Habeas Copos celebra 48 anos de bloco com fortalecimento do circuito Sérgio Bezerra
Por Eduarda Pinto
O bloco Habeas Copos, originado a partir do antigo bar Habeas Copos na região da Barra, celebrou nesta quarta-feira (11), em seu desfile de pré-Carnaval, seus 48 anos de folia momesca em um circuito que leva o nome de seu fundador, Sérgio Bezerra.
O bloco, que realiza seu tradicional coquetel na Associação Atlética da Bahia, próximo à região do Porto da Barra, desfilou pelas ruas da orla turística por volta das 23h, com uma banda de sopro e percussão — modelo defendido por seus organizadores e reproduzido pelas marchinhas e bloquinhos que desfilam no circuito de Fanfarras desde 2013, quando o trajeto foi oficializado na folia. Trajeto este que vai do Farol da Barra até o Morro do Cristo.

Sérgio Bezerra, fundador do Habeas Copos. Foto: Waltemy Brandão / Bahia Notícias
Ao BN, Sérgio destacou que “todo ano é uma preocupação muito grande em perenizar esse circuito como sendo o único circuito acústico do Carnaval de Salvador, mantendo a tradição das fanfarras”, conta.
Entre os foliões do bloco estava Afonso Leiro, de 50 anos, que tem a história da sua vida totalmente entrelaçada ao Habeas. Morador da região da Barra, ele narra que seu primeiro carnaval de rua foi aos dois anos de idade, ao lado do pai, no início do bloco.
“A minha relação começa com o meu pai, que já saía, e quando eu tinha um ano e meio, ele ficou na porta do percurso para ver o retorno do Habeas, que antigamente saía do bar do Habeas [antigo estabelecimento na Rua Marquês de Leão, na Barra], fazer o retorno na Marquês de Caravelas e voltava às cinco da manhã, e me levou no colo, porque nesse dia ele não pôde ir [junto com o bloco]”, relata.
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Afonso Leiro, folião do Habeas Copos, e sua esposa. Foto: Eduarda Pinto / Bahia Notícias
Para Leiro, a manutenção da festa é a garantia do pertencimento do carnaval à população local. “Todos os anos eu vinha com ele, ele já faleceu e eu continuo vindo. Acho que mais pela tradição do bairro, que o Habeas tem uma tradição com o bairro. Ele está muito relacionado com a Barra. Sem o Habeas, não tem um carnaval de rua, perde a identificação por ser o bloco mais antigo do bairro”, defende.
O mesmo ponto vista é observado por Cristina e Luís Hereda, de 64 e 47 anos. Cristina relata que é foliã do Habeas desde sua fundação e para Luís os temas debatidos pelo Habeas por meio de seus homenageados são o principal legado do bloco.
“A cada ano ele [o bloco] traz alguma coisa para inflamar a nossa sociedade, porque o Carnaval não é só alegria, o Carnaval também é resistência”, afirma Luís. “O carnaval vem para isso, é questão de cultura, é livre, é questão de você se fantasiar, é questão de você vivenciar, é questão de você sentir, é liberdade”, afirma.

Foto: Eduarda Pinto / Bahia Notícias
Este ano, o bloco homenageia o COMCAR, o Conselho Municipal do Carnaval e Outras Festas Populares de Salvador, órgão colegiado do qual fazem parte as entidades representativas carnavalescas. Desta forma, a intenção é homenagear toda a cadeia produtiva do carnaval soteropolitano.
E com a longevidade e influência do Habeas, novos blocos de rua foram surgindo e passaram a integrar a programação do pré-Carnaval de fanfarras em Salvador. Alguns deles se destacam pelo tamanho e popularidade.
AS GRANDE FANFARRAS
Entre os principais blocos que desfilaram no circuito Sérgio Bezerra nesta quarta-feira (11), três chamaram a atenção. O primeiro deles é o Mulheres no Comando, que mistura a diversão e lazer do Carnaval com a pauta social da inclusão e defesa das mulheres.
A organizadora do bloco, Lua Couto, conta que o bloco chega ao seu décimo ano de realização em formato exclusivamente feminino. Com a fantasia de policiais, as folionas do Mulheres no Comando formaram um “batalhão” em defesa da vida e combate ao feminicídio.

Foto: Waltemy Brandão / Bahia Notícias
“Estamos aqui por todas que não puderam estar. Lutando por nenhuma a menos, que essa é a nossa causa. Além de Carnaval, é luta, é grito. Já perdemos muitas e a gente não quer mais nenhuma. Então hoje é um dia de muita emoção. É um bloco que é um coletivo de mulheres unidas, somos todas irmãs”, afirma.
Lua conta ainda que, este ano, o bloco desfilou com cerca de 600 mulheres. “A gente faz doação de fantasia para as mulheres em situação de violência doméstica, vítimas de situação de violência doméstica, e elas estão aqui se sentindo lindas, empoderadas, maravilhosas, sabendo que lugar delas é onde elas quiserem”, reforça.
Outro bloco que chama atenção, dessa vez pela animação e tom familiar, é o Contaminados pela Picuinha. Quem conversou com o Bahia Notícias foi o presidente, Wilson Mota. Ele conta que o bloco atual é o fruto da união entre dois “blocos amigos” das fanfarras soteropolitanas.

Foto: Eduarda Pinto / Bahia Notícias
“O ‘Contaminados pela Picuinha’ começou como ‘Picuinha’ apenas e nós tínhamos amigos que tinham um bloco chamado ‘Contaminados’, daí juntamos e se tornou o ‘Contaminados pela Picuinha’. Já tem 10 anos que a gente sai aqui nesse circuito. A gente saía com carrinho de cafezinho e hoje o Bloco tem 250 componentes”, revela o organizador.
Para ele, a manutenção do circuito é importante para a preservação do carnaval de rua em Salvador. “Esse dia aqui é fundamental porque é dia de família, isso é família”.
No mesmo formato de criação, por meio de um grupo de amigos, também esteve presente o bloco Sabidolândia, formado exclusivamente por homens. Deivison, um dos produtores do bloco, conta que a demanda por um “vale night” de Carnaval entre amigos se tronou uma festa oficial em 2015, tendo e tornado um bloco em 2019.

Foto: Waltemy Brandão / Bahia Noticias
“Na verdade, foi um grupo de amigos da gente que se reuniu. A gente queria brincar um carnaval, só que o único dia para a gente brincar um carnaval, que tivesse todo mundo disponível, era quarta-feira. Na maioria das vezes todo mundo viajava e a gente não se encontrava mais, então até hoje a quarta-feira é o único dia que a gente pode se encontrar para se reunir”, conta.
Ele revela ainda que “o que era uma brincadeira com 25 amigos, hoje está em torno de 350 pessoas”, com perspectiva de crescimento. “E a gente está querendo, no ano que vem, colocar mais umas 200 pessoas a mais, porque foram muitas fantasias esgotadas e tem muita gente procurando fantasia”, destaca.
O fundador destaca ainda que, para ele, a quarta-feira possui uma atmosfera especial. “A quarta-feira da fanfara é uma quarta-feira de muita alegria, que a gente consegue reviver os carnavais anteriores, ter essa emoção, sem muito som, só a fanfara e o sopro. E é muito bom, consegue trazer a filha ou a esposa, uma família reunida”, finaliza Deivison.
