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Diretora do Filhas de Gandhy relata dificuldades com patrocínio para bloco: "Tratadas como se tivessem começado ontem"

Por Bianca Andrade

Foto: Afoxé Filhas de Gandhy

Em 2027, as Filhas de Gandhy convidam o público a mergulhar nas histórias e riquezas guardadas pelo oceano através do 'Canto de Ajé', música interpretada por Márcia Short que conta a história do enredo das "meninas", que formam o primeiro afoxé composto exclusivamente por mulheres no Brasil e na Bahia.

 

Mas para que o canto consiga ecoar não só no circuito da folia, como nos quatro cantos do Brasil, a riqueza não pode ser apenas a cultural; ela necessita ser financeira, e este continua sendo um dos maiores desafios da associação em seus 48 anos de existência.

 

Em entrevista ao Bahia Notícias, a dançarina, cantora e produtora cultural Silvana Magda, diretora executiva e artística do afoxé fundado por Gliceria Vasconcelos, falou sobre a luta das Filhas de Gandhy para colocar o bloco na rua a cada Carnaval.

 

"São 47 anos, e ser tratada como se tivesse começado ontem é uma falta de sensibilidade e de respeito. As pessoas não conseguem entender que, em 1979, em pleno regime militar, você tem um grupo de mulheres que desafia uma sociedade machista, na sombra dos Filhos de Gandhy, desafiando um conceito social. Naquele período, as mulheres já tinham pouquíssimas opções de se expressar. Somos uma instituição que sempre passou por desafios, mas, independentemente disso, nós continuamos fazendo arte e chegamos até aqui. É essa força de Gliceria Vasconcelos, presidente do afoxé, uma mulher de 82 anos, que nos faz continuar. E queremos que a juventude se conecte com isso."

 

Silvana Magda, diretora executiva e artística do Afoxé Filhas de Gandhy | Foto: Afoxé Filhas de Gandhy

 

Silvana, que vive nos Estados Unidos e divide o tempo com o compromisso profissional em Salvador, fez um comparativo de como funciona a situação fora do país:

 

"O método de se trabalhar nos Estados Unidos, o patrocinador, ele fala de produtos. Se você tem produtos cujo maior consumo é de mulheres, você procura ter pessoas divulgando essa marca que se comuniquem com esse público. Nós somos consumistas silenciosas. Se eu sei que aquilo ali é um produto para mulher, eu vou querer ver uma mulher divulgando aquilo. Por aqui a gente não cobra essa postura. Se você tem um produto que é um sapato e vende aquilo para um público especificamente feminino, por que não associar a marca a um projeto como o Afoxé, a Banda Didá e outros grupos que levam a força feminina para as ruas?", questionou.

 

Para se ter uma ideia, em 2024, o bloco saiu na avenida com uma dívida feita pelo afoxé em 2023 para conseguir desfilar com as mais de 700 associadas no Carnaval de Salvador.

 

A diretora executiva do Filhas de Gandhy apontou ainda uma outra desvantagem do bloco: a falta de espaço para a realização de ensaios, algo que ajudaria na arrecadação de verba, além de publicizar o afoxé, existente há 48 anos.

 

Foto: Afoxé Filhas de Gandhy

 

"A gente precisa ter ensaios, e como a nossa sede é pequena, tem escadas e isso dificulta bastante o acesso, nós não temos um espaço. Agora nós estamos em busca disso: que a gente possa ter um espaço onde possamos criar ensaios para que as associadas e as pessoas que queiram conhecer a instituição possam estar participando."

 

Silvana reconhece que estar fora do país dificulta para dar continuidade à busca de empresas com interesse em patrocinar o Afoxé Filhas de Gandhy. No entanto, em 2026, a produtora cultural antecipou a vinda para o país na esperança de ter algo encaminhado para a folia do ano que vem.

 

"O que eu estou tentando fazer, para mim, é bem complicado, porque eu não moro no Brasil. Então, eu vim mais cedo agora, porque o meu objetivo é esse. Eu quero trazer [mais patrocínios] para estar com a gente no Carnaval. É um mercado que para mim é novo. Eu tenho alguns amigos, o Marrom [Osmar Marrom] é um deles, a Dib Kraychete, que me conectam com as pessoas, mas é difícil."

 

Para o ano de 2027, as Filhas de Gandhy apostam na economia azul, algo que conversa com o enredo do afoxé. A questão é: como transformar essa pauta em algo interessante para quem investe no Carnaval visando apenas o comércio e o faturamento?

 

"A gente procura mostrar, educar e conscientizar as pessoas de que a gente tem que ter uma responsabilidade social. Não é só fazer Carnaval. Quando a gente fala de economia azul, as pessoas normalmente ligam à limpeza, mas existe um fator que é base, que são as nossas marisqueiras e pescadores. Elas são a base da economia azul. E essas mulheres não são vistas; elas nem passam pelo imaginário", pontua Silvana.

 

 

A diretora artística do Afoxé Filhas de Gandhy afirma que, no bloco, elas terão voz, assim como outras figuras que passam invisíveis durante a folia. O projeto do afoxé também vai além dos seis dias de festa na avenida. Segundo Silvana, a ideia é que o projeto 'Canto das Praias' consiga trazer um olhar tanto para a economia azul quanto para a importância do Filhas de Gandhy para a cultura baiana.

 

"A gente está trazendo essa ala de marisqueiras, né? Eu estou nessa luta e a gente vai fazer uma coisa muito especial, que está em andamento agora, que é o Canto das Praias. Se a gente não conseguir os ensaios, nós vamos fazer essa coletânea de praias com o que temos, para as pessoas que se comprometem com a questão social, ambiental, e fazer isso."

 

FILHAS NA FESTA, APESAR DOS PESARES
As dificuldades não são um impeditivo para as Filhas, que seguem fazendo festa a cada Carnaval. Para 2027, o desfile está confirmado para o dia 6 de fevereiro, no Circuito Batatinha (Pelourinho), e no dia 8 de fevereiro, no Circuito Dodô (Barra-Ondina).

 

Ao Bahia Notícias, Silvana revelou que o interesse do público pelo Afoxé Filhas de Gandhy cresceu nos últimos anos. "Isso é fato, porque a mudança veio. Eu trago uma renovação onde as pessoas se sentem pertencentes", afirmou.

 

Segundo a produtora, a mudança da característica visual foi um dos principais atrativos para o público feminino. O Afoxé Filhas de Gandhy abandonou a fantasia que se assemelhava à dos Filhos de Gandhy para trazer um toque mais feminino no visual e conversar mais com o seu público.

 

"A gente não tem que vestir um lençol; somos mulheres e procuramos estar belas. Então, essa identidade visual foi uma das primeiras preocupações, porque eu acho que a mulher tem que se sentir bonita. Ela não precisa estar dentro de uma tradição que acompanha o grupo masculino."

 

Foto: Afoxé Filhas de Gandhy

 

Silvana também pontuou que explicitar as diferenças e explicar como funciona o Afoxé Filhas de Gandhy se tornou essencial para que mais pessoas se sentissem atraídas pelo bloco.

 

Um dos pontos que mais explicitam a fala de Silvana Magda é o fato de ter mulheres tocando atabaque e tambor no bloco. No Candomblé e em outras religiões de matriz africana, o toque dos atabaques e tambores é restrito aos homens.

 

"Foi fundamental explicar que o Filhas de Gandhy não é um candomblé, não é religião. Nós somos um grupo de Carnaval, onde a base é o Ijexá, que vem das raízes do candomblé. Existe um respeito, mas nós somos um grupo de Carnaval."

 

Fundado em 1979, o bloco Afoxé Filhas de Gandhy faz a festa para além do Carnaval. A associação civil sem fins lucrativos promove ações educacionais e sociais para um coletivo de mulheres através de cursos, oficinas e seminários ao longo de todo o ano. Ao todo, cerca de 800 mulheres são atendidas nos projetos do Filhas de Gandhy, que faz questão de passar a sabedoria ancestral para a frente.

 

Foto: Afoxé Filhas de Gandhy

 

E é ela que irá para a avenida em 2027, através do tema 'O Reino de Ajé Olokun: A Realeza do Ouro Abissal'. O enredo escolhido para o ano que vem propõe um mergulho simbólico nas profundezas do oceano para revelar a majestade de Olokun, divindade das águas profundas, e a força de Ajé, senhora da prosperidade.

 

A narrativa conecta ancestralidade, ciência e natureza ao abordar o petróleo como “Ouro Negro”, energia solar ancestral guardada sob o solo oceânico.   

 

A proposta estética do desfile trará um contraste marcante entre o branco tradicional das Filhas de Gandhy e o brilho iridescente que remete ao petróleo sob a luz do sol. O mistério do pré-sal será representado como uma armadura sagrada que protege os tesouros das profundezas. "A nossa história precisa ser contada com respeito, mas também com a alegria vibrante que nos define", afirma Silvana.

 

O passaporte está à venda no site oficial do Afoxé Filhas de Gandhy por R$ 400.