Bahia possui pelo menos 17 cientistas na lista internacional cientistas mais influentes do mundo; confira nomes
Por Ronne Oliveira
A Bahia continua representada no ranking internacional de cientistas influentes no mundo, elaborado a partir de indicadores de citação científica e publicado pela Elsevier/Scopus em parceria com pesquisadores da Universidade Stanford. Ao todo, o levantamento reúne 19 pesquisadores vinculados a instituições que atuam na Bahia.
Desse grupo, 17 são cientistas em universidades baianas. Os outros dois nomes estão associados à Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) e à Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), instituições que também integram a relação por seus vínculos institucionais.
A lista, elaborada pelo professor John Loannidis e sua equipe, foi publicada como um artigo na revista PLOS Biology. Ela inclui pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, com ênfase na presença de profissionais associados às universidades públicas estaduais e federais.
Confira os 19 pesquisadores vinculados a instituições que atuam na Bahia:
-
Dr. Marcos Pereira — Nutricionista, especialista em gestão Alimentos, Nutrição e Saúde na Universidade Federal da Bahia (Ufba);
-
Dr. Matheus Melo Pithon — Especialista na área de Odontologia na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb);
-
Dr. Mansueto Gomes-Neto — Fisioterapeuta especialista em pesquisa clínica na Universidade Federal da Bahia (Ufba);
-
Dr. José Patrício Bispo Júnior — Fisioterapeuta especialista em Saúde Pública na Universidade Federal da Bahia (Ufba);
-
Dr. José Cleiton Sousa dos Santos — Químico e especialista em Biociências Moleculares na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab);
-
Dr. Marcos Almeida Bezerra — Químico de formação, chegou a fazer licenciatura e se especializou em química ambiental; hoje atua na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb);
-
Dr. Federico Costa — Biólogo e especialista em Saúde Coletiva na Universidade Federal da Bahia (Ufba);
-
Dr. André Rodrigues Durães — Médico especialista em Epidemiologia na Universidade Federal da Bahia (Ufba);
-
Dr. Eraldo Medeiros Costa-Neto — Biólogo e especialista em Ecologia e Recursos Naturais na Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs).
-
Dra. Luiza Amim Mercante — Química e especializada em Materiais e Nanotecnologia na Universidade Federal da Bahia (Ufba);
-
Dr. Daniel Véras Ribeiro — Engenheiro e especialista em Engenharia dos Materiais na Universidade Federal da Bahia (Ufba);
-
Dr. Bruno Fonseca-Santos — Farmacêutico e especialista em Nanotecnologia e Biomateriais Universidade Federal da Bahia (Ufba);
-
Dr. Paulo Henrique Gonçalves Dias Diniz — Quimíco e especialista em análise de alimentos, fármacos e biocombustíveis na Universidade Federal do Oeste da Bahia (Ufob);
-
Dra. Milena Botelho Pereira Soares — Bióloga especialista em biofísica na Universidade SENAI CIMATEC;
-
Dr. Walter Nei Lopes dos Santos — Químico especialista em química analítica na Universidade do Estado da Bahia (Uneb);
-
Dr. André Wilson Machado — Odontólogo especialista em odontologia estética e fotografia dentária na Universidade Federal da Bahia (Ufba);
-
Dr. Franklin Riet-Correa — Veterinário especialista em Patologia Experimental e Comparada na Universidade Federal da Bahia (Ufba);
-
Dr. Mirco Solé Kienle — Biólogo especialista em Anfibios no ecossistema Mata com Araucária na Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc);
-
Dr. Carlos Dornels Freire de Souza — Fisioterapeuta especialista em Saúde Coletiva e Gestão da Saúde na Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF).
DESAFIOS PERSISTEM
Apesar da presença de pesquisadoras no levantamento internacional, a participação feminina entre os cientistas baianos incluídos na lista ainda é pequena: apenas duas mulheres integram o grupo. O Bahia Notícias (BN) procurou os cientistas e realizou uma série de entrevistas. Para a química Luiza Mercante, no entanto, essa realidade não deve ser um impedimento para a realização de um trabalho de excelência.
“Infelizmente, ainda existem desafios para as mulheres na ciência. Embora sejamos maioria nas universidades, isso não se reflete nas posições de liderança dentro da carreira científica. Às jovens cientistas, eu diria: é importante sermos realistas e reconhecer que as dificuldades sempre existirão. Apesar dos obstáculos, precisamos seguir firmes em nossos objetivos”, argumenta.
A bióloga Milena Soares, por sua vez, avalia que o cenário tem avançado e que, atualmente, as mulheres encontram condições mais favoráveis para atuar na ciência. Com contribuições significativas para a compreensão da doença de Chagas, a pesquisadora relembra a presença feminina em instituições de prestígio.
“Isso varia muito de área para área. As mulheres são maioria nas áreas da saúde, e hoje se busca uma maior igualdade na composição das instituições. Essa é uma política adotada pela Academia Brasileira de Ciências. Temos a honra de ter uma presidente nessa instituição, é evidente que ainda existem desigualdades. Mas, de modo geral, a sociedade vem trabalhando para que elas sejam reduzidas”, argumenta.
A trajetória das duas pesquisadoras evidencia que, embora a participação feminina na ciência tenha avançado, a conquista de espaços de liderança e o reconhecimento profissional ainda são desafios. Entre as dificuldades que persistem e as oportunidades que vêm sendo ampliadas, suas experiências reforçam a importância de continuar promovendo a equidade de gênero na produção científica.
Essa nova edição também reúne pesquisadores de diferentes instituições de ensino e pesquisa, ampliando a representação da ciência produzida no Nordeste. Na Bahia, há cientistas vinculados a instituições públicas, como a Universidade Federal da Bahia (Ufba), a Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e a Universidade Senai Cimatec, o que evidencia a diversidade da produção científica no estado.
O BN já havia entrevistado grande parte desses pesquisadores em uma edição anterior, destacando suas trajetórias e contribuições para a produção científica. Entre os nomes presentes nas relações de 2025 e 2026 estão pesquisadores vinculados à Ufba, à Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) e à Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs).
Confira gráfico por instituição de ensino:
Na maior federal do estado, aparecem novamente Mansueto Gomes-Neto, Federico Costa, André Rodrigues Durães, Luiza Amim Mercante, Daniel Véras Ribeiro e Franklin Riet-Correa. Na Uesb, permanecem Matheus Melo Pithon e Marcos Almeida Bezerra. Já na Uefs, o nome de Eraldo Medeiros Costa-Neto aparece nas relações.
Esse estudo busca identificar os cientistas com maior impacto global, considerando pesquisadores situados entre os 2% mais influentes de suas respectivas subáreas. A análise abrange 20 grandes áreas do conhecimento e 174 subdisciplinas.
LEIA TAMBÉM:
- Ufba lidera RUF 2026 na Bahia; Senai Cimatec se consolida melhor entre as privadas e Uesc retoma vice-liderança;
- Ufba lidera no estado e ocupa 71ª posição em ranking latino-americano; Uesc, Uefs, Uneb Unifacs também são citadas;
- Três universidades estaduais baianas e Ufba figuram entre as melhores do mundo no ranking THE 2027
EDUCAÇÃO NO NORDESTE
O ranking apresenta dois recortes distintos: um considera o impacto acumulado ao longo da carreira acadêmica, enquanto o outro avalia o desempenho em um ano específico. Dessa forma, o levantamento permite observar tanto a influência científica construída ao longo do tempo quanto a repercussão mais recente dos trabalhos publicados.
Foto ilustração: Ronne Oliveira e Arianne Marins / Bahia Notícias
Entre os mil pesquisadores mais bem posicionados no ranking global, a relação destaca dois vinculados a instituições nacionais: Rajender S. Varma, associado à Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e Martinus Theodorus van Genuchten, pesquisador sênior na área de física do solo vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Contudo, outros nomes figuraram posições de destaque para o Nordeste.
“Para mim, sempre é uma surpresa aparecer nessas listas”, conta ao BN Eraldo Costa, referência mundial em ecologia de recursos naturais, com pesquisas em áreas como a etnozoologia no interior do estado. Apesar de desenvolver trabalhos de ponta, o professor relata que precisa se desdobrar em diferentes funções, o que compromete o tempo dedicado à pesquisa.
“É uma surpresa, uma grande satisfação, mas também uma grande responsabilidade. O maior desafio é a questão dos recursos financeiros limitados. Ainda são necessários mais recursos do governo federal e do governo estadual. Eu destacaria também a dificuldade de infraestrutura e a necessidade constante de conciliar ensino, pesquisa, extensão e atividades administrativas”, afirma Eraldo Costa.
“Queria destacar que é importante uma retomada dos investimentos do estado em ciência e tecnologia. A gente acompanhou desde a fundação da Fapesb. Os recursos eram mais abundantes, não só em Salvador, mas também no interior, nas universidades estaduais e federais, e esses recursos vêm diminuindo bastante. O desenvolvimento não pode depender apenas de fundos federais”, alerta Milena Soares.
Para o professor Eraldo Costa, a Bahia reflete desigualdades que atingem o Nordeste como um todo. “A gente está na região Nordeste; essas dificuldades podem ser agravadas, por exemplo, pelas desigualdades históricas na distribuição de investimentos científicos. Então, a Bahia é preciosa em termos de biodiversidade, é rica em culturas humanas”, complementa.
Essas desigualdades começam ainda na graduação, etapa essencial para a maioria dos cientistas. De acordo com a 16ª edição do Mapa do Ensino Superior, publicada pelo Instituto Semesp em 2026, a Bahia ocupa a penúltima posição entre os estados brasileiros na proporção de jovens de 18 a 24 anos com formação no ensino superior. Segundo o levantamento, 13,47% dos jovens baianos possuem alguma formação nesse nível.
Veja em mapa no mapa nacional:
O Nordeste é a região brasileira com a menor proporção de matrículas no ensino superior em 2024, tanto na modalidade presencial quanto na educação a distância (EAD). Apesar disso, as universidades continuam concentrando parte expressiva das matrículas.
'PODEMOS FAZER MAIS'
Para o veterinário e professor Franklin Riet Correa, de origem uruguaia, a experiência no Nordeste foi fundamental para sua formação como cientista. Segundo ele, a região sofre um apagamento social, mas possui um povo fascinado pela curiosidade científica.
Ao BN o cientista narra que, desde que chegou à Paraíba, passou a trabalhar diretamente com produtores rurais e estudantes, incorporando à sua trajetória o conhecimento adquirido no contato com a realidade local.
“Eu cheguei do Uruguai e caí na Paraíba em 2002. Nunca aprendi tanto na minha vida quanto na Paraíba. Trabalhava com produtores que não sabiam ler ou escrever, mas falava com eles e aprendia com eles. Nunca aprendi tanto quanto com meus alunos e produtores, porque, como cientista, aprendi a realidade do país, aprendi aqui no Nordeste”, narra.
Foto ilustração: Ronne Oliveira e Arianne Marins / Bahia Notícias
Pesquisador de doenças parasitárias em animais e dos efeitos de plantas tóxicas sobre os rebanhos na Bahia entre os mais citados do mundo, ele destaca a importância da troca de experiências entre a ciência e quem vive no campo. "A universidade tem que olhar para o interior do estado, falar com os produtores e com as pessoas. trabalhar a indissociabilidade entre pesquisa, ensino e extensão".
No cenário estadual, 78,9% das matrículas estão na rede privada baiana, com predominância de faculdades, instituições que, em geral, têm menor participação na produção científica quando comparadas às universidades.
“É muito difícil fazer ciência em instituições privadas. Pelo que conheço na área de veterinária, essas instituições contratam professores para dar aula, e ponto. A maioria não está preocupada com isso, há exceções, com algumas privadas. A maior parte da produção científica está nas públicas. Mas, mesmo que as universidades públicas sejam melhores que as privadas, têm muitíssimo que melhorar”, afirma o especialista Franklin Riet-Correa.
O Mapa do Ensino Superior 2026 também aponta diferenças na distribuição das instituições por categoria administrativa. Entre as faculdades, predominam as privadas: são 1.745, contra 152 públicas, o equivalente a cerca de 11,5 instituições privadas para cada pública. Já entre as universidades, a distribuição é mais equilibrada, com 116 instituições públicas e 90 privadas, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
Apesar da predominância numérica das instituições privadas, estudos bibliométricos baseados em bases como a Web of Science, da Clarivate Analytics, indicam que as instituições públicas concentram a maior parte da produção científica brasileira.
Estimativas frequentemente citadas atribuem a esse segmento entre 90% e 95% das pesquisas nacionais, enquanto a participação das instituições privadas seria inferior a 10%. Essa diferença evidencia que a quantidade de instituições não corresponde necessariamente à sua contribuição para a pesquisa científica.
Foto ilustração: Ronne Oliveira e Arianne Marins / Bahia Notícias
Entre as instituições privadas com atuação em pesquisa e inovação está a universidade Senai Cimatec. “Isso é uma realidade. O Senai Cimatec não pretende ser uma grande universidade como são as públicas, mas pretende ser focado em tecnologia. Na área da saúde, trabalhamos com parcerias, seja com a Ufba ou com a Fiocruz na Bahia”, acrescenta Milena Soares.
Essas parcerias representam uma forma de diferentes setores da sociedade se comprometerem com o desenvolvimento da ciência de ponta. Ainda assim, o Estado continua sendo o principal agente de financiamento da ciência e da tecnologia. É o que apontam estudos recentes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da economista Mariana Mazzucato.
No Brasil, houve uma retomada dos investimentos em ciência e tecnologia durante o último governo Lula. Confira em dados:
METODOLOGIA DA LISTA
O levantamento se diferencia por priorizar o impacto das citações científicas, representado pelo chamado índice c, em vez de considerar apenas o volume de publicações. O cálculo reúne variáveis como a posição do autor no trabalho (primeiro autor, autor único ou último autor), o índice H, a coautoria e ajustes relacionados às autocitações.
Dentro da base de dados é possível realizar recortes distintos para avaliar o impacto ao longo da carreira acadêmica e o desempenho em um ano recente, reforçando a projeção internacional da produção científica desenvolvida por pesquisadores brasileiros.
Escola de Educação na Universidade Stanford | Foto ilustrativa: Reprodução / Google Street View
A base utiliza dados da Scopus até agosto de 2026, com métricas de citação consolidadas até o final de 2025. Sendo assim, funciona como um indicador do alcance internacional da pesquisa científica e permite observar a contribuição de universidades e centros de pesquisa brasileiros para o avanço do conhecimento em diferentes áreas.
Vale ressaltar que os dados utilizados nesta matéria não foram produzidos pelo BN. Os dados não apontam naturalidade dos cientistas, isto é, não como mapear onde cada um dos milhares nasceram. Portanto, há baianos atuando tanto em instituiições brasileiras quanto internacionais.
Essa classificação e a metodologia do levantamento foram fornecidas ao portal, que permanece aberto a manifestações, esclarecimentos por parte dos pesquisadores e das instituições de ensino e pesquisa mencionados.
