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Após 14 anos, ex-policial acusado de atirar na cabeça da ex-namorada vai a júri nesta sexta em Salvador

Por Redação

Foto: Reprodução / Redes Sociais

O Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) vai julgar nesta sexta-feira (10) um ex-policial militar acusado de tentativa de homicídio contra a ex-namorada Jéssica Reis Ramos, crime ocorrido em 9 de junho de 2012. O réu, que à época era policial militar, também é acusado pela morte de um rapaz identificado como Jaime, que estava no local e não sobreviveu.

 

De acordo com a denúncia e o relato do advogado da vítima, Alexandre Dortas Sobrinho, o réu não aceitava o fim do relacionamento com Jéssica. Na noite do crime, ele teria levado a vítima para uma área escura atrás de um hotel em Ondina e desferido um tiro na cabeça da mulher.

 

Ao perceber a presença de outra pessoa, identificada como Jaime, o ex-policial também teria atirado contra ele, causando a morte do homem no local. A versão inicialmente apresentada pelo réu, segundo a acusação, era de que se tratava de uma tentativa de assalto frustrada, o que é contestado pela família da vítima e pelo Ministério Público.

 

A mãe de Jéssica, dona Cristina, concedeu um depoimento detalhado ao Bahia Notícias, sobre os acontecimentos que antecederam o crime. Segundo ela, o namoro entre o réu e sua filha começou quando Jéssica era menor, sem o conhecimento ou consentimento da família.

 

"Ela namorava com ele há seis anos e foi um namoro que eu não aceitei desde o começo. Eles começaram a namorar sem eu saber, sem o meu consentimento", relatou. Quando tomou conhecimento, dona Cristina disse ter sido contrária à relação: "Quando chegou ao meu conhecimento, que ele veio falar comigo, eu falei não. Porque eu conhecia ele, a nossa convivência foi de crescimento no mesmo bairro, e não era do meu perfil, do meu estilo, para namorar ela."

 

A mãe conta que cedeu após um conselho de uma pessoa próxima: "A pessoa que eu estava convivendo falou comigo: 'como é que você deixa ele namorar? Porque se você está dizendo não, eles vão continuar, eles não vão parar. E aí, que aconteça qualquer coisa, ele vai ser o responsável'." Dona Cristina afirma que nunca aceitou o namoro de coração aberto: "Tudo bem, eu deixei, mas sabe, de coração fechado. E aí foi o namoro, um namoro conturbado, eu nunca aceitando, sempre dizendo a ela que terminasse."

 

Sobre o comportamento do réu durante o relacionamento, a mãe descreveu um quadro de controle e ciúmes excessivos: "Ele era impulsivo. Ele tinha ela assim como um objeto dele, uma coisa dele que era dele. Ele queria mandar nela, não queria que ela tivesse amigo nenhum, nem amiga, proibindo ela de sair pros lugares. Sempre ali em cima dela, dando marcação." Ela relata que os amigos de Jéssica foram se afastando "por causa da violência dele, que todo jeito dele era atirando, voltando o revólver na cara dos outros."

 

A mãe também mencionou que o réu, por ser policial, frequentemente portava armas: "Ele era policial e só chegava lá com duas armas, e eu não queria isso dentro da minha casa. Foi tanto que ela ficava mais lá na casa dele, que era perto lá de casa."

 

Segundo o depoimento da mãe, Jéssica já havia terminado o namoro na época do crime: "Quando aconteceu isso no dia 9 de junho de 2012, eles já tinham terminado. E ele vinha insistindo em voltar a esse namoro." No dia do fato, o réu teria ligado chamando Jéssica para sair, mas ela recusou, dizendo "que não tinha mais nada pra conversar com ele, que não adiantava, que não ia ter volta". A vítima se arrumava para ir ao aniversário de um amigo.

 

Dona Cristina relatou que, momentos antes do crime, o réu conversava com seu irmão e estava armado. O irmão teria subido e perguntado a Jéssica se ela iria reatar o namoro, ao que ela respondeu que não. Segundo a mãe, o irmão relatou que o réu "estava muito descontrolado, muito nervoso, tava com arma na mão e disse que era pra falar com ela porque ele não ia se responsabilizar pelo que ele ia fazer". 

 

A mãe afirmou que, nos dias anteriores ao crime, o réu foi até sua casa em pelo menos duas ocasiões. "Eu já tava deitada e ele batendo na porta com violência forte. Aí eu abri a janela, era ele. Eu falei: 'o que é, rapaz? O que é isso?' Aí ele: 'ah, eu vim aqui falar com a senhora que eu não vou me responsabilizar pelo que eu vou fazer, pelo que vier acontecer'." No dia seguinte, segundo ela, ele voltou e disse a mesma coisa.

 

Sobre a dinâmica do crime, a mãe relatou o que soube posteriormente: o réu chamou Jéssica para conversar e ela foi com medo de que ele fosse até sua casa. Segundo a mãe da vítima ele "puxou ela, jogou dentro do carro e arrastou o carro em alta velocidade". O advogado da vítima complementa que o local do disparo foi na praia atrás de um hotel em Ondina, em meio à escuridão.

 

Após o crime, Jéssica foi internada em estado grave. A mãe relata que o réu tentou entrar na UTI por três vezes para, segundo sua convicção, "terminar o que ele começou": "Ele tentou por três vezes entrar na UTI, tentou por três vezes contra a vida dela, só não fez nada porque eu estava lá. Eu cheguei antes dele. Ele entrando escondido pela emergência, os amigos dele botaram ele pra dentro, porque pela portaria ele não podia passar."

 

A família também relatou perseguições após o crime. A mãe conta que precisou se mudar por orientação da delegada responsável pelo caso, mas mesmo assim sofreu intimidações. Medidas protetivas foram solicitadas, mas a mãe afirma que ele não as respeitava, aproximando-se a menos de 500 metros da residência.

 

O advogado da vítima informou que o réu chegou a ser preso, mas obteve alvará de soltura expedido pelo Tribunal de Justiça da Bahia. Ainda segundo ele, o réu 'perdeu a farda' em processo administrativo que já transitou em julgado. O advogado também afirmou que o réu nunca respeitou a medida protetiva, e que atualmente a vítima mora em outra cidade em razão da perseguição.

 

Sobre o estado de saúde atual de Jéssica, o advogado informou que ela é completamente cega de um olho e tem menos de 2% da visão no outro. A bala não foi retirada do cérebro, e a vítima sofre crises convulsivas. A mãe complementa: "No começo ela começou dando uma a duas crises; agora, quando ela dá, já chegou a dar 20 crises uma atrás da outra. É crise muito agressiva. Ela tem problema na coordenação motora, toma quatro medicamentos controlados fortíssimos."

 

Jéssica também tem problemas de fonoaudiologia e perdeu parte do crânio em decorrência das cirurgias. A mãe diz que a filha "praticamente vive dopada" até o efeito dos remédios passar, e que precisa ser segurada para não cair. A família vive do Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS) recebido por Jéssica em razão de sua incapacidade laboral, adquirida pela bala alojada na cabeça.

 

O advogado Alexandre Dortas Sobrinho esclareceu que, na época dos fatos, o crime de feminicídio não existia no Código Penal brasileiro, tendo sido instituído posteriormente pela Lei 13.104/2015. Por isso, o réu responde por tentativa de homicídio e pelo homicídio consumado do rapaz Jaime. O tribunal do júri está marcado para esta sexta-feira, 10 de abril.

 

Ao ser perguntada sobre o que espera do julgamento, dona Cristina respondeu: "Não é nem por vingança, é justiça. Porque eu acho injusto o que ele fez com minha filha e como ele já fazia com outras. Essas outras não tiveram coragem de relatar, de procurar o bem-estar delas, mas a minha filha eu procurei."

 

Ela afirmou ter sido ameaçada para que parasse de levar o caso adiante, mas disse que não parou. "O que ele fez com a minha filha, ele detonou a vida dela. Ele não matou ela pra tirar de mim como ele queria. (...) O que eu quero, o que eu espero em Deus, que é o único que eu me apeguei esse tempo todo, é justiça para ele saber que não se faz isso nem com um animal, dirás com ser humano. E eu avisei a ele: quando não der certo o namoro de vocês, deixe ela. Deixe ela que ela vai ficar com a família dela, pronto, cada um segue seu caminho. Mas ele criou uma obsessão, ele se achava o dono dela, que ele era o dono e tinha que fazer o que ele queria."