Além das Manchetes: Onda azul torna Trump pato manco em semana péssima para exilados
Uma derrota acachapante de Donald Trump. Um tsunami. Um massacre do Partido Democrata contra o Republicano. Nada como um dia atrás do outro e uma semana no meio. Desde a vitória de Lula nas eleições, Trump vinha usando adjetivos desqualificadores para o resultado do pleito no Brasil. Como o candidato derrotado, Flávio Bolsonaro, fugiu no dia seguinte para os Estados Unidos, coube à imprensa americana e estrangeira, mais do que à brasileira, ficar espreitando não só o presidente, mas outros nomes do seu primeiro escalão, como Marco Rubio, para falar do assunto em conferências de imprensa.
Em suas falas, Trump, embora tenha aceitado a vitória de Lula e reconhecido o resultado das urnas, não perdeu a oportunidade de chamar as eleições brasileiras de muito estranhas, vergonhosas, com aparência de fraudadas e de desgraça (ok, disgrace, o que pode ser traduzido em outros termos). Pois bem, agora é a vez dele dizer o mesmo e coisas piores sobre as próprias eleições, o que já começara a fazer durante o processo de antecipação da votação pelos correios, o que lá pode. Obviamente os resultados serão, lá, como foram aqui pelos derrotados, desmentidos e objeto de ataques. Fracassaram os pedidos de Trump e os bilhões de dólares investidos pelas big techs nas eleições. Os eleitores não viram o nome de Trump na cédula. Se viram, votaram contra.
MAL, MUITO MAL, PÉSSIMO
Os primeiros resultados das eleições no início da noite já apontavam para uma metamorfose dessas que se tornam históricas já no durante. Nem pesquisas nem os primeiros números das urnas eram bons para Trump. E, consequentemente, também não eram para a trupe bolsonarista que há algum tempo corre para lá para se livrar de acusações na justiça brasileira, adotando a tese da perseguição, do exílio e do asilo político.
Com a virada de votos em prol dos democratas, fazendo o trumpismo perder a maioria apertada que tinha na Câmara e no Senado, obviamente a ICE, a polícia de imigração, não vai no dia seguinte perseguir Eduardo, Flávio, Paulo Figueiredo, Ramagem, Allan dos Santos e Silvinei Vasques. Mas que a vida em céu de brigadeiro do núcleo exilado do bolsonarismo vai mudar por lá, ah, deve, um tantinho que seja. Um analista americano fazia por volta da meia-noite no telejornalismo um prognóstico curioso a curto prazo para o trumpismo, segundo as urnas: “mal, muito mal, péssimo”.
Os votos da eleição de meio de mandato, as midterms, levaram para o Capitólio, aquele congresso que os republicanos insanos invadiram por lá também num janeiro antes do daqui, inspirado nele, inúmeros parlamentares com outra visão de mundo. Além deles, estarão agora em cargos de comando no país autoridades com poder e vontade política de fazer coisas diferentes dos caprichos de Trump anunciados no X e na Truth Social. Vontade, inclusive, de fazer perguntas diplomáticas e judiciais incômodas aos brasileiros que entraram nos Estados Unidos nos últimos anos e nos últimos dias, por caminhos não convencionais, já sem passaportes que permitissem entrada sem proteção.
SEM CHURRASCO NO TEXAS, DEU TALARICO
Flávio dormiu no sábado 24 sentindo-se eleito e, 24 horas depois, como lhe faltaram os votos para a condição, embarcou para os Estados Unidos de um Trump diferente do que vai presidir o país a partir de hoje. Quando do desembarque de Flávio and family, Trump tinha o Capitólio na mão, embora com margem pequena. Em seu segundo final de semana no país, a família cai para a condição de protegida de um presidente pato manco, o que se diz de um líder que está no posto mas com o poder escorregando das mãos.
Entre as vitórias abraçadas como suas pelo bolsonarismo exilado e anunciadas por Trump como demonstração de poder de acesso do grupo à Casa Branca, destaca-se o tarifaço, mesmo prejudicando a economia brasileira. De lá para cá, o empresariado renegociou diretamente com alguns setores e alguns recalcularam rotas com outros mercados estrangeiros, provocando, inclusive, inflação nos EUA, o que acabou gerando votos contra Trump nessas eleições. Se por aqui Lula quase perdeu a eleição por falta de picanha e cerveja, lá a falta de churrasco de carne premium na mesa dos texanos elegeu James Talarico, um evangélico democrata, e agora um fenômeno no país, por derrotar os republicanos. O Texas, tido como o coração dos republicanos. E onde hoje vive Eduardo Bolsonaro, desde 2025.
Por lá, a onda azul deve realinhar o ângulo pelo qual os Estados Unidos olham para o mundo e para os imigrantes. O conforto do exílio já não será o mesmo, pois a Casa Branca agora tem coisas mais urgentes para tratar no Salão Oval que não o desejo imediatista de transformar a América do Sul em quintal. Não foi uma boa semana para começar um exílio de onde se planejava liderar a oposição no Brasil. Marco Rúbio, agora, tem coisas mais urgentes com as quais se preocupar. E é hora de pegar a pipoca para ver os players das big techs ajustando os discursos após a surra que levaram dos cidadãos do país.
*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora do Curso de Jornalismo da UFBA - @maluzes / maluzes@gmail.com
