Promotora baiana relata assédio e violência racial enquanto corria na orla de Salvador: “Você é preta e não quer elogio?”
Em um relato feito através das redes sociais na terça-feira (20), a promotora de justiça da Bahia, Lívia Sant’Anna Vaz, compartilhou uma experiência de assédio seguido de violência racial ocorrida durante uma corrida matinal na orla de Salvador.
Segundo o relato, ainda durante o aquecimento, enquanto caminhava com uma amiga, Lívia foi abordada por um homem que, vindo por trás, começou a proferir obscenidades. Ao perceber que as palavras eram dirigidas a ela, a promotora questionou: "É comigo o que você está falando?". A reação do homem foi imediata respondendo: "Você é preta e não vai aceitar um elogio meu? Qual é o problema em fazer um elogio?"
Veja relato:
A promotora fez questão de contextualizar que não estava entrando no mérito das classificações raciais brasileiras, mas destacou que a fala do agressor explicitou a motivação racista do ato. "Aqui não cabe mais a pergunta: 'Ah, será que se fosse uma mulher branca, ele teria reagido assim?' Ele disse: 'Você é preta'. Ou seja: eu posso, eu estou autorizado a lhe impor um elogio e você tem que aceitar", afirmou.
Após a negativa e a afirmação de Lívia de que não o conhecia, o homem seguiu adiante, mas continuou a perseguição de forma ameaçadora, voltando-se para trás repetidas vezes e proferindo palavras para as duas mulheres. O ápice da agressão, segundo a promotora, ocorreu quando ele desferiu um soco violento em uma lixeira presa a um poste. O gesto foi interpretado como uma demonstração de força bruta e uma intimidação clara.
Lívia Sant’Anna vinculou a experiência a uma reflexão mais ampla sobre a naturalização da violência contra as mulheres. Ela citou um caso recente divulgado pela pesquisadora Débora Diniz, envolvendo a atriz Paola Oliveira, que recebeu dezenas de buquês de um desconhecido em sua casa. "Não é galanteio, não é elogio, é assédio, é violência", ressaltou a promotora.
Ao final do desabafo a promotora também fez um apelo direto à sociedade: "Eu só queria fazer minha corrida, começar a minha semana bem, mas eu precisei vir aqui para pedir que nós deixemos de naturalizar todo e qualquer tipo de violência contra as mulheres. Infelizmente, nós, mulheres, não estamos seguras em lugar algum". O relato serve como um alerta contundente sobre a dupla vulnerabilidade enfrentada por mulheres negras no espaço público.
