãe preta do samba", e com a Unidos de Vila Isabel, que terá a obra Torto Arado, de Itamar Vieira Junior como tema da festa no enredo “Torto Arado – Sobre a terra há de viver sempre o mais forte”.
O Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) (TJBA) deve analisar nesta sexta-feira (28) a conversão da sindicância contra o juiz Cesar Augusto Borges de Andrade em Processo Administrativo Disciplinar (PAD). A apuração envolve a retirada de uma fotografia relacionada ao candomblé de uma exposição no Fórum de Camaçari.
O episódio ocorreu em março deste ano. Na ocasião, o magistrado, da 1ª Vara da Fazenda Pública de Camaçari, questionou a presença da imagem de Solange Borges, que exerce a função de Makota no Candomblé e aparecia com vestimentas religiosas.
Segundo a Folha de S.Paulo, o juiz alegou “incompatibilidade com a laicidade estatal.” Uma fotografia de uma mulher segurando uma imagem de Santo Antônio, porém, permaneceu na mostra. O caso chegou ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) após representação do Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afrobrasileiras (Idafro), que classificou a conduta como discriminatória e intolerante.
Com a eventual abertura do PAD, serão apuradas possíveis violações aos deveres de imparcialidade, igualdade e compatibilidade com o cargo, além da suspeita de racismo religioso institucional. Entre as penalidades previstas estão advertência, suspensão e perda do cargo.
Em manifestação à Corregedoria do TJBA, Cesar Augusto afirmou que não determinou a retirada da fotografia. Segundo ele, o documento enviado ao órgão pedia apenas a análise da legalidade da exposição, enquanto a remoção teria sido uma decisão administrativa do então diretor do fórum.
Claudia Leitte surpreendeu os fãs ao compartilhar nas redes sociais uma música do novo álbum de Anitta, o projeto 'EQUILIBRIVM'. A canção escolhida pela baiana foi a música 'Não Me Cutuca', lançada no 'EQUILIBRIVM II', que conta com a participação de Alceu Valença.
O post foi motivo de burburinho nas redes sociais pelo conceito do álbum de Anitta, que tem como base a espiritualidade e diversas canções com referências ao candomblé, religião da funkeira.
Claudia Leitte estava ouvindo o equilibrium novo álbum de Anitta ???? pic.twitter.com/XAjOHweOh9
— Claudia Informa (@ClaudiaInforma) August 23, 2026
Em entrevistas, a funkeira chegou a afirmar que foi aconselhada a não expor a religião por uma questão do mercado, e como o projeto veio em um bom momento para ela.
"Eu tinha muito medo antigamente. Tinha medo de expor a minha religião. Não pode dizer que você é da macumba, porque senão você vai perder um monte de coisa. Caramba, vou perder um monte de coisa porque eu sou... é a religião candomblé. Teve uma hora que eu falei: 'Ah, eu não quero saber mais não, gente. Que o povo saiba, eu não tô nem aí'."
De acordo com Anitta, o novo projeto é algo mais confessional, que foi feito por ela em um processo de autoconhecimento. A cantora afirma que não tem interesse em "converter" as pessoas", mas ensinar sobre a pluralidade brasileira.
"Não estou cantando exatamente sobre religiões ou dogmas, mas sobre amor, cura e cultura brasileira. Mais do que falar sobre os orixás, os santos ou outras figuras religiosas, quero falar sobre os fundamentos que eles nos trazem."
Claudia, que é evangélica e já se envolveu em diversas polêmicas, entre elas uma acusação de intolerância religiosa por retirar o nome de Iemanjá da música 'Cata Caranguejo', não comentou o assunto na web após os questionamentos dos fãs.
No entanto, a postagem da artista virou motivo de comentários e críticas na web. "A crente na macumba", brincou um internauta. "Por dentro repreendendo o álbum todo!", escreveu outra. "Essa mulher é muito fragmentada", apontou um terceiro.
O aspecto franzino, que originou o apelido de “Menininha” (segundo algumas versões), não escondia a grandeza de Maria Escolástica da Conceição Nazareth, ialorixá que, por seis décadas, esteve à frente do Terreiro do Gantois (Ilê Iyá Omi Àsé Iyámasé), uma das lideranças religiosas mais influentes do país.
Nesta quinta-feira (13), completam-se 40 anos da morte de Mãe Menininha do Gantois, figura central na luta pelo reconhecimento do Candomblé perante a sociedade e o Estado e pelo fim da perseguição policial às religiões de matriz africana.
Nascida em 10 de fevereiro de 1894, em Salvador, no dia de Santa Escolástica, que lhe deu o nome, era filha de Joaquim e Maria da Glória. Possuía ascendência direta dos povos Egbá-Arakê, da região de Abeokuta, na Nigéria, e era bisneta de negros libertos, Maria Júlia da Conceição Nazareth e Francisco Nazareth de Etra — fundadores da linhagem do Gantois.
Mãe Menininha foi iniciada no Candomblé aos oito meses de idade por sua tia-avó e madrinha de batismo, Pulquéria Maria da Conceição (Mãe Pulquéria), e consagrada à orixá Oxum. Menininha seria sua sucessora na função de ialorixá do Gantois. Com a morte repentina de Mãe Pulquéria, em 1918, o processo de sucessão foi acelerado. Por um curto período, enquanto a jovem se preparava para assumir o cargo, sua mãe biológica, Maria da Glória Nazareth, permaneceu à frente do Gantois.
Em 1922, aos 28 anos, tornou-se a quarta ialorixá do Terreiro do Gantois e uma das mais populares mães de santo brasileiras. “Minha avó, minha tia e os chefes da casa diziam que eu tinha que servir. Eu não podia dizer que não, mas tinha um medo horroroso da missão (...): passar a vida inteira ouvindo relatos de aflições e ter que ficar calada, guardar tudo para mim, procurar a meditação dos encantados para acabar com o sofrimento”, disse em relato disponível no livro Mãe Menininha do Gantois: uma biografia (2006).
E chegou a hesitar em aceitar o cargo para o qual os deuses a elegeram. “Quando os orixás me escolheram, eu não recusei, mas balancei muito para aceitar”.

Foto: Acervo Terreiro do Gantois
Jorge Amado descreveu Mãe Menininha como uma mulher “pobre, modesta, tímida, que nasceu no candomblé e nele cresceu, no ofício da compaixão e da bondade, nos ritmos antigos, conservando valores profundos da cultura brasileira”.
A gestão de Mãe Menininha coincidiu com um período em que as religiões de matriz africana sofriam intensa repressão na Bahia, com terreiros frequentemente invadidos e fechados por forças policiais e seus rituais criminalizados.
A "Oxum mais bonita", como descreveu Caymmi com a mão da doçura, estabeleceu uma rede de diálogo com autoridades, políticos, intelectuais e artistas. Por meio de diplomacia e trânsito entre diferentes classes sociais, ela conseguiu frear a perseguição policial aos terreiros, abrindo caminho para que o Candomblé ganhasse o status de religião legítima e fosse valorizado como pilar da identidade cultural afro-brasileira.
“Muitos anos atrás, Mãe Menininha já sinalizava que liberdade era pressuposto de luta, assim como foi no período da escravidão. E, em 64 anos como sacerdotisa, do alto de sua generosidade e força, Mãe Menininha usou de diplomacia, diálogo inter-religioso e carisma para combater a perseguição aos terreiros e desmistificar a cultura de matriz africana”, declarou ao Bahia Notícias, a Iyá Kekeré (Mãe Pequena) e neta da Mãe Menininha, Ângela Ferreira, liderança interina do Gantois após a morte de Mãe Carmen em dezembro de 2025.
Como registrou o próprio Jorge Amado, as comemorações do jubileu de ouro de Mãe Menininha como ialorixá do Gantois reuniram a seu redor a cidade inteira, incluindo o governador e ex-governadores, o prefeito, vereadores e deputados, a intelectualidade baiana, banqueiros e industriais, além, é claro, dos filhos e filhas de santo de todos os cantos do Brasil.

Foto: Acervo Terreiro do Gantois
Ecumênica, Mãe Menininha mantinha uma relação próxima com o catolicismo e não abria mão de frequentar a missa. Podia receber a comunhão pela manhã e, horas depois, conduzir os rituais do candomblé. Entre uma atividade e outra, dedicava-se às duas filhas, Cleusa e Carmen, que mais tarde assumiriam a liderança do terreiro, além de acompanhar de perto o funcionamento da casa.
A rotina no Gantois era intensa. O terreiro também mantinha suas próprias atividades, como a criação de galinhas e o cultivo de milho. Nos momentos de descanso, encontrava prazer em atividades simples. Zelava cuidadosamente pela extensa coleção de peças de louça que havia recebido de filhos de santo ilustres. Durante os capítulos da novela Selva de Pedra, ninguém se atrevia a interrompê-la. No quarto, mantinha o rádio ao lado da cama, onde ouvia programas evangélicos e música popular. Entre suas cantoras favoritas estava Maria Bethânia, que é sua filha de santo.
Após a sua morte, seus filhos deixaram seu quarto intacto, com seus objetos de uso pessoal e ritualísticos. O aposento foi transformado no Memorial Mãe Menininha e é uma das grandes atrações do Gantois. O espaço recentemente passou a integrar o Guia Baiano de Museus.
Foto: Acervo do Terreiro do Gantois
Por trás das grossas lentes dos óculos, havia uma mulher de personalidade firme e determinação incomum. Mãe Menininha não apenas enfrentou o preconceito e ajudou a consolidar o candomblé como uma expressão da cultura negra, como também ampliou as portas do terreiro para novos adeptos.
“Oxum reinava em sua trajetória, afinal foi iniciada aos oito meses de vida, e seu apelido faz jus a essa condição. Menininha era a pequena iniciada que mergulhou na essência legada por suas ancestrais e fez jus ao que lhe foi confiado. O núcleo religioso era a fonte de vida e também de luta por direito a existir e viver com dignidade, assim pensavam as mulheres do Gantois que se tornaram lideranças fortes na Bahia e que conseguiram manter sua comunidade. Assim era Mãe Menininha, a mulher e mãe, a cidadã e sacerdotisa que elencava numa mesma personalidade todos os seus estados de vivência, a fim de proteger seu povo”, afirma Márcia Maria de Souza, Maié Oxum do Gantois.
Sua relação com o catolicismo também ajudou a aproximar universos que, à época, pareciam distantes. Ela chegou a convencer bispos a permitir que mulheres vestidas com os trajes tradicionais do candomblé entrassem nas igrejas. As mesmas vestimentas que usava com elegância no dia a dia do terreiro: o branco dedicado a Oxalá, o dourado de Oxum e o azul de Oxóssi.
No romance Bahia de Todos os Santos, Amado descreve que “Mãe Menininha está acima de toda e qualquer divergência de ordem política, econômica ou religiosa. É a ialorixá de todo o povo da Bahia, sua mão se estende protetora sobre a cidade. Não se trata nem de misticismo nem de folclore e sim de uma realidade do mistério baiano”.
Em entrevista, Carlos Prates, gerente de Relações Institucionais e porta-voz da Concessionária Ponte Salvador–Itaparica, garantiu que as obras do equipamento seguem em andamento de forma paralela ao processo de diálogo com as comunidades tradicionais da região. Em entrevista recente, o representante detalhou o cronograma de audiências públicas e os próximos passos para a escuta de povos de terreiro e comunidades ciganas na Ilha de Itaparica.
De acordo com Prates, "o diálogo com a comunidade, ele é constante, sempre existiu". Ele relembrou que, no ano de 2025, o consórcio realizou doze consultas públicas envolvendo pescadores, marisqueiras e quilombolas, o que culminou na assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público, e que os projetos básicos ambientais (PBAs) dessa fase já foram aprovados.
Atualmente, a concessionária volta as atenções para os grupos religiosos que ainda não participaram formalmente do processo. "Estamos ainda formalizando alguns protocolos para ouvir alguns terreiros ainda que não foram ouvidos", explicou o gerente, ressaltando que essas áreas estão situadas em diversas regiões da ilha. Prates fez questão de pontuar que as tratativas não paralisam as intervenções: "O diálogo continua constante, independente do andamento de obra". Ele complementou afirmando que essas etapas de escuta não são pendências, mas processos nos quais as demandas são trazidas para a concessionária e para o governo a fim de serem atendidas.
Questionado sobre as principais preocupações apresentadas por esses grupos, Prates esclareceu que as pautas variam de acordo com as particularidades de cada população. "Depende do público. Os pescadores, eles perguntam sobre áreas de pesca, onde eles vão poder pescar, se em alguma determinada localidade vai ser proibida a pesca", exemplificou. Já em relação a outras minorias, o foco se volta para contrapartidas diretas. Segundo o gerente, as dúvidas envolvem "para a comunidade cigana, o que eles podem ter de benefícios nas comunidades onde eles moram, que em geral são comunidades bem carentes".
Para concluir, o gestor enfatizou que a relação com os moradores locais é um compromisso contínuo, visto que a empresa irá construir, manter e operar o sistema viário. "Digamos que seja um casamento de longa duração, são 35 anos de concessão", afirmou. Prates destacou que o grande objetivo da empresa é construir o projeto em conjunto, para que a população local "faça parte desse projeto e já está fazendo através dos empregos que nós estamos gerando".
O Governo do Estado da Bahia decretou, nesta sexta-feira (31 de julho de 2026), o tombamento oficial do Terreiro Zoogodô Bogum Malê Hundó. A medida, que reconhece a importância histórica e cultural do templo religioso de tradição Jêje-Mahi, foi publicada no Diário Oficial do Estado.
Localizado na tradicional Ladeira do Bogum (Rua Manoel do Bonfim, nº 35), no bairro do Engenho Velho da Federação, em Salvador, o espaço agora passa a integrar o Livro do Tombamento dos Bens Imóveis do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC).
A oficialização é resultado de um processo iniciado em 2019 (Processo SEI nº 062.1982.2019.0001382-39), que contou com propostas formuladas e aprovadas tanto pelo IPAC quanto pelo Conselho Estadual de Cultura (CEC). Com a publicação do decreto, o IPAC fica autorizado a adotar todas as providências legais para assegurar a preservação e a salvaguarda deste importante patrimônio da cultura afro-brasileira no estado.
TERREIRO DO BOGUM
O Terreiro do Bogum, pertencente à tradição Jeje-Maí do Candomblé, é considerado um dos mais tradicionais e singulares de Salvador. Entre suas principais características está a preservação de elementos culturais e religiosos próprios da nação Jeje, que o diferenciam da maioria dos demais terreiros da capital baiana.
Uma das diferenças mais marcantes está na língua utilizada durante os rituais. Enquanto a maior parte dos candomblés da Bahia segue a tradição nagô e utiliza o iorubá, no Bogum os cânticos e cerimônias são realizados em eué, idioma do povo fon, originário da região do antigo Daomé, atual Benim. Além da linguagem, os ritos também apresentam particularidades: no Terreiro do Bogum não há culto aos orixás, mas sim aos voduns, divindades que recebem nomenclaturas e práticas litúrgicas específicas da tradição Jeje, mas que tiveram seus cultos unidos ao dos Orixás, em muitos lugares.
A atual liderança do terreiro é exercida pela Doné Zaildes Iracema de Mello, popularmente conhecida como Mãe Índia, que assumiu o cargo máximo em agosto de 2003. Para a sacerdotisa, o reconhecimento do Estado exalta a memória e a resistência de seus antepassados frente à violência do processo de colonização. “As minhas ancestrais, as minhas mais velhas, as que vieram antes de mim, elas também construíram esse lugar de luta, de resistência, de empoderamento e de resiliência. Porque para ter sucesso nesse caminhar, tem que ter fé, tem que ter vodun, e esse tombamento é um avanço para as construções históricas que o meu povo fez e faz até hoje”, destaca.

Fotos dos pesquisadores Melville e Frances Herskovits em 1942 ,no Zoogodô Bogum Malê Rundó "Terreiro do Bogum"
A proteção legal também funciona como um escudo contra o apagamento territorial. Mãe Índia recorda que a área original do terreiro era muito mais vasta. “Desde o final de linha do Engenho Velho da Federação até a Vasco da Gama era Bogum”, relembra. Com o avanço descontrolado da urbanização, a comunidade precisou readaptar suas práticas, embora tenha mantido a originalidade. “O candomblé é mantido pela força ancestral da natureza e devemos preservar esse lugar que hoje em dia é tão pouco, mas que conseguimos manter. Acredito que esse tombamento vai ser para garantir que a gente não siga diminuindo as nossas relações com a natureza devido a como a sociedade enxerga o processo de urbanização, acabando com árvores, rios e espaços em que o sagrado atua”, alerta a Doné.
A história do terreiro é marcada por lideranças femininas lendárias, como Mãe Emiliana, Mãe Nicinha e a Doné Maria Valentina dos Anjos Costa (Mãe Runhó). O prestígio de Mãe Runhó é tamanho que ela dá nome a 'uma praça nas proximidades do terreiro, onde há uma estátua erguida em sua homenagem.
O local onde hoje está instalado o Terreiro do Bogum também possui importância histórica. De acordo com a tradição, foi ali que Joaquim Jeje, apontado como um dos participantes da Revolta dos Malês, teria escondido um baú — conhecido como bogum — contendo donativos que ajudaram a financiar o levante ocorrido em Salvador, em janeiro de 1835.
A Revolta dos Malês foi organizada por africanos muçulmanos escravizados, muitos deles alfabetizados em árabe e reconhecidos pela capacidade de organização. O grupo pretendia instaurar um governo de inspiração africana no Brasil, mas o plano acabou sendo descoberto após uma denúncia, impedindo o sucesso da insurreição.
A origem do nome "Bogum" também possui outra interpretação. Segundo o dialeto Gun, falado na região de Porto Novo, no Benim, a palavra pode significar "lugar dos fons", unindo os termos que fazem referência ao povo fon e ao espaço onde ele se estabelece.
Outra tradição preservada pelo terreiro é a missa em homenagem a São Bartolomeu, realizada anualmente há cerca de dois séculos. A celebração tornou-se um dos principais marcos da comunidade religiosa. O calendário festivo do Terreiro do Bogum começa em 1º de janeiro e se estende até meados de abril, reunindo diversas celebrações ligadas à tradição Jeje.
Em 2024, a história e a importância do Terreiro do Bogum ganharam destaque nacional ao serem homenageadas pela escola de samba Unidos do Viradouro, campeã do Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro com o enredo "Arroboboi, Dangbé". A agremiação exaltou o terreiro em versos que celebram seu legado como um dos pilares do Candomblé Jeje e símbolo da herança africana na Bahia.
De olho no futuro e fortalecida pelo novo título de patrimônio, Mãe Índia reforça que o amanhã do Bogum está diretamente ligado ao acolhimento e à integração. “Não basta só ser terreiro, tem que ter uma ação social que faça com que esse espaço abrace a comunidade. Eu enxergo esse espaço para o futuro construindo agora, fazendo com que seja importante reconhecer que o candomblé, que a Nação Jeje-Mahi é viva. Com isso, as novas gerações de iniciados vão guardar também esse lugar, vão preservar algo que temos, porque são mais de 300 anos de tradição”, conclui.
Dois tradicionais e históricos terreiros de Candomblé passaram a integrar oficialmente o patrimônio cultural da Bahia. O governador Jerônimo Rodrigues sancionou o tombamento do Ilê Asé Kalè Bokùn, em Salvador, e do Terreiro Omo Ilê Agboulá, em Itaparica. A medida foi publicada na edição desta quarta-feira (23) do Diário Oficial do Estado.
Com o decreto, os dois espaços passam a fazer parte do Livro do Tombamento dos Bens Imóveis do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), ampliando a proteção ao patrimônio histórico, cultural e religioso de matriz africana no estado.
Localizado no bairro de Plataforma, em Salvador, o Ilê Asé Kalè Bokùn, da nação Ijexá, foi fundado em 20 de agosto de 1933 pelo babalorixá Severiano Santana Porto, filho de Logunedé. Considerado o primeiro terreiro da nação Ijexá tombado no Brasil, o espaço é dedicado aos orixás Logunedé e Oxum. Em 2006, foi reconhecido como Patrimônio Material da Bahia pelo Ipac e, em 2019, recebeu o título de Patrimônio Cultural Municipal pela Fundação Gregório de Mattos.
Já o Terreiro Omo Ilê Agboulá, em Itaparica, foi criado em 1934 pelos irmãos Eduardo, Pedro e Olegário Daniel de Paula, descendentes de uma linhagem dedicada ao culto dos Egúngún há quase dois séculos. A casa preserva até hoje os fundamentos e tradições dessa manifestação religiosa.
Reconhecido em 2015 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional como Patrimônio Cultural do Brasil, o terreiro é considerado um símbolo da preservação da religiosidade de matriz africana e da resistência contra a intolerância religiosa. A instituição também destaca o protagonismo das mulheres na condução dos rituais, na organização da comunidade e na transmissão dos conhecimentos tradicionais.
Se para o baiano, 2 de julho é dia de comemorar um triunfo passado, para Mãe Nayara de Oyá, a data representa só mais um dia de batalha para recuperar sua terra. Liderança do Ilê Axé Oyá Onira´D, demolido em junho do ano passado pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) sob a alegação de tratar-se de uma ocupação irregular em Área de Proteção Ambiental, ela lidera uma mobilização por um novo espaço para o funcionamento do centro religioso.
Segundo Nayara, a obra de demolição do local de culto situado no bairro de Pituaçu não foi avisada previamente e, desde então, ela e os outros membros do terreiro estão realizando suas práticas religiosas na sala de casa. "Estou junto de 30 famílias tentando fazer nosso sagrado sobreviver, só queremos uma assinatura do governo para termos o que é nosso por direito", afirmou a líder religiosa.
Ainda de acordo com a líder espiritual, o governo estadual garantiu um terreno para a reconstrução do terreiro, mas o grupo ainda não teve acesso à assinatura da cessão da área. "Não dá para a gente esperar o tempo da política para voltar a cultuar nossa religião. Peço para que as autoridades do governo da Bahia nos olhem com carinho e nos devolvam o que é nosso por direito", afirmou a liderança candomblecista.
O Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) instaurou um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) contra o juiz de Direito Cesar Augusto Borges de Andrade sob a acusação de racismo religioso. A decisão pode inaugurar um precedente histórico no país, tornando-se a primeira vez em que um magistrado corre o risco de perder o cargo em razão da prática de racismo.
A abertura do PAD foi publicada no Diário da Justiça Eletrônico e decorre de uma representação administrativa e de uma notícia-crime apresentadas pelo Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (IDAFRO) e por Makota Solange Borges.
O caso que motivou a representação ocorreu em fevereiro deste ano, no Fórum de Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador. Na ocasião, o magistrado determinou a retirada da fotografia de uma sacerdotisa do Candomblé que integrava uma exposição artística nas dependências do prédio, sob a justificativa de preservar a laicidade do Estado. Contudo, o juiz manteve exposta outra fotografia que retratava um santo católico.
A conduta motivou a acusação de aplicação seletiva e discriminatória do princípio constitucional da laicidade. Ao instaurar o procedimento administrativo, o TJ-BA reconheceu a existência de indícios suficientes para a apuração da conduta funcional do magistrado. O fundamento central adotado pelo tribunal aponta para a aparente utilização desigual e prejudicial do princípio da laicidade contra religiões de matriz africana.
DIVISOR DE ÁGUAS
Para o advogado Dr. Hédio Silva, presidente do IDAFRO e responsável pela defesa de Makota Solange Borges, a instauração do processo representa um marco na responsabilização de agentes públicos.
"Pela primeira vez na história um juiz poderá perder o cargo por prática de racismo. Enquanto o Judiciário não investir nas provas dos concursos públicos, nos processos seletivos de juízes e no aprimoramento da formação dos magistrados, vamos continuar recorrendo às sanções. Ninguém comemora ver um juiz perder o cargo por qualquer razão que seja. Mas, enquanto não houver um trabalho preventivo, sobretudo de qualificação e formação dos magistrados, continuaremos utilizando o PAD, as representações criminais e o direito penal para combater as práticas racistas", avalia Silva.
O advogado ressalta ainda que a relevância do processo extrapola a esfera individual, alcançando o papel institucional do próprio Poder Judiciário em face das garantias fundamentais.
"Este processo afirma que o princípio da laicidade não pode ser manipulado para invisibilizar religiões de matriz africana enquanto símbolos de outras tradições permanecem naturalizados nos espaços públicos. Quando a seletividade recai justamente sobre expressões religiosas afro-brasileiras, não estamos diante de um debate abstrato sobre neutralidade do Estado, mas de um caso concreto de racismo. A abertura do PAD demonstra que o Judiciário também precisa responder aos parâmetros constitucionais de igualdade", completa.
Duas mulheres denunciaram um caso de intolerância religiosa cometido por um motorista de aplicativo em Alagoinhas, no Agreste baiano. As clientes, que usavam vestimentas usadas no candomblé, teriam sido retiradas do carro antes do final da corrida pelo condutor, além de serem ofendidas.
O caso teria ocorrido na noite do último dia 4 de fevereiro, informou o Alagonews, parceiro do Bahia Notícias, e foi registrado em boletim de ocorrência.
Em relato à polícia, as passageiras contaram que durante o trajeto perceberam que o motorista seguia por um caminho diferente do destino indicado no aplicativo. Ao orientarem o condutor sobre a rota correta, as mulheres afirmam que passaram a sofrer ofensas, xingamentos e ameaças.
Uma delas relatou que o motorista as chamou de “vagabundas” e afirmou que elas estariam “carregando um monte de diabo”. Elas disseram que foram obrigadas a descer do carro, mesmo com a corrida já paga. O homem ainda teria ameaçado passar com o veículo por cima delas, dizendo que “anda com Deus”.
REPÚDIO
A Federação do Culto Afro-Brasileiro (Fenacab) – Regional Alagoinhas, divulgou neste domingo (7) uma nota de repúdio contra o caso, classificando o episódio como racismo religioso. No documento, a entidade afirma que as vítimas sofreram ofensas, ameaças e constrangimento, além de terem sido retiradas do veículo de forma abrupta, sem o cancelamento da corrida já paga.
A Fenacab informou ainda que o caso foi registrado na 2ª Coordenadoria Regional de Polícia do Interior (Coorpin) de Alagoinhas e encaminhado ao Ministério Público da Bahia e à Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais. A entidade acompanha o caso com apoio jurídico.
Por fim, a federação manifestou solidariedade às vítimas e reforçou a defesa da liberdade religiosa, direito garantido pela Constituição Federal.
O governo estadual do Rio de Janeiro sancionou uma lei que reconhece oficialmente a validade de casamentos religiosos celebrados em centros de Umbanda e Candomblé. A medida está na Lei 11.058/25, de autoria do deputado estadual Átila Nunes (PSD), e com a legislação, a conversão dessas uniões em casamento com validade civil passa a seguir as regras do Código Civil (Lei 10.406/02) e da Lei dos Registros Públicos (Lei 6.015/73).
Segundo informações da Agência Brasil, para que a celebração religiosa possa produzir efeitos civis, será necessária uma declaração lavrada por autoridade religiosa da Umbanda ou do Candomblé.
O documento deverá conter nome completo, CPF, documento de identidade e endereço dos noivos; data, local e hora da cerimônia; identificação da autoridade religiosa celebrante; identificação do templo, terreiro ou casa religiosa; além das assinaturas do celebrante e de, pelo menos, duas testemunhas da comunidade.
A declaração do casamento poderá ser encaminhada ao Cartório de Registro Civil das Pessoas Naturais competente, acompanhada da documentação exigida pela legislação federal.
Segundo Átila Nunes, a iniciativa assegura princípios como liberdade religiosa, dignidade da pessoa humana, igualdade, liberdade de associação e proteção à diversidade cultural. Ele diz que o Rio de Janeiro é o primeiro estado do país a aprovar uma lei sobre o tema.
“É um processo de equidade. As igrejas católicas e evangélicas têm todos os direitos que as religiões de matrizes africanas não tinham. A grande vitória é que agora os casamentos nesses ritos poderão ter efeitos civis”, diz o parlamentar.
A lei também define quem pode ser reconhecido como autoridade religiosa habilitada: sacerdotes e sacerdotisas, babalorixás, ialorixás, pais e mães de santo, chefes de terreiro e outras lideranças espirituais tradicionalmente reconhecidas na Umbanda e no Candomblé. O objetivo é respeitar os critérios internos de cada tradições, e preservar a autonomia espiritual e organizacional das comunidades.
Apesar dos avanços, o governador Cláudio Castro vetou dois dispositivos da lei durante a sanção. Um deles previa punições a serventias extrajudiciais (cartórios) que se recusassem, de forma discriminatória, a receber ou processar documentos relacionados às celebrações religiosas. O segundo trecho vetado autorizava os Poderes Executivo e Judiciário a promover campanhas educativas, capacitação de agentes públicos e notariais e ações de valorização das expressões culturais e religiosas da Umbanda e do Candomblé.
O município de Itaparica e São Félix lideram a lista de cidades da Bahia que possuem o maior público de pessoas que se autodeclararam como adeptas de umbanda ou candomblé. Segundo o Censo Demográfico 2022 sobre religiões, a cidade de Itaparica, na Região Metropolitana de Salvador, é a primeira colocada com 6,3%, seguida pelo município do Recôncavo baiano com 3,7%. Outra cidade do recôncavo, Cachoeira é a terceira colocada, empatada com Salinas da Margarida com 3,6%.
A capital baiana ficou na 6ª posição com 2,8% da população de 10 anos ou mais de idade. Salvador tinha a 4ª maior população adepta de religiões de matriz africana, abaixo de São Paulo/SP (233.027), Rio de Janeiro/RJ (196.313) e Porto Alegre/RS (75.744). Em termos percentuais, ficava em 3º lugar entre as capitais, atrás de Porto Alegre/RS (6,4%) e Rio de Janeiro/RJ (3,6%).
De acordo com a pesquisa, em 52 cidades do estado não houve registro de adeptos de religiões de matriz africana. No geral, com participações praticamente iguais, na Bahia, vinham, em seguida, as pessoas espíritas (123.375, ou 1,0% do total) e as adeptas da umbanda e candomblé (123.322, 1,0% do total).
O estado tinha o 6º maior contingente de espíritas e o 12º percentual. Tinha, ainda, a 4ª maior população adepta de religiões de matriz africana, e o 4º maior percentual, num ranking liderado por Rio Grande do Sul (3,2% de umbanda ou candomblé), Rio de Janeiro (2,6%) e São Paulo (1,5%).
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve a absolvição de Juliana Arcanjo Ferreira, 36 anos, acusada de lesão corporal contra a própria filha, à época com 11 anos, durante um ritual de iniciação no candomblé, realizado em um terreiro em Vargem, região de Bragança Paulista, no estado de São Paulo
O caso iniciou quando o pai da menina prestou queixa à polícia, em 2020, contra a ex-mulher, após notar marcas de corte nos ombros da filha, que haviam sido feitos durante um ritual religioso chamado “cura”. A menina chegou, a pedido do Ministério Público, a ser retirada do convívio da mãe por decisão judicial.
O Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (Idafro), que saiu em defesa de Juliana, denunciando perseguição religiosa.
De acordo com informações do Globo, o advogado Hédio Silva Jr., coordenador executivo do Idafro, argumentou que o laudo pericial comprovou que a “escarificação afrorreligiosa” era muito menos invasiva do que a circuncisão ou a colocação de brincos em bebês, tatuagens ou o uso de piercings e alargadores de orelha em crianças e adolescentes.
Ele também anexou pesquisa de jurisprudência que constatou não haver uma única condenação de pais judeus ou muçulmanos por realizarem a circuncisão, nem de pais de crianças que usam brincos.
A advogada Lalesca Moreira passou pela iniciação religiosa no candomblé em julho de 2024 e, desde então, este branco todos os dias e usa um ojá, turbante feito com tecido branco para cobrir sua cabeça, inclusive em compromissos profissionais, como audiências e visitas a delegacias.
Os trajes religiosos da advogada foram alvo de críticas nas redes sociais. Ela compartilha informações sobre direito criminal, área de atuação.
De acordo com a Marie Clarie, Lalesca foi comparada a uma “baiana do acarajé” e teve seu ojá chamado de “lençol na cabeça”. Muitas pessoas perguntaram porque ela estava vestida daquele jeito e algumas chegaram a dizer que ela estava fantasiada.
No começo ela respondia normalmente e explicava que estava em um período de resguardo religioso, mas logo começou a perceber que alguns desses comentários tinham um tom maldoso e, por esse motivo, decidiu rebater estes comentários por sugestão de seu sócio.
Além das roupas brancas e do ojá, Lalesca usa diariamente outros itens religiosos, como a umbigueira, o contra-egum e o fio de contas.
A advogada contou que já enfrentou situações de racismo religioso fora das redes sociais também. Ela lembra um dia que foi a uma delegacia de homicídios atender um cliente. Chegando lá, ela e o sócio se apresentaram como advogados e aguardaram a liberação, mas quando o investigador disse que os advogados poderiam entrar, foi barrada. Mesmo já tendo comprovado que era advogada, enquanto seu sócio não foi parado.
De acordo com Lalesca, antes de sua iniciação, quando não usava branco e nem adereços religiosos no dia a dia, sofria preconceito por ser uma mulher negra e jovem atuando no direito criminal, porém este preconceito era mais velado.
Aos que questionam nas redes sociais se as vestimentas são permitidas em audiências, a advogada explica que OAB da Bahia diz apenas que, quando em audiência, advogados poderão falar na tribuna usando “traje civil completo” e as vestes talares, ou seja, a beca preta própria para audiências.
Em abril de 2024, o Supremo Tribunal Federal decidiu que é constitucional o uso de vestuário religioso em fotos de documentos oficiais, desde que não impeça a identificação individual.
Também no ano passado, a Comissão de Educação e Cultura do Senado analisou um projeto de lei que propõe incluir no Estatuto da Advocacia e no Código de Processo Civil normas específicas que deixem claro que advogados adeptos de religiões de matriz africana, afro-ameríndia ou judaica possam exercer suas funções usando trajes religiosos.
A proposta surgiu depois que o advogado Gustavo Coutinho foi impedido de fazer uma sustentação oral no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT), em Brasília, por usar trajes típicos do candomblé.
Durante a apresentação da música ‘Raiz de Toda Fé’, o cantor Saulo Fernandes mandou um recado para quem assistia sua passagem com a “pipoca da paz” no circuito Osmar, no Campo Grande, nesta quinta-feira (27).
Sob os acordes da canção que exalta as raízes baianas e do Candomblé, Saulo pediu ao público que cantasse mais alto e respeitasse o candomblé.
Confira o momento:
VÍDEO ? Saulo Fernandes pede respeito ao Candomblé durante passagem de pipoca no Campo Grande pic.twitter.com/k9PjpQ8HHW
— Bahia Notícias (@BahiaNoticias) February 28, 2025
O inquérito civil instaurado pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA) para investigar o suposto episódio de intolerância religiosa e racismo que teria sido praticado por Claudia Leitte com a alteração da música 'Caranguejo (Corda do Caranguejo)' promete render mais do que o debate sobre o tema.
O Bahia Notícias conversou com o advogado paulista Hédio Silva Jr., ex-secretário de Justiça de São Paulo, que representa o Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (Idafro), para entender a denúncia feita pela entidade contra a cantora. O mestre e doutor em Direito Processual, fundador do JusRacial e do Idafro, que também é conhecido por atuar na defesa da ialorixá e líder quilombola Bernadete Pacífico, assassinada na Bahia em agosto de 2023, explicou o motivo da ação.
"Você tem dois aspectos fundamentais. Primeiro, religião afro-brasileira é patrimônio cultural definido pelo Estatuto da Igualdade Nacional e definido por jurisprudência do Supremo Tribunal Federal. É patrimônio cultural. A festa de Iemanjá é patrimônio cultural. A música permite a interpretação de que ela se dirige tanto ao orixá quanto à festa dedicada ao orixá."
Foto: Carta Capital
Com o contexto da canção, o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) foi consultado para saber se foi solicitada alguma alteração na letra, lançada em 2004 por Claudia Leitte ainda na época do Babado Novo. A música, que aparece creditada a Alan Moraes, Durval Luz, Luciano Pinto e Nino Balla, não tem a artista como titular. Após a consulta, foi confirmado que não houve pedido de alteração para a letra que a artista canta desde 2014.
"Nós fomos atrás do ECAD para saber se a tal alteração que vinha sendo anunciada teria sido feita ao ECAD. Nós vamos precisar de uma determinação judicial, mas a pesquisa que nós tivemos no ECAD aponta que não foi feita alteração nenhuma na letra da música. Quando você vai avaliar a letra da música, Yeshua está completamente descontextualizado ali. Se ela tivesse alterado a estrofe, mas não. Se a estrofe dissesse 'quando a baixar joga em flores a saúde Nossa Senhora dos Navegantes'. Ok, Nossa Senhora dos Navegantes é uma entidade, uma divindade católica que está associada à água, está associada a flores. 'Saúde Yeshua' não há nenhum sentido. Não se pode falar em criação artística porque do ponto de vista, digamos assim, de uma estética possível, não é estética nenhuma, é uma improvisação."
O advogado pontua que se a alteração tivesse sido solicitada pelos compositores da música, o entendimento seria outro. "Não se pode falar em alteração por autêntica motivação genuína motivação dos compositores que sequer, pelo que nós entendemos os compositores sequer pedirem alteração. Então, tudo leva a crer que essa alteração é resultado da intolerância religiosa de alguém que cantou a canção durante décadas e agora, por uma razão de ordem privada dela resolve não pronunciar o nome de orixá. Isso estaria tudo bem se nós não estivéssemos tratando de um patrimônio cultural que a orixá representa."
Para Hédio, o caso se torna ainda mais curioso pelo contexto, se tratando de uma música da Axé Music, movimento que foi nomeado de forma pejorativa pelo jornalista Hagamenon Brito e ressignificado pelos artistas da cena para algo positivo.
"Quando ela deixa de pronunciar a palavra e ela substitui a palavra por Jesus, ela está promovendo o apagamento cultural, histórico que inclusive chama atenção o fato que ela não quer mais pronunciar Iemanjá, mas não tem nenhum problema em pronunciar Axé Music. Então, os indícios, não estou dizendo que ela é uma embusteira ou que ela é estelionatária, mas os indícios são de embuste e estelionato. Porque Axé Music, ok, mas Iemanjá não."
Após a representação formulada pela ialorixá Jaciara Ribeiro e pelo Idafro, que já se transformou em um inquérito civil, Hédio afirma que os próximos passos serão dar entrada em um requerimento pedindo para que Claudia Leitte explique a mudança em juízo.
"Mãe Jaciara da Oxum, que perdeu a mãe dela, Mãe Gilda de Ogum por intolerância religiosa, está requerendo, vamos dar entrada ainda hoje, para que Claudia Leitte, em juízo, explique isso. Explique porque, depois de décadas cantando a canção, mudou a letra. Ela está descaracterizando o patrimônio cultural, ela está ofendendo as lideranças, as pessoas, qualquer pessoa da religião, então, mãe Jaciara irá processá-la criminalmente por injúria religiosa. Não é razoável essa desqualificação de tudo que diz respeito a cultura negra no Brasil."

O advogado se antecipou nas críticas que já estão sendo feitas nas redes sociais pela dimensão que o caso com Claudia Leitte tomou. Segundo Hédio, a situação com a ex-Babado Novo ligou um alerta para que todos os episódios como este sejam tratados na Justiça.
"Isso não é algo novo e agora precisa de uma resposta inclusive por parte das instituições. Então, daqui para frente se aparecer qualquer coisa nesse sentido, nós vamos representar um cível, se for o caso, vamos representar criminalmente. Quem estiver praticando um crime vai responder. As pessoas vão dizer que é 'mimimi', mas eu sempre digo, você imagina um pai de santo, ali, na Praça Castro Alves, pega uma hóstia, monta uma barraquinha e põe ali um cartaz ‘Vendo o petisco de Oxalá’, comercializando hóstia. Em meia hora, eu, que poderia tomar um avião aqui para defender ele, não iria livrar ele da cadeia."
O doutor ainda pontuou a importância da validação do sentimento religioso quando se diz respeito a religiões de matrizes africanas. "Quando se trata de sentimento religioso cristão, o sistema jurídico brasileiro é absolutamente ágil, rápido e tal, para assegurar a proteção do sentimento religioso. Mas quando se trata de sentimento religioso de macumbeiro, se é tratado como picuinha. Daqui para frente não, não vamos permitir mais isso. Não vai ficar mais assim. Pode até não dar em nada, porque a gente não tem controle das instituições jurídicas, mas nós vamos levar as últimas consequências cada denúncia dessa."
A mudança feita por Claudia Leitte na música 'Caranguejo (Corda do Caranguejo)' no show Soul'D Rua, realizado no último dia 14 de dezembro em Salvador, pode render problemas na Justiça para a artista. O Ministério Público da Bahia (MP-BA) recebeu uma denúncia contra a cantora, com a alegação de que a artista apresentou uma postura discriminatória ao substituir o nome de Iemanjá na letra da canção por "Só louvo meu Rei Yeshua".
A denúncia, que se tornou pública através do site Splash, do Uol, foi formalizada pela Iyalorixá Jaciara Ribeiro, sacerdotisa do Ilê Axè Abassa de Ogum, e pelo IDAFRO (Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras). O Bahia Notícias entrou em contato com o MP-BA, que confirmou o recebimento.
"Diante da representação formulada pela Iyalorixá Jaciara Ribeiro e pelo Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (Idafro), o Ministério Público do Estado da Bahia, por meio da Promotoria de Justiça de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa, instaurou inquérito civil para apurar os fatos noticiados", informou em nota.
De acordo com o MP-BA, o caso será acompanhado pela promotoria para apurar a responsabildiade civil de Claudia Leitte.
"Segundo a promotora de Justiça Lívia Sant’Anna Vaz, titular da referida Promotoria, o procedimento foi instaurado para apurar a responsabilidade civil diante de possível ato de racismo religioso consistente na violação de bem cultural e de direitos das comunidades religiosas de matriz africana, sem prejuízo de eventual responsabilização criminal", confirma o órgão em nota enviada ao BN.
A polêmica ganhou a web no último final de semana, no entanto, não é uma novidade para a artista a substituição dos nomes de orixás em músicas. Um dos primeiros registros encontrados foi de 2011, quando a cantora modificou uma música de Carlinhos Brown, 'Ashansu', trocando Obaluayê por Yeshua.
Brown, que abriu o espaço do Candyall Guetho Square para que Claudia Leitte pudesse realizar os ensaios de verão dela em Salvador, saiu em defesa da artista, afirmando não ter visto a situação como um ato racista. "O Guetho é uma casa laica. Todas as pessoas têm direito a ter suas manifestações. (...) [A atitude de Claudia] É uma coisa que eu não queria estar falando porque é polêmica, e eu tenho uma espiritualidade muito acentuada. Mas eu posso te garantir que Claudia Leitte não é uma pessoa racista".
Anitta teve uma queda no número de seguidores nesta segunda-feira (13) após abrir sua intimidade nas redes sociais e compartilhar com os fãs um pouco da religião que segue, o Candomblé.
Em um desabafo feito no Instagram, a Poderosa relatou ter perdido 100 mil seguidores após mostrar registros do próximo clipe, que trará ao público um pouco da vivência em terreiro.
"Perdi 100 mil seguidores depois de anunciar o clipe onde vou mostrar minha religião. Laroyê Exu tirando dos meus caminhos tudo que já não me serve mais. Nessa minha nova fase, escolhi qualidade e não quantidade. Axé", contou.
Ao compartilhar os registros do clipe 'Aceita', que será lançado no dia 15 de maio, a artista escolheu o texto sinopse da Unidos da Tijuca para o Carnaval de 2025, que irá homenagear Logun-Edé. Na época em que lançou o projeto 'Funk Generation', a artista explicou em coletiva o motivo que a fez gravar um clipe sobre a religião.
“Tive a ideia de fazer o vídeo sobre minha religião porque, para mim, ela tem muito a ver com a cultura do funk, que nada mais é do que a cultura afro, de força e superação. Espero que essa mensagem ajude na quebra de preconceitos religiosos.”
Esta não é a primeira vez que Anitta sofre ao falar sobre sua religião. A cantora, que decidiu deixar a igreja e seguir no candomblé após um episódio de intolerância, já foi alvo de ataques nas redes sociais ao compartilhar um registro ao lado de um pai de santo.
“Muito triste ver como Satanás manipula e cria ilusões na mente das pessoas para que elas acreditem que estão adorando o Deus altíssimo quando, na verdade, estão adorando o próprio Satanás”, escreveu um internauta.
Durante a gravação do clipe em 2023, a artista foi confrontada com mensagens que afirmavam que sua religião era "do demônio" e que apenas Jesus era a salvação. "O sangue de Jesus tem poder. O único que deve ser adorado é o Senhor Jesus", "o dia que ela morrer. Ela vai lembrar de JESUS, aí vai ser tarde demais!".
Um terreiro de quase cem anos situado em Cachoeira, no Recôncavo, foi tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O anúncio foi feito nesta quinta-feira (29). Com isso, o terreiro Ilê Axé Icimimó Aganjú Didê se torna patrimônio cultural brasileiro.
O local já havia sido tombado como Patrimônio Imaterial da Bahia, em 2014. Conforme o G1, a inclusão como patrimônio nacional ocorreu durante a 103ª Reunião do Conselho Consultivo do Iphan. Por unanimidade, o órgão aprovou a inclusão do espaço religioso no rol de entidades nacionais contempladas devido ao valor histórico, cultural e ambiental da casa.
Por muito tempo, o terreiro Ilê Axé Icimimó Aganjú Didê ficou conhecido como o terreiro de Mãe Judith, em referência à criadora do espaço, fundado em 1916. Atualmente, Pai Duda de Candola lidera o terreiro. O Ilê Axé Icimimó Aganjú Didê fica na localidade da Terra Vermelha e é uma Casa de Santo da Nação Nagô.
O patrono do terreiro é o Orixá Xangô. As festas no local ocorrem entre julho e setembro, com outras atividades em dezembro.
Uma das atrações do Carnaval no Circuito Osmar (Campo Grande), A Dama se vestiu com uma fantasia em homenagem ao orixá Exu. Em conversa com a imprensa, a cantora disse que busca passar mensagem contra a intolerância religiosa.
"Todo ano eu procuro representar o que eu sou, eu sou uma pessoa do candomblé, então hoje eu tô trazendo o Exu pra rua, para que as pessoas possam também entender que a religião também é sobre isso, é a gente poder expressar o que a gente realmente é sem ter medo, sem nada. E eu espero que seja uma passada de muita paz, eu sei que eu tenho muito carinho desse público que tá aqui hoje na Avenida, então é isso, eu tô muito feliz", comentou a pagodeira.

Ela também falou sobre a recém-anunciada gravidez de sua esposa Gabriela Messy e revela que a maternidade veio em um momento complicado em sua vida.
"Eu não posso falar muita coisa por uma questão espiritual, mas quando eu soube que eu ia ser mãe foi um momento muito triste da minha vida, uma fase que eu tava passando. Então saber daquilo me levantou. Eu agradeço muito a minha esposa, o que a gente fez realmente conseguiu dar certo dessa vez, eu estou muito feliz", comemorou.
Na tarde desta segunda (15), os passageiros que estavam seguindo da estação Pituaçu à Tamburugy, na linha 2 do metrô de Salvador, se depararam com uma grande confusão, aparentemente causada por intolerância religiosa.
Uma moça que estava utilizando um colar de conta, tradicional do candomblé, foi agredida verbalmente, inclusive com gritos, por um homem que se incomodou com a presença dela no vagão. Visivelmente irritado, ele começou a se aproximar da mulher e iniciou uma série de falas, inclusive usando trechos bíblicos para repreender a guia, como é conhecido o colar e a religião dela.
INTOLERÂNCIA NO METRÔ DE SALVADOR ???? Homem teria usado trechos bíblicos para agredir verbalmente uma mulher que usava um fio de contas
— Bahia Notícias (@BahiaNoticias) January 16, 2024
Saiba mais ?? https://t.co/NLNZjQqclw pic.twitter.com/wNX6tCU8r5
As manifestações religiosas dentro dos vagões do metrô de Salvador já são rotineiras, mesmo que não recomendadas pela empresa que administra o equipamento. Um dos passageiros que registrou as imagens, o jovem Tobias Muniz, afirmou que quando entrou no trem, a confusão já estava acontecendo e que o homem se aproximou da mulher e começou a provocar com falas intolerantes até que ela perdesse a paciência e começasse a se defender, inclusive tirando o colar para evidenciar e defender a sua religião.
Ainda segundo o rapaz, após a publicação do vídeo nas redes sociais, os seus seguidores compartilharam e ajudaram a encontrar a mulher, que juntos já estão em busca de uma solução para o caso, acionando o Ministério Público e contactando advogados.
Na publicação, Tobias repreende a falta de fiscalização e a recorrência de situações como esta. “Não é intolerância religiosa, é racismo religioso pois só religião de negro que está sendo alvo de violência. O povo de candomblé e das religiões de matriz africana não toleram mais isso dentro das dependências da empresa privada a qual somos clientes e pagamos por seus serviços diariamente”, disse.
O ator Bruno Gagliasso está sendo alvo de ataques preconceituosos nas redes sociais após compartilhar um registro do filho Bless em um terreiro de candomblé na Bahia.
Gagliasso esteve em Lauro de Freitas para a visita ao local e levou o herdeiro para conhecer o terreiro pela primeira vez.
No texto compartilhado pelo ex-global, ele fala sobre a importância de viver o momento ao lado de Bless, porém, o momento especial em família se tornou uma dor de cabeça para o ator, que foi atacado.
"Que Deus te dê sabedoria. Deus quer que vocês venham conhecer o verdadeiro pai, que Deus toda honra e toda glória, só e dele", disse uma internauta.
“A Bíblia diz que devemos criar os filhos nos caminhos do Senhor Jesus para que eles não se desviem de Deus, quando não fazemos isso seremos cobrados por Deus no dia do juízo!", escreveu outro.
A intolerância religiosa é crime previsto em lei. Na atualização, sancionada em janeiro pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o crime foi equiparado ao de injúria racial e prevê pena de 2 a 5 anos para quem obstar, impedir ou empregar violência contra quaisquer manifestações ou práticas religiosas.
O artista, que durante a visita foi suspenso como Ogan de Oxóssi, recebeu apoio de internautas. “Sou evangélica e super apoio as pessoas manifestarem a sua fé, pois todos são livres pra seguirem a crença que quiserem. Você é lindo e sua família também", escreveu uma fã. “Quem é do Axé diz que é. Parabéns por exaltar sua fé com Orgulho. Precisamos de mais atitudes assim para construirmos cada vez mais um Brasil de todos os Deuses!", destacou outro
A Bahia se tornou cenário de um momento importante para o ator Bruno Gagliasso. O ex-global, que é iniciado no Candomblé e frequenta um terreiro no estado, trouxe o filho Bless, para conhecer o local que ele frequenta há alguns anos, pela 1ª vez.
Bruno desembarcou na capital baiana na segunda-feira (13), e apesar de citar Salvador como endereço, o artista frequenta o terreiro Ilê Axé Opô Aganju, localizado no Alto da Vila Praiana, em Lauro de Freitas.
"Ontem viemos a Salvador, trouxe meu filho Bless para vir a primeira vez no terreiro de candomblé que frequento há alguns anos, o Ilê Axé Opo Aganju, do meu pai Obarayi", escreveu ele que esteve acompanhado de Pedro Tourinho, Secretário Cultura e Turismo de Salvador.
No relato feito por Gagliasso, o ator conta que o momento foi ainda mais importante por ter sido suspenso Ogã de Oxossi, a cerimônia na qual a pessoa é colocada em uma cadeira e suspenso pelos ogãs da casa, médium responsável pelo canto e pelo toque, que ocupa um cargo de suma importância e de responsabilidade dentro dos rituais de Umbanda e Candomblé.
“A noite que por conta disso já seria emocionante, tornou-se ainda mais especial, pois recebi a honra de ser suspenso Ogã de Oxossi na casa. Uma alegria emocionante e a sensação de que estou apenas começando uma caminhada linda de aprendizado e axé. Okê Arô Oxossi", disse o artista.
Maior candomblé de rua do mundo, o Bembé do Mercado, realizado em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo, completa neste ano 134 anos de existência. A tradicional celebração, que neste ano tem 5 dias de festejos, comemora a abolição da escravidão com a assinatura da Lei Áurea, o evento será realizado até o domingo (14) no mercado da cidade.
Realizado desde o primeiro ano pós-abolição, em 13 de maio 1889, pelo sacerdote João de Obá, ele é reconhecido como Patrimônio Cultural Nacional desde 2019 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e Patrimônio Imaterial da Bahia desde 2012 pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Ipac). O Bembé é um evento que tem como pilar a preservação da memória ancestral dos negros recém-libertos e dos negros livres que lutaram pelo fim da escravidão e também pela liberdade religiosa.
Dedicado ao culto de Oxum e Iemanjá, as comemorações giram em torno dos preceitos do candomblé, sendo dividido em cerimônias fundamentais como Ipadê de Exú - momento em que se saúda o orixá Exú, responsável pela proteção do mercado -; Orô de Iemanjá e Oxum - cerimônia em que as duas divindades são agraciadas com alimentos típicos -; Xirê do Mercado - festejo em que se saúda e dança para todos os orixás e a entrega dos Presentes destinados aos orixás das águas - momento de entrega dos balaios e oferendas na praia de Itapema com objetivo de agradecer a proteção e as bençãos recebidas.
A celebração é uma reafirmação da cultura afrobrasileira através de cantos sagrados, toques de atabaques, oferendas, vestes estampadas e coloridas, com a reunião de integrantes de diversos terreiros de Santo Amaro da Purificação e de outras regiões da Bahia, que se juntam no mercado da cidade para saudar os orixás e a ancestralidade africana. Os atos fortalecem ainda os laços entre terreiros e comunidades quilombolas, preservando o culto aos orixás como um importante alicerce no enfrentamento do racismo religioso na Bahia e no Brasil.
O evento atrai pessoas de todo o país e conta ainda com apresentação de manifestações culturais herdadas da diáspora africana como o Nego Fugido, encenação que retrata a violência da escravidão; o Lindro Amor, cortejo de mulheres criado para comemoração das festas de São Cosme e Damião; a Burrinha, a Puxada de Rede, grupos de sambas de roda, bumba-meu-boi, capoeira e o Maculelê.
Confira a programação:
Sexta-feira, 12 de maio:
10h - Roda de Saberes: O legado Ancestral e o Protagonismo Feminino - Histórico e Violações de Direito - Xirê das Pretas
14h - Sessão Especial na Câmara de Vereadores: Bembé do Mercado: A Economia da Cultura e o Desenvolvimento em Santo Amaro
14h - XI Cultura e Negritude - Roda de Saberes e Formação: Black Language is Black History Too: A Transnational Conversation About Literature and Culture
Local: Auditório do Cecult da Universidade Federal da Recôncavo Baiano
16h - Roda de Saberes: Saberes dos Caboclos na Contemporaneidade
17h - Caminhada Axé do Bembé
18h30 - Apresentação do documentário “Boca da Mata”- Caboclo da Minha Aldeia” - Ilê Axé Omorode
19H - XI Cultura e Negritude - Roda de Saberes e Formação: Verbetes Sonoros, Uma Pedagogia do Terreiro
Local: Auditório do Cecult da Universidade Federal da Recôncavo Baiano
19h30 - Associação de Capoeira Berimbau de Ouro - Acarbo / Maculelê
20h - Grupo de Maculelê os Gema Povivá
21h - Samba de Roda Tumba Lá e Cá
22h - Samba Criôla
23h - Samba de Roda Raízes de Santo Amaro
00h30 - Filhos de Gandhy
01h30 - Gerônimo
Local: Largo do Mercado
Sábado, 13 de maio:
08h - Associação de Capoeira Estilo e Malícia
Local: Largo do Mercado
09h - Roda de saberes Turismo Religioso
Local: Auditório do Cecult da Universidade Federal do Recôncavo Baiano
11h - XI Cultura e Negritude - Conferência "Os Territórios e os Saberes Tradicionais: Lutas sócio- Políticas contemporâneas
Local: TV UFRB
12h - Samba Santinho
Local: Largo do Mercado
15h - Religiosidade e Diversidade: A presença LGBTQIAPN + na Religião de Matriz Afro
Local: Auditório do Cecult da Universidade Federal do Recôncavo Baiano
15h30 - Roda de Capoeira da Associação de Mestres do Recôncavo
16h - Samba de Roda Laíla
18h30 - Roda de Capoeira da Associação Cultural Sementes de Santo Amaro
19h - Apresentação da Cia Dança Novo Styllo - Terreiro Ilê Axé Ya Omin
19h - Saída do Cortejo dos Filhos de Gandhy na Praça da Purificação
20h - Celebração religiosa no barracão (Xirê)
21h30 - Chegada do Presente ao barracão
22h - Ato de assinatura de doação do Prédio Público para a Associação Bembé do Mercado
01h - Cortejo Afro
02h - Malê Debalê
03h - Samba 17
Local: Largo do Mercado
Domingo, 14 de maio:
08h - Celebração religiosa no barracão (Xirê)
08h30 - Ato de Inauguração do Busto João Obá
09h - Saída do presente da Praia de Itapema
Local: Largo do Mercado
10h - XI Cultura e Negritude - Roda de Saberes e Formação: Ancestralidade, Religiosidade e Cultura
Local: Associação dos Moradores de Itapema
11h30 - Ato de Assinatura da Ordem de Serviço da Obra de Requalificação de Itapema
Local: Itapema
Morreu, nesta terça-feira (25), aos 98 anos de idade, Olga Conceição Cruz, também conhecida como Nengua Guanguasense, matriarca do terreiro Mansu Banduquenqué, apelidado de “Bate Folha” e localizado no bairro da Mata Escura, em Salvador.
Moradora da Mata Escura desde muito jovem, Nengua Guanguasense era considerada como uma espécie de “arquivo vivo” da região e era reconhecida por transformar a roça do Bate Folha em um espaço de acolhimento da população local.
Dona Olga foi iniciada no candomblé aos 24 anos de idade, no dia 6 de fevereiro de 1949, e era a grande liderança espiritual feminina do Bate Folha, ao lado de Cícero Rodrigues Franco Lima, o Tata Muguanxi.
O sepultamento da líder religiosa acontecerá às 16h desta quarta-feira (26), no Cemitério Jardim da Saudade, no bairro de Brotas.
BATE FOLHA
Instalado em uma ampla área remanescente da Mata Atlântica, com mais de 15 hectares, o Bate Folha é considerado o mais tradicional terreiro de origem banto do Brasil. Nascida entre a fusão das tradições oriundas de Angola e do Congo, a casa mais que centenária foi fundada em 1916 por Manoel Bernardino da Paixão, o Tata Ampumandezu.
O terreiro foi imortalizado no cancioneiro popular baiano pela música “Toté de Maianga”, escrita pelo compositor Gerônimo. Na música, o eu lírico narra: “vinha passando pela Mata Escura / No Bate Folha, ouvi uma canção / Que é pro santo poder sair da aldeia / Para chamar o orixá dessa nação”.
Apesar da música imortalizada na voz da ministra Margareth Menezes, o terreiro do Bate Folha, assim como toda casa de tradição banto, cultua divindades chamadas “inquices”, que são originadas de povos que ocupavam as regiões em que hoje ficam Angola e Congo. Elas são diferentes dos orixás, de origem iorubá, na Nigéria e no Benim.
Em 10 outubro de 2003, o Bate Folha foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), autarquia do Ministério da Cultura (MinC).
A prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedur), informou que realizou a interdição da obra de um prédio que vinha sendo construído em cima do primeiro terreiro do Brasil, a Casa Branca - Ilê Axé Iyá Nassô Oká- no Engenho Velho da Federação. Segundo a Sedur, a ação foi tomada na última quarta-feira (29), após a fiscalização encontrar materiais de construção no local.
Além disso, a pasta informou que a obra estava embargada desde setembro de 2022, após os candomblecistas do terreiro denunciarem a edificação por não ter alvará para a construção. Apesar do embargo, de acordo com frequentadores do terreiro, as obras foram retomadas neste ano, sem autorização da prefeitura. Em nota, o avanço da construção, portanto, foi negado pela Sedur.
“A construção já havia sido embargada em setembro de 2022, por não possuir alvará de construção e que vem realizando constantemente fiscalização na área. Desde setembro de 2022, quando houve denúncia dessa obra, e foi embargada pelos fiscais do órgão, a construção não avançou. Caso a obra não possa ser regularizada, poderá sofrer as sanções cabíveis”, disse a Sedur.
A DENÚNCIA
Na terça-feira (28), nas redes sociais, o terreiro denunciou o avanço das construções e alegou que o prédio já estaria alcançando o quinto andar. Segundo a Casa Branca, a obra estava seguindo sem “qualquer acompanhamento técnico” e poderia desabar em cima do templo religioso iorubá.
“Já está com cinco andares, desafiando autoridades. A construção segue sem qualquer acompanhamento técnico, e isso só aumenta os riscos. Situa-se em área contígua à casa religiosa, no alto. Ao desabar, e os riscos disso acontecer são óbvios, destruirá a Casa Sagrada do Orixá Omolu e matará filhas e filhos de santo da Casa Branca", afirmou.
O TERREIRO CASA BRANCA
O Ilê Axé Iyá Nassô Oká foi fundado em 1830 por mulheres africanas oriundas do antigo Império de Oió. Vendidas como escravas e traficadas para o Brasil, elas resolveram fundar um templo religioso iorubá em pleno centro de Salvador, no terreiro que ficaria conhecido como “o Candomblé da Barroquinha”. Até hoje, é considerada por estudiosos como a primeira casa candomblecista do país.
Hoje instalado no bairro do Engenho Velho de Brotas e mais conhecido como Terreiro da Casa Branca, o Ilê Axé Iyá Nassô Oká ganhou esse nome em homenagem à sua principal fundadora, a iorubá Iyá Nassó (Mãe Nassô).

Área da Casa Branca | Foto: Reprodução / Instagram
De acordo com a historiografia, todas as casas de candomblé de origem iorubá no Brasil têm origem direta ou indireta do Casa Branca, como são os casos do Ilê Iyá Omi Axé Iyá Massê (Terreiro do Gantois), marcado pela iyalorixá Mãe Menininha; e do Ilê Axé Opô Afonjá, que foi comandado pelas históricas Mãe Senhora e Mãe Stella de Oxóssi.
Nesta terça-feira (21) se comemora oficialmente o Dia Nacional do Candomblé. Para comemorar a data, o Ilê Axé Iyá Nassô Oká – mais conhecido como “Terreiro da Casa Branca” – decidiu promover, no próximo sábado (25), o evento “Os Batuques do meu Axé: do barracão de Tia Ciata ao de Mãe Neuza de Xangô”, com palestras, debates e roda de samba.
O evento está programado para se iniciar às 17h30, com a mesa de abertura formada por três sacerdotes candomblecistas: a iyalorixá Neuza Cruz, representante do Casa Branca; o tata de inquice Cícero Rodrigues; do terreiro bantu Bate Folha; e o doté Amilton Costa, da casa de candomblé fon Kwe Vodun Zo.
A partir das 18h, dá-se início ao debate “Racismo religioso e os ataques às religiões de matriz africana”, com as participações do professor de direito na UFBA Samuel Vida, da promotora de Justiça Lívia Vaz e de Isaura Genoveva Neta, integrante do Ilê Axé Iyá Nassô Oká.
A parte musical do evento está programada para começar às 20h, com o grupo Samba pra Rua, que receberá ainda a banda Gal do Beco como convidada especial.
O Ilê Axé Iyá Nassô Oká foi fundado em 1830 por mulheres africanas oriundas do antigo Império de Oió. Vendidas como escravas e traficadas para o Brasil, elas resolveram fundar um templo religioso iorubá em pleno centro de Salvador, no terreiro que ficaria conhecido como “o Candomblé da Barroquinha”. Até hoje, é considerada por estudiosos como a primeira casa candomblecista do país.
Hoje instalado no bairro do Engenho Velho de Brotas e mais conhecido como Terreiro da Casa Branca, o Ilê Axé Iyá Nassô Oká ganhou esse nome em homenagem à sua principal fundadora, a iorubá Iyá Nassó (Mãe Nassô).
De acordo com a historiografia, todas as casas de candomblé de origem iorubá no Brasil têm origem direta ou indireta do Casa Branca, como são os casos do Ilê Iyá Omi Axé Iyá Massê (Terreiro do Gantois), marcado pela iyalorixá Mãe Menininha; e do Ilê Axé Opô Afonjá, que foi comandado pelas históricas Mãe Senhora e Mãe Stella de Oxóssi.
O presidente do afoxé Filhos de Gandhy, Gilsoney de Oliveira, defendeu a adoção do verde e do amarelo na fantasia de 2023 do bloco. A escolha da direção vem sendo criticada por associados, que reclamam a exclusividade dos tradicionais azul e branco na mortalha. Para o dirigente, a reclamação é natural, mas não foge das tradições ligadas ao candomblé.
“Eu não avalio como crítica. A polêmica é importante porque cria conteúdo, cria mídia. Nós temos um entendimento religioso, onde as cores são pertinentes aos nossos temas, aos que nós pensamos e à leitura de todo um trabalho, todo um projeto. Neste ano, colocamos o verde e o amarelo porque estamos homenageando o caboclo. É o verde e o amarelo do Brasil, da esperança, da alegria de voltarmos depois de uma pandemia. As cores fazem parte do sagrado”, afirmou Gilsoney, em entrevista ao Bahia Notícias.
Tradicionalmente, a cor principal do Gandhy é o branco, em homenagem a Oxalá. Entretanto, com o passar do tempo, para variar as fantasias a cada ano, o azul também foi adotado, fazendo uma referência a outro orixá: Ogum.
Em 2019, porém, uma grande polêmica foi instaurada, com uma fantasia branca, azul e amarela, sendo a última cor uma homenagem à orixá Oxum. Muitos associados reclamaram, afirmando que a adoção de uma terceira cor estaria descaracterizando o afoxé.
Em 2023, as cores verde e amarelo se somaram ao branco e azul da fantasia, gerando novas críticas dos associados. A escolha foi feita em homenagem a entidades do candomblé de caboclo, popular no Recôncavo da Bahia, e da umbanda. Até este ano, as temáticas anuais do Gandhy faziam referência às tradições candomblecistas dos terreiros mais antigos de Salvador, que cultuam apenas entidades iorubás.

Foto: Diogenes Neghet / Filhos de Gandhy
“Temos uma marca, que temos que respeitar: Mahatma Gandhi era ecumênico. Nós respeitamos todos. Somos afrodescendentes, temos a questão do candomblé, mas o Gandhy é um bloco ecumênico, respeita todas as religiões e todo entendimento religioso”, defendeu o presidente do Gandhy.
Gilsoney ainda lembrou que, neste momento, saudar os caboclos possui um simbolismo importante para o Brasil, que enfrenta uma crise humanitária envolvendo a etnia yanomami, da região norte do país.
“Essa questão dos indígenas, todos nós precisamos nos envolver na campanha. Porque olha o que está acontecendo com os yanomamis! Os indígenas fazem parte do início da nossa história. Os caboclos e os encourados fazem parte da religião. O Gandhy é para aglutinar, para aproximar e queremos o entendimento religioso, o entendimento sexual, de todas as vertentes. O Gandhy é contemporâneo e se obriga a levantar a bandeira da paz”, concluiu Gilsoney.
Um terreiro de Candomblé foi alvo de arrombamento e teve objetos furtados em Dias D'Ávila, na Região Metropolitana de Salvador (RMS). Nenhum suspeito foi localizado até a manhã desta segunda-feira (13). O fato ocorreu no terreiro Ilê Asè Airá Tolami, situado no bairro Santa Helena, no último sábado (11).
Segundo o Mais Região, parceiro do Bahia Notícias, a situação foi percebida quando um integrante do terreiro chegou ao local e constatou que as portas estavam arrombadas. Quando entrou também notou a ausência de aparelhos eletrodomésticos, alimentos e objetos de uso pessoal.
Na ação, grades também foram notificadas. O caso foi registrado na 25ª Delegacia de Dias D’Ávila, que investiga o crime. Acompanha o caso também a Coordenação Especializada de Repressão aos Crimes de Intolerância e Discriminação (Coercid).
Quem é baiano provavelmente já ouviu os versos da cantiga que diz “São Cosme mandou fazer/ Duas camisinha azul/ No dia da festa dele/ São Cosme quer caruru”. É certo também que muita gente fica eufórica em setembro, na ânsia pelos convites para se esbaldar nos tradicionais banquetes em homenagem a Cosme e Damião e aos Ibejis.
Na esteira dos festejos, após receber muitos pedidos por orientações sobre o preparo dos pratos típicos do período, a afrochef baiana Paloma Zahir, que comanda o Kissanga Restaurante, em Salvador, resolveu fazer mais do que ensinar os passos dessa gastronomia regada a dendê. Ela decidiu desvendar os mistérios por trás desse costume bem baiano, juntando cozinha, história, cultura, religião, tradição e solidariedade.
“[Elas perguntavam] ‘Paloma, como é que faz o caruru, como faz o vatapá? O xinxim o tempero não pega direito, tem algum toque, tem algum segredo?’. E aí eu parei pra pensar em como entregar um conteúdo com mais qualidade para as pessoas. Eu falei ‘pô, não quero ficar só dando direcionamentos curtos, vou formular uma coisa mais completa’. E aí, pelo fato de eu ser uma mulher de Axé, de ser iniciada no Candomblé, eu lembrei de como iniciou a tradição aqui do caruru de Cosme e Damião e toda essa questão também da fraternidade, de matar a fome das pessoas”, explica a cozinheira, que, neste sentido, resolveu criar o Workshop Caruru dos Ibejis, para apresentar dicas culinárias, mas também promover discussões sobre ancestralidade (saiba mais).
Totalmente virtual, o projeto será ministrado ao vivo, na próxima segunda-feira (20), a partir das 13h, por meio da plataforma Zoom. Para aqueles que não puderem acompanhar em tempo real, o conteúdo ficará disponível pelo período de um mês. O ingresso custa R$ 50 e a renda vai ser totalmente revertida para o Instituto Conceição Macedo, que apoia pessoas soropositivas na capital baiana. Além disso, o caruru preparado durante a atividade também será doado em quentinhas distribuídas nas ruas de Salvador, para pessoas em vulnerabilidade social. “Com toda essa pegada caótica que a gente está tendo na economia e como está mais difícil pra colocar comida na mesa, é uma forma também de eu estar entregando meu Axé às pessoas, em forma de comida, em forma de afeto”, pontua Paloma.

"É uma forma também de eu estar entregando meu Axé às pessoas", diz chef baiana que promove workshop sobre o tradicional caruru de Ibejis ou de Cosme e Damião | Foto: Divulgação
DICAS PARA MANDAR BEM NO CARURU
Ao Bahia Notícias, a chef deu alguns macetes para fazer um caruru como manda a tradição, sem sair de um orçamento que caiba no bolso. “Partindo da situação econômica do país, uma dica coringa é você começar a comprar os ingredientes com antecedência”, alerta a especialista, garantindo “uma economia absurda” para aqueles que não deixam para adquirir os produtos em cima da hora.
Outro ponto importante apontado por Paloma Zahir é evitar os excessos. “Em relação à questão de tempero, acho que as pessoas erram quando colocam mais itens do que o necessário. Porque comida baiana, principalmente o caruru de Cosme e Damião, dos Ibejis, que é uma comida votiva [comida preparada para oferecer a divindades], o tempero não é cheio de ingredientes”, adverte a cozinheira. “O único que leva mais tempero mesmo é o vatapá, com as oleaginosas, o amendoim e a castanha. Mas no caruru, no xinxim e outras coisas, o tempero é básico. Tem gente que eu vejo colocando coentro, colocando tomate, que são coisas que não devem ser utilizadas”, instrui.
Paloma explica ainda que na gastronomia baiana há uma base simples para o preparo da maioria dos pratos: cebola e camarão defumado. Mas não o crustáceo tingido com corantes, que custa mais barato, e sim aquele que passa por um processo de cura com fumaça de verdade. “O segredo do caruru é você ter um bom camarão. O camarão é um dos personagens principais na composição do tempero”, resume.

“O segredo do caruru é você ter um bom camarão", alerta a cozinheira | Foto: Divulgação
A HISTÓRIA POR TRÁS DO BANQUETE
Todo mundo já foi criança um dia, e, na Bahia, provavelmente já figurou entre os sete meninos servidos com o caruru de Cosme e Damião, ou dos Ibejis. A origem desta tradição, assim como o motivo da celebração no mês de setembro e o porquê de um banquete tão vasto em guarnições são algumas das informações que serão detalhadas no workshop.
“Vou falar como iniciou a tradição, vou contar os itans, porque se originou essa tradição na Bahia, como tudo ocorreu, para as pessoas entenderem. Porque o pessoal tem muito a cultura de comer o caruru, mas não procurar saber o porquê. Por que ele é em setembro? Como se iniciou?”, promete a afrochef. “Então, a questão é mesmo de trazer esses questionamentos e mostrar o quanto a cultura e a religião é potente ainda no nosso dia a dia”, pontua.
Para os leitores do BN, Paloma adiantou algumas explicações. Conta a lenda que Exu costumava entrar no palácio e devorar toda a comida servida ao rei Xangô. Contrariado, o orixá da justiça resolveu armar uma cilada com a ajuda de seus dois filhos gêmeos, os Ibejis, que propuseram um desafio para que o visitante parasse de “roubar” a comida do pai.
“Essa questão dos pratos vem do Itan, os contos africanos. O que acontece? Os Ibejis são os filhos de Oyá e Xangô. Teve uma certa vez que Exú desafiou Xangô em questão de dança, e aí Xangô colocou seus filhos, sem Exu saber. Então, a questão era, Exu disse que aguentava dançar por muito tempo. Xangô então colocou um dos Ibejis pra tocar. Ele tocava, tocava, tocava, e quando um ficava cansado o outro trocava de lugar. E Exu não percebia isso, porque, na verdade, ele estava comendo as coisas de Xangô. E aí ficou nessa questão e Exu não aguentou (risos) e perdeu”, conta Paloma.
Vencida a aposta, Xangô decidiu dar uma compensação aos filhos. “Aí, em comemoração a isso, Xangô perguntou aos Ibejis o que eles queriam. Eles falaram que queriam o que ele recebia, mas como Xangô comia amalá, com rabada e pimenta, que Ibejis não gostam, eles disseram que poderia ser o caruru mesmo”, narra a chef baiana, lembrando que a celebração não ficou restrita aos gêmeos. “Ele convidou também os outros orixás e cada um levou seu prato preferido, por isso que é o banquete. Tem o caruru de Ibeji; tem o vatapá, que é uma associação ao ipeté de Oxum; você vê a abóbora, que tem enredo com Iansã; o abará a Oxum também; arroz a Iemanjá; o milho branco a Oxalá; e por aí vai. Então, todos os orixás são representados ali naquele banquete. Por isso que o banquete é grande, porque todos os orixás estão ali em comunhão com Ibeji”, detalha os motivos pelos quais o caruru dos Ibejis é tão farto.
Os sete meninos, por sua vez, são representados pelos Ibejis, que não são apenas os dois gêmeos filhos de Xangô. “Tem uma legião de sete crianças, de sete divindades africanas, que não são cultuadas totalmente aqui no Brasil, porque a cultura foi se perdendo. Com o tráfico dos negros pela a travessia atlântica e aquela questão de você não ficar com pessoas da mesma região, então as culturas foram se dispersando, foram tendo uma fusão com a questão da resistência. Então aqui ficou só o culto a Ibeji no Ketu, ou Vunje na nação de Angola, Jeje, por essa questão. Então eles pegaram e cultuaram dois, que é Taiwo e Kehinde, mas tem as outras cinco divindades”, conta a chef. Os outros cinco são Idhoú, Alabá, Talabí, Adoká e Adosú, sobre os quais ela também vai falar no seu workshop.

Registro de Pierre Verger do Caruru de Sete Meninos
TRADIÇÃO NA BAHIA E ASSOCIAÇÃO COM COSME E DAMIÃO
Não é segredo para ninguém que existiu e ainda segue existindo preconceito contra as religiões de matriz africana no Brasil. Foi por isso, que na Bahia, o caruru dos Ibejis foi associado aos santos Cosme e Damião, celebrados pelos católicos em 26 de setembro.
“A gente tem os Ibejis, que são as duas crianças, e temos Cosme e Damião. Como já tinha essa cultura da comemoração do dia de Cosme e Damião, uma grande ialorixá aqui da Bahia fez isso [associar as divindades africanas aos santos], porque ela queria continuar a dar o caruru, que era uma tradição dos Ibejis, mas tinha a questão da perseguição religiosa”, explica Paloma Zahir. “Não gosto do termo sincretismo religioso, eu vejo isso como uma questão de resistência mesmo que os negros tiveram naquela época pra poder continuar a seguir com sua religião e sua culturas”, pontua.
“Pra ter liberação desse culto, tinha que dizer que era de Cosme e Damião, já que ficava próximo da data de comemoração deles. Então, é mais uma maneira de fortalecer e seguir a tradição, e um jeito de burlar mesmo a perseguição”, destaca a cozinheira sobre a estratégia usada para manter um costume que era proibido pelas autoridades da época. “O que aconteceu foi que as crianças começaram a aparecer próximo da roça de Candomblé, e aí ela serviu o caruru, as crianças ficaram brincando, teve aquela profusão de crianças, e daí continuou essa cultura, essa tradição, até os dias de hoje. O caruru de Cosme e Damião, o caruru dos Ibejis, veio em celebração a matar a fome das crianças que estavam passando por necessidade. Foi uma maneira também que o Candomblé achou de ajudar ao próximo, ajudar os seus irmãos”, acrescenta.
E foi assim que o célebre caruru se tornou um delicioso costume em setembro na Bahia. Especificamente, a festa é celebrada no dia 26 pelos devotos de Cosme e Damião e 27 por aqueles que cultuam os Ibejis, mas o hábito acabou se estendendo por todo mês de setembro.
Consumir os pratos típicos da culinária baiana virou tradição também às sextas-feiras. Segundo Paloma, isso é fruto de herança ancestral dos negros, pois é neste dia da semana que eles se reorganizam e fazem um banquete para entrar em comunhao entre si e comer bem. “As pessoas acham, erroneamente, que preto não pode ter fartura, mas os africanos têm fartura em sua essência. E a sexta-feira é o dia de estarem entre si, de lembrarem de onde vieram. Acaba sendo um momento de resistência”, conclui a chef, orgulhosa de ser mulher, preta, baiana e de Axé.
O Coletivo de Entidades Negras (CEN), por meio do projeto "Itoju - Salvaguarda de Terreiros" está com inscrições abertas para pessoas interessadas em participar do "Curso de Gestão de Patrimônio Imaterial e Salvaguarda de Terreiros de Candomblé", que será certificado pela Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia (UFBA), através do grupo de pesquisa Milonga. As inscrições podem ser feitas por meio do preenchimento do formulário (disponível aqui) até o próximo domingo (7).
De acordo com a organização da atividade, os selecionados receberão e-mail de confirmação. A duração total das aulas é de 16 semanas, através de aulas online. A ambientação dos cursistas na plataforma virtual terá início no dia 8 de fevereiro e as aulas iniciam em 10 de fevereiro.
O público-alvo prioritário da iniciativa, que disponibilizará número limitado de vagas para a seleção de pessoas não envolvidas inicialmente no escopo do projeto, inclui gestores públicos municipais, docentes e discentes de universidades, membros de todos os terreiros de candomblé registrados e tombados, além de membros de qualquer outro terreiro interessado em participar das aulas.
O curso será dividido em quatro módulos, sendo eles: "Módulo 1 - A Gestão Da Cultura No Brasil Contemporâneo", "Módulo 2 - A Gestão Das Políticas De Patrimônio No Brasil", "Módulo 3 - O Patrimônio Imaterial Afro-brasileiro", "Módulo 4 - Elaboração de projeto/planos de trabalho para ações emergenciais de salvaguarda".
Os participantes devem, ao final das aulas, estarem aptos a refletir sobre políticas de patrimônio cultural brasileiro a partir dos seus recortes étnico raciais, em especial a temática dos patrimônios negros, assim como compreender as dinâmicas do patrimônio imaterial e suas implicações para os patrimônios de terreiros de candomblé.
Com letras que abordam temas como autoconhecimento, amor-próprio, feminismo, ancestralidade e questões sociais, as jovens Niambi Sala e Thandiwe formam o duo nova-iorquino OSHUN. O nome vem da orixá homônina, Oxum em português, e faz referência à deusa yorubá das águas doces. Ou talvez fosse melhor dizer reverência, já que elas até pedem que se escreva o nome todo em letras maiúsculas.
A aproximação com o candomblé, inclusive, é algo que se destaca no trabalho das duas, graças à influência, primeiramente, de seus familiares, conta Niambi em entrevista ao Bahia Notícias.
"Nós descendemos de pessoas com melanina que foram roubadas de suas terras e sistemática e forçadamente excluídas de sua cultura. Mas apesar desses esforços, nossas famílias nos incutiram nossa cultura africana desde o nascimento. Nós somos pessoas africanas na América. Nós somos filhas dos orixás e sempre fomos – só precisávamos nos reconectar com nossos ancestrais para lembrar", ressalta a cantora.
Neste contexto, elas estão animadas com o show em Salvador, no Commons Studio Bar, na noite deste sábado (16). Será a primeira apresentação do duo em solo baiano – a primeira passagem pelo Brasil foi em 2017 com show apenas em São Paulo. Agora, elas integram a programação do projeto Intercenas Musicais (veja aqui), que neste Novembro Negro conta ainda com shows da nigeriana Okwei Odili e da sergipana Héloa, na sexta (15).
Para Thandiwe, a forte presença do candomblé em Salvador é inspiradora, ainda que os registros de intolerância religiosa, especialmente contra as religiões de matriz africana, sejam frequentes.
Somente este ano, de acordo com o Ministério Público do Estado (MP-BA), foram feitas 165 denúncias de racismo na Bahia. Por intolerância religiosa, foram 48 ao longo de 2019. Destas, 43 foram contra religiões de matriz africana. A maioria aconteceu nos próprios locais sagrados, como monumentos e locais de culto de diferentes crenças.
Mesmo assim, Thandiwe ressalta que a cidade "é a imagem mais vívida da resiliência dos nossos ancestrais no mundo". “Nós torcemos para que um dia todas as crianças da África encontrem um lugar onde elas tenham a liberdade de expressar com orgulho as antigas tradições daqueles que vieram antes de nós”, complementa.
Uma das melhores lembranças que a dupla tem do Brasil é justamente a visita que fizeram ao “Vale dos Orixás”, o Santuário Nacional da Umbanda, em São Paulo. Neste retorno ao país, elas também pretendem “sentar aos pés” de líderes e curandeiros da comunidade do Candomblé.
Quanto à música, Thandiwe adianta que o público que garantiu ingresso para as apresentações em Salvador e na capital paulista poderá conhecer algumas novas canções.
A dupla viaja com a turnê de seu primeiro álbum, o “Bittersweet vol.1”. Antes disso, elas lançaram alguns EPs e singles, todos marcados pela mistura de hip hop e soul dentro da estética do afrofuturismo.
“Nossas principais influências são aquelas que abriram os caminhos para vivermos no nosso propósito. Em geral, são nossos parentes e familiares, lideranças políticas como Assata Shakur e Malcom X e, musicalmente, é Fela Kuti, Bob Marley, Missy Elliot, Lauryn Hill, The Soulquarians... A lista segue", cita Thandiwe.
Do Brasil, Niambi conta que algumas de suas artistas favoritas são a cantora Tássia Reis, o cantor Hodari, a banda Tuyo e o produtor Ecologyk. "Nós estamos ansiosas para aprender mais sobre a música brasileira agora que nós estamos aqui", admitiu.
Além de conhecer um pouco da atual cena musical do Brasil, elas também têm acompanhado, mesmo que de longe, a situação social do país. Com um viés político nas próprias canções, Thandiwe compara o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, ao norte-americano, Donald Trump: "Nós temos ouvido muita decepção do povo brasileiro sobre seu presidente. Nos EUA, nós lidamos com as consequências de um presidente sem educação e prejudicial, e pelo que pudemos compreender parece que muitos brasileiros se sentem da mesma forma. Nosso melhor conselho é deixar que esses desafios unam a juventude e as pessoas que não vão desistir da liberdade e igualdade. Essa dificuldade só fará o Brasil mais forte".
Os brasileiros ainda conhecem pouco de OSHUN, já que elas circulam na cena alternativa. Mas sem deméritos. O primeiro e o segundo lote promocionais para o show de Salvador, por exemplo, já esgotaram. Agora, os interessados em ouvir o duo ao vivo terão que pagar R$ 25 no ingresso, que pode ser adquirido pelo portal Sympla (veja aqui). De acordo com a assessoria do projeto, a casa de shows vai vender as entradas restantes por R$ 20 na hora do show.
A única recomendação é feita por Niambi: "venham hidratados, receptivos e prontos para se curar". A dupla sobe no palco a partir das 20h.
Xangô Aganju do Babalorixá Balbino Daniel de Paula, conhecido como Obaràyí, irá celebrar junto aos seus filhos e a comunidade do Candomblé neste sábado (24), às 9h30, seus 60 anos de iniciação.
A comemoração acontecerá junto com uma programação religiosa pela manhã, acompanhada de uma celebração cultural com a participação de Egbomi Vovó Cici e o Coral do Aganju, do Mogbá de Xangô e também do ator Érico Brás e do cantor Aloysio Menezes.
No sábado, será apresentada de forma inédita a exposição "os 12 a?? do Rei" (vestes sagradas do Orixá), e também a mostra de fotos "Obaràyí: Uma história religiosa de 60 anos", que tem curadoria da Fundação Pierre Verger que ficará no Terreiro, aberta ao público até o final de setembro.
Balbino foi iniciado em 1959, pelas mãos de sua mãe-de-santo, Mãe Senhora do Ilê Axé Opô Afonjá.
SERVIÇO
QUANDO: Sábado, 24 de agosto
ONDE: Ilê Asè Opô Aganju, Rua Saketê, Lauro de Freitas
06h: Alvorada com Clarins
09h30: Entrega do Amalá a Xangô Aganju
10h30: Abertura da Exposição 12 a?? do Rei
11h30: Abertura da Exposição Obaràyí : uma história religiosa de 60 anos, da
Fundação Pierre Verger |
“O menino que não podia ver o Fogo”, com Egbomi Vovó Cici & Coral do Aganju | Um poema para Xangô por Érico Brás | Canto para Obaràyí por Aloysio Menezes
O curta-metragem "Do que Aprendi com Minhas Mais Velhas" será exibido no dia 8 de agosto (quinta-feira), às 22h. Dirigido por Fernanda Júlia Onisajé e Susan Kalik, a produção mostra o culto do candomblé, religião de matriz africana, em que as sacerdotisas ou yalorixás ensinam aos seus filhos, os iniciados na religião, o significado dos orixás – ancestrais africanos que passaram a serem cultuados como divindades após sua existência na terra.
Vencedor do Prêmio Aquisição SescTV 2018, concedido no Cine Baru Mostra Sagarana de Cinema, o documentário foi filmado nos terreiros de candomblé na Bahia. Imersa nesse ambiente, a produção também mostra o cotidiano dos filhos de axé e a familiaridade das crianças com os ritos, cantigas e comidas oferecidas aos orixás durante as festas e as homenagens realizadas nos terreiros.
O documentário faz parte da faixa + Curtas, que tem por objetivo fomentar o audiovisual e abrir mais uma janela de exibição para filmes com até 30 minutos de duração, produzidos no Brasil e no exterior. O curta-metragem será reapresentado nos dias 10 de agosto, sábado, às 23h30; 11 de agosto, domingo, às 22h30; 12 de agosto, segunda, às 22h; 13 de agosto, terça, às 24h; e 21 de agosto, quarta, às 23h30.
Com a proposta de evidenciar a influência do Candomblé na Capoeira, Salvador recebe o evento gratuito “A benção aos meus mais velhos, respeito a matriz africana: princípios do Candomblé Angola como fundamentos da Capoeira”.
A iniciativa acontece de 24 a 26 de maio, com uma programação que inclui debates, oficinas e uma caminhada. Para a organizadora e formada na Capoeira, Márcia Andrade (Passarinho), o objetivo não é difundir uma crença religiosa obrigatória aos capoeiristas, mas ressaltar que ela é uma arte corporal que foi influenciada pelos ritos, costumes e cultura de quem a criou. “Nenhum capoeirista é obrigado a seguir uma religião A ou B, mas deve respeitar a origem daquilo que pratica”, destaca.
A abertura do evento acontece no dia 24, com uma roda de conversa no Terreiro Ganzua Mugambo Munogunzo, situado na Rua Direta do Arraial do Retiro.
SERVIÇO
“A benção aos meus mais velhos, respeito a matriz africana: princípios do Candomblé Angola como fundamentos da Capoeira”
Dia 24: Roda de Conversa
Onde: Terreiro Ganzua Mugambo Munogunzo – Rua Direta do Arraial do Retiro
Dia 25: Oficinas de percussão com o capoeirista e Tataa Xicarangoma Dainho Xequerê e de dança com a licenciada em dança e formada na capoeira Márcia Andrade (Passarinho).
Dia 26: Caminhada pela valorização da cultura de matriz africana
Onde: saindo do Conjunto ACM (Estrada das Barreiras) em direção ao Arraial do Retiro
Celebrando 18 anos de trajetória, o bloco A Mulherada desfilará no Carnaval de Salvador nesta quinta-feira (28), a partir das 17h, no Circuito Osmar (Campo Grande).
Com o tema “Mistérios da África – as yabás, orixás, mães e rainhas”, este ano, o bloco faz uma homenagem às raízes ancestrais das mulheres negras, simbolizadas no Candomblé, pelas Yabás.
Nos desfiles, tais entidades serão representadas pelas orixás Iansã, Iemanjá, Oxum e Nanã. O Mini Trio também terá decoração nas cores azul, vermelha, amarela e lilás, que simbolizam as divindades.
O bloco desfilará com 60 percussionistas, 30 baianas, 40 rainhas afro, 30 mulheres compondo a Ala Feminista, além de carro alegórico em homenagem às Yabás, e um conjunto de 100 dançarinas.
Uma onda de acusações contra o rapper baiano Baco Exu do Blues tomou conta das redes sociais esta semana. Dentre elas a de que o artista seria “abusador” e “machista". As alegações não são ligadas a nenhuma pessoa específica, mas começaram a viralizar nas redes sociais na última segunda-feira (14). Entre os relatos, estão que "pessoas do meio musical" não gostariam do artista por causa dos supostos casos de abuso. Um outro internauta apontou que em um show Baco teria gritado que "uma mina preta é vagabunda". Há também questionamentos sobre a religião do rapper. Em prints compartilhados no Twitter, não é possível identificar quem foram os autores das declarações.
Após as acusações, nesta terça-feira (15), Baco decidiu se manifestar por meio de suas redes sociais, mesmo, segundo ele, contrariando as orientações de sua equipe. “Questionaram minha fé nos últimos dias, falaram sobre minha luta pelos negros e minorias, me acusaram de ser violento e de ter abusado de alguém, uma mentira que muda de forma, endereço e motivos a todo instante, uma acusação que não tem rosto”, disse o músico, em um storie no Instagram. "Poderia falar que é um boicote a um artista negro em ascensão, que é também sobre racismo institucional, mas isso vocês todos já sabem que acontece, não vou me estender sobre isso”, acrescentou Baco, que disse ter entrado em um “limbo de tristeza” por muitos fãs acreditarem “na onda de notícias falsas”. “Entendo também que mesmo sem fundamento é uma história de acusação caluniosa forte e de fácil credibilidade, já que mesmo sendo negro e minoria também sou homem e sim é muito complicado confiar em homens em situações como essa. Venho pedir senso em apurar os boatos, lembrem-se que estão lidando com uma vida, saibam o quanto uma afirmação a qual você não tem certeza ou prova alguma pode acabar com uma vida”, disse o rapper, informando que “medidas legais estão sendo tomadas”. Atualizado às 15h02.
Confira a resposta de Baco:
O músico, repentista, escritor e poeta baiano Bule Bule lança, no dia 11 de abril, em Salvador, o livro “Bule Bule – Orixás em Cordel”. O evento de lançamento, que conta com noite de autógrafos, acontece às 18h30, no foyer do Teatro Castro Alves. Publicada pela Pinaúna Editora, com ilustração de Klévisson Viana e prefácio do compositor, cantor e instrumentista Mateus Aleluia, obra une dois elementos da cultura brasileira e nordestina, a literatura de cordel e as religiões de matriz africana. “A escolha desse tema foi uma oportunidade ao descobrir que há cento e tantos anos que o cordel circula no Brasil e, mesmo com muitos grandes mestres que conviveram com os temas variados e viveram dessa arte majestosa de criar títulos e personagens, ninguém ainda tinha escrito, levando a sério, um trabalho de matriz africana, como esse. Alguns tinham feito tipo brincadeira, gozação... Mas levando a sério, a religiosidade, ninguém tinha feito. Eu acho que vai ser um elemento mágico para abastecer essa lacuna que o mercado ainda tem”, explica Bule Bule. Além do lançamento do livro, o projeto, que contou com apoio do Governo do Estado, por meio do Fundo de Cultura, Fundação Pedro Calmon e Secretarias da Fazenda e de Cultura do Estado da Bahia, prevê ainda rodas de conversas com o autor em terreiros de Candomblé de Salvador, Lauro de Freitas e Cachoeira.
SERVIÇO
O QUÊ: Lançamento do livro “Bule Bule – Orixás em Cordel”
QUANDO: Quarta-feira, 11 de abril, às 18h30
ONDE: Foyer do Teatro Castro Alves – Salvador (BA)
VALOR: Entrada gratuita, sujeita à lotação do espaço
A partir da linguagem oral, a ancestralidade da cultura afro-brasileira ultrapassou barreiras entre gerações, ganhando as páginas do livro “Histórias que Agbá me Contou”, lançado na última terça-feira (12), em Salvador. A publicação foi produzida coletivamente por 17 crianças de 4 e 5 anos, da Escola Municipal José Lino, localizada no Pelourinho. “Aqui no Museu Nacional da Cultura Afro Brasileira, que é o Muncab, tem um grupo de voluntariado [Sociedade Amigos da Cultura Afro Brasileira (Amafro)], que já desenvolve um projeto chamado Erê e já fez ações em várias escolas. Este ano eles convidaram a nossa”, conta a professora Maria Patrícia Soares, responsável por mediar o trabalho, que foi coordenado pela professora Maria Augusta Rosa Rocha, mentora do projeto junto com o Amafro, do qual ela também é integrante.
Maria Patrícia explica que o desenvolvimento do que veio a ser o livro se deu a partir das “histórias contadas por Agbás, senhoras velhas de terreiros de candomblé e de fundações que tratam da cultura afro-brasileira”. Foram dez reuniões semanais, nas quais as crianças opinavam sobre o que gostariam de ouvir e recontar. “Os meninos disseram que queriam histórias sobre os animais, sobre a natureza, de medo. Depois disso, a cada dia tinha uma contadora, a primeira delas, da Fundação Pierre Verger, Dona Cicí, que contou a história do ‘Veganami’. E aí as crianças iam me dizendo as coisas e eu escrevia junto com eles, recontando o que Vovó Cicí contou”, lembra a professora. Fruto deste trabalho coletivo, o livro traz quatro histórias, que ganharam ilustrações dos pequenos alunos: “Veganami - o Bichinho Guloso”, “O Mito de Passinho”, “A Rivalidade entre Oramila e Ossain” e “Etu”.

Lançamento aconteceu nesta terça-feira (12), no Muncab | Foto: Divulgação
A professora explica ainda que a construção do livro tem muito a ver com o que já se trabalha na instituição de ensino na qual ela leciona. “O tema no nosso projeto político-pedagógico é ‘O Menino do Pelô’, voltado para atender as questões de pertencimento desta criança que mora no Pelourinho. Então, o ‘Histórias que Agbá me Contou’ veio casar perfeitamente com o que a gente já trabalha, que é a valorização da cultura afro-brasileira, a valorização e o sentimento de pertencimento na comunidade, o sentimento de reconhecimento, como uma criança negra, que tem história, que seus familiares moravam e construíram o Pelourinho”, diz Maria Patrícia Soares, destacando a importância do projeto para desconstruir paradigmas e preconceitos amplamente disseminados na sociedade brasileira. “Em geral as escolas só trabalham com a cultura europeia. A gente tem livros que falam de Branca de Neve, de Cinderela, então a gente está falando com propriedade agora das histórias de nosso povo, de nossos ancestrais. Para nós é muito significativo, do ponto de vista até de quebrar esse preconceito da questão do que vem do terreiro. A gente precisa ver as belezas que vêm do terreiro”, avalia a professora.
O livro “Histórias que Agbá me Contou” teve uma tiragem de 200 cópias, que serão distribuídas entre as instituições que participaram do projeto, a Secretaria de Educação e as famílias das crianças.
Obra sobre tradição, amor e religiosidade, o documentário “Do que aprendi com minhas mais velhas” estreia neste domingo (11), às 18h, na Sala Walter da Silveira, em Salvador. Após a exibição, ocorrerá um bate-papo com a líder comunitária e religiosa Makota Valdina e a Egbomi Vanda Machado (Ilê Axé Opô Afonjá), sobre a sabedoria feminina e seus olhares sobre o mundo. Dirigido por Fernanda Júlia Onisajé e Susan Kalik, o média-metragem aborda a maneira como a fé no Candomblé é transmitida de geração em geração. No filme, Nenguas, Yalorixás e Egbomis contam como aprenderam com seus mais velhos e como ensinam aos seus mais novos. “A mais velha foi aquela que percorreu maior parte do caminho. É mediadora entre os mais novos, as divindades e os ensinamentos do processo iniciático. É por meio da experiência dessas Yás que nós mais novos aprendemos”, explica Fernanda Júlia.
SERVIÇO
O QUÊ: Exibição do documentário “Do que aprendi com minhas mais velhas”
QUANDO: Domingo, 11 de junho, às 18h
ONDE: Sala Walter da Silveira - Barris - Salvador (BA)
VALOR: Entrada gratuita
Para celebrar os 128 anos da abolição da escravatura e a resistência negra, Santo Amaro, no Recôncavo baiano, recebe mais uma edição do Bembé do Mercado desta quarta-feira (10) até o domingo (14). Além de comemorar a liberdade, o evento reúne centenas de adeptos do candomblé e vários terreiros da região, que durante cinco dias realizam grandes encontros e cerimônias em praça pública, culminando com a entrega de oferendas para Iemanjá, na praia de Itapema. Esse ano, o Bembé vai homenagear os terreiros de Umbanda e o terreiro Tumba Junsara pelos seus 98 anos, representado pela senhora, Iraildes Maria da Cunha-Mam’Eto Nkisi Mesoeji. A programação terá também palestras, debates, além de manifestações religiosas e culturais como Nêgo Fugido, Maculelê e Jogada de Rede. O evento terá ainda shows de nomes como Cortejo Afro, Ana Mametto e Rebeca Tárique. Na ocasião, a Fundação Palmares vai realizar também o lançamento da cartilha – África ao Brasil.
Curtas do Poder
Pérolas do Dia
Valdemar Costa Neto
"Não gostei".
Disse o presidente nacional do Partido Liberal, Valdemar Costa Neto ao comentar a carta divulgada por Flávio Bolsonaro (PL), candidato derrotado à Presidência nesta quarta-feira (28). No pronunciamento, Flávio afirma que pretende liderar a oposição brasileira do exterior.
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