Marca Bahia Notícias Municípios

Notícia

Defesa Civil cobra acordo entre prefeituras e VLI para evitar interdição de ponte histórica

Por Francis Juliano

Foto: Reprodução / LT Drone Bahia

As obras de restauração, pintura e implantação da iluminação da histórica Ponte Dom Pedro II, que liga Cachoeira e São Félix, no Recôncavo baiano, estão paralisadas desde agosto.

 

O coordenador da Defesa Civil de Cachoeira, Pedro Erivaldo, aponta um impasse operacional gerado pela alteração nos decretos municipais de funcionamento e adverte para a necessidade de conclusão da manutenção estrutural.

 

DECRETO MUNICIPAL 
O estopim para a suspensão dos trabalhos da concessionária VLI, responsável pela Ferrovia Centro-Atlântica (FCA) onde a ponte está instalada, foi a redução do horário autorizado para as intervenções noturnas. Anteriormente, as equipes operavam entre 21h e 5h, de segunda a sexta-feira.

 

No entanto, novos decretos emitidos simultaneamente pelas prefeituras de Cachoeira e São Félix encurtaram essa janela para o período entre 23h e 5h.

 

Conforme explica o coordenador, a redução inviabilizou a execução das melhorias. Por se tratar de um monumento histórico tombado, acompanhado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a logística exige rigor técnico e preparação prévia.

 

"A VLI viu que não tinha condições de fazer esse restauro nesse tempo possível e paralisou as obras desde agosto. Obra de restauro é complicada, não é só chegar e fazer como em uma construção comum. O Iphan fiscaliza tudo. Para começar um dia de trabalho à noite, você precisa fechar a ponte, posicionar os equipamentos e leva de meia hora a uma hora só na preparação. Para liberar a ponte novamente às 5h sem atrapalhar o trânsito regional, gasta-se mais meia hora a uma hora recolhendo tudo", disse Erivaldo ao Bahia Notícias. 

 

Com o período de preparação e desmobilização consumindo até duas horas da nova janela noturna, o tempo útil de intervenção na ponte se tornou insuficiente para dar continuidade aos serviços. 

 

Embora etapas anteriores tenham substituído os antigos dormentes [peças] por chapas de aço na parte superior, Pedro Erivaldo acredita que a situação atual do equipamento ainda preocupa. Ele frisou que a etapa mais crítica da engenharia ainda não foi finalizada.

 

"Hoje não está uma ponte segura porque precisa fazer o restauro para a parte de baixo da ponte, ou seja, a estrutura e a questão dos pilares. Quando uma obra não é concluída, precisa se fazer alguma coisa. Se não fizer esse restauro por baixo da ponte, nós poderemos ter em breve diversas dificuldades, ou seja, a ponte pode ser paralisada", acrescenta Pedro Erivaldo.

 

A Ponte Dom Pedro II registra diariamente um fluxo tráfego intenso e diversificado. Por ela transitam desde trens de carga pesados da ferrovia privatizada até caminhões, caçambas, ônibus, carros de passeio, motos, bicicletas e pedestres, trânsito que ganha ainda mais intensidade em períodos festivos e feriados, quando motoristas buscam rotas alternativas. 

 

Para minimizar o desgaste da estrutura histórica enquanto as obras não recomeçam, a Defesa Civil e técnicos especializados recomendam rigor na velocidade dos veículos. "Segundo os técnicos de São Paulo que estiveram aqui, para a ponte ser bastante segura e ter uma durabilidade muito maior, tem que ter uma velocidade de no máximo 20 km/h dentro da ponte, principalmente para carros pesados, ônibus e caminhões", declarou. 

 

Superado o período eleitoral municipal, a Defesa Civil de Cachoeira planeja articular, até o final deste mês de novembro, uma reunião de emergência reunindo todos os atores envolvidos no impasse: a concessionária VLI, a prefeita de Cachoeira, o prefeito de São Félix e representantes do Governo do Estado da Bahia.

 

Ainda segundo o coordenador, o governo baiano já destinou cerca de R$ 3,2 milhões especificamente para o projeto de iluminação cênica da ponte, intervenção que também permanece suspensa devido ao congelamento das obras estruturais. 

 

Erivaldo disse também que caso haja consenso para o retorno da janela de trabalho original (das 21h às 5h), a VLI prevê um cronograma de cerca de sete meses para finalizar totalmente a parte estrutural dos pilares e a pintura. 

 

"Se continuasse esse mesmo horário das 21h às 5h, a concessionária terminaria o restauro e a ponte ficaria com um tempo de 20, 30, 40 ou 50 anos sem precisar de grandes manutenções, apenas de pequenos reparos. Queremos ver se há um 'acordão' entre todos os atores para dar prosseguimento", afirmou Pedro Erivaldo.

 

DÉCADAS DE MOBILIZAÇÃO 
O engajamento pela preservação do patrimônio não é recente. Pedro Erivaldo relembra que a mobilização popular em defesa do monumento começou no final da década de 1990, logo após o processo de privatização da malha ferroviária federal.

 

"Já vai fazer 30 anos que nós começamos a questão do SOS Ponte Dom Pedro II, desde 1997. São quase três décadas de luta e restauro. Aqui a gente faz um trabalho que não é só de Defesa Civil, é de cidadania", finalizou. 

 

A ferrovia administrada pela VLI teve o contrato de concessão recentemente renovado por mais dois anos, com proposta de se estender por mais 30 anos.

 

A proposta foi aprovada pela Agência Nacional de Transporte Terrestres (ANTT), mas foi questionada pelo Tribunal de Contas da União (TCU). O órgão cobra explicações do governo federal sobre porque manter a empresa e não fazer uma nova licitação.