A gente precisa de uma dose de remédio bastante mais elevada”, diz Galípolo ao justificar política de juros do BC
Por Sophia Bernardes, de São Paulo / Rebeca Menezes
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que o Brasil precisa de uma política monetária mais restritiva do que a adotada por outras economias para produzir os mesmos efeitos sobre a inflação. A declaração foi feita durante um dos painéis mais comentados da Expert XP 2026, em que dividiu o palco com Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos.
Ao justificar o nível elevado da taxa básica de juros no país, Galípolo comparou o cenário brasileiro ao de economias semelhantes e afirmou que a intensidade do aperto monetário precisa ser maior.
“Aqui no Brasil a gente precisa de uma dose de remédio mais elevada quando a gente compara com os nossos pares.”
Segundo o presidente do BC, a instituição não toma decisões com base em indicadores isolados e prefere acompanhar tendências mais consistentes antes de promover mudanças na política monetária.
Galípolo também afirmou que a economia brasileira continua demonstrando resiliência, especialmente no mercado de trabalho, mas destacou que a deterioração das expectativas de inflação permanece como um fator de preocupação para a autoridade monetária.
“O que a gente tem aqui da economia brasileira é, ainda, uma economia com mercado de trabalho bastante resiliente, com uma atividade econômica que se mostra ainda resiliente, e a preocupação adicional são as expectativas, que já estavam antes parcialmente desancoradas e desancoraram ainda um pouco mais”, afirmou.

Na avaliação do presidente do Banco Central, esse cenário exige cautela na condução da política monetária, mesmo com a Selic já em um nível considerado restritivo.
“Então, ainda que nós estejamos com a taxa de juros em um patamar restritivo, isso, obviamente, é uma preocupação adicional, que nos recomenda permanecer com uma taxa de juros nesse patamar restritivo por um período mais longo”, declarou.
Galípolo também comentou que, desde o início de seu mandato, a taxa de juros efetiva ficou acima das expectativas do mercado e lembrou que, mesmo após novas revisões para um nível ainda mais contracionista, as expectativas de inflação continuaram se afastando da meta.
Para o presidente do BC, isso indica que outros fatores, além da própria taxa de juros, influenciam a percepção do mercado. Ele afirmou que ainda há um debate sobre se essas expectativas refletem decisões que já impactam a economia ou projeções relacionadas a medidas que ainda poderão ser adotadas.
Durante o painel, Galípolo também abordou os efeitos da ampliação da inclusão financeira promovida pelo Pix. Segundo ele, o sistema permitiu que milhões de brasileiros passassem a acessar serviços bancários e o cartão de crédito. Por outro lado, observou que esse processo também aumentou a exposição das famílias ao crédito rotativo, modalidade que, sob juros elevados, “vai virando uma bola de neve”.
O presidente do Banco Central ainda rebateu críticas sobre a atuação da autoridade monetária: “Por trás da crítica, existe a avaliação de que membros do mercado têm intenção de induzir ou influenciar a política monetária de forma a querer uma taxa de juros mais elevada”, apontou.
Ao explicar a diferença entre a Selic e os juros cobrados no crédito rotativo, Galípolo recorreu à comparação com um fóssil de dinossauro exposto em um museu para ilustrar como pequenas diferenças de tempo podem gerar percepções muito distintas de grandeza. Em outro momento, comparou o ritmo de atuação do Banco Central ao movimento de grandes embarcações.
“A gente se move mais como um transatlântico do que como um jet ski”, concluiu.
