Composição - quanto pior, melhor. Será?

Nossa música ficou meio conturbada nesses últimos dois meses. Fatos realmente desagradáveis envolvendo algumas bandas de pagodes baianas povoaram o nosso noticiário, provocando uma avalanche de manifestações calorosas em tudo quanto é lugar. De textos exaltados, e até preconceituosos, nas redes sociais, a falsos profetas babacas dizendo que sabiam que isso ia acontecer, culpando a tudo e a todos pelos problemas, deu de tudo.
Mas, independente de todos os discursos acalorados e inflamados que aconteceram por conta do vacilos dos nossos artistas, como um assunto puxa o outro, voltou a se falar muito sobre o nível das nossas letras e, em cima disso, quais os destinos da nossa música, mediante as falhas de condutas que aconteceram.
Bem, não vou eu aqui ficar falando sobre as falhas das bandas, pois não vou julgar ninguém, mas, dentro desse fato todo, e da multiplicação dos culpados, uma dúvida à parte me veio: nossos compositores de hoje estão piores do que antes?
É fato, e não é de hoje, que o estilo e a forma de escrever dos nossos compositores vem mudando. Se pegarmos do meio dos anos oitenta, quando da explosão da música baiana, até o presente, veremos que houve uma evolução das letras e da poesia das nossas composições. Mas com essa evolução, nomes antes procurados pela qualidade com que compunham tanto letra e melodia, e que faziam a diferença em uma obra fonográfica, começaram a ser substituídos aos poucos por meros compositores desconhecidos, poetas de rimas fáceis.
Letristas do ritmo axé como: Jorge Zarath, Dito, Dalmo Medeiros, Pierre Onassis, Vevé Calazans, Jau, que a época era Jauperi, ou ainda Gilson Babilônia e Alain Tavares, uma das duplas mais atuantes dos anos noventa, dois gênios, autores dos primeiros grandes sucessos da Banda Eva com Ivete Sangalo, isso em falando da galera do axé, e do pagode: Felipe Escanduras, Beka Vieira, Dulei, Jota Teles, Wastinho, e os cantores compositores Thierry Curinga, Márcio Victor, dentre outros, ou foram ou estão sendo preteridos aos poucos pelo “poeta” das letras fáceis e passageiras, feitas sem nenhum senso, ou interesse.
Tendo dito isso, posso afirmar que nada vai mudar, essa revolução dos mais saudosos em tentar dizer que a música está ruim, e que as letras estão cada vez piores, serve de alerta, mas não condiz com o que a juventude acha e quer. E como bem sabemos, a juventude é quem dita as regras. Bom seria se pudéssemos trazer certas formulas musicais de volta, mas infelizmente o que deixamos de perceber é que as regras do jogo mudam sempre.
Ficar dizendo que a letra do pagode é ruim, que incita ao uso de drogas ou ao sexo explicito, e colocar qualquer deslize das bandas desse gênero como forma de justificar o que foi dito é bobagem e demagogia pura. A evolução se deu, inclusive em se falar de temas antes tão cabeludos como sexo e drogas. O que aconteceu foi que a guerra desenfreada pela audiência nos meios de comunicação, principalmente da mídia radiofônica, fez com que o nivelamento fosse feito por baixo, sem critério, somente pensando em audiência. E esse pequeno controle do que era feito e colocado ao ar, foi perdido a muito tempo.
Olha leitor, se serve de opinião, quando for ouvir uma música, seja axé, pagode, arrocha, ou qualquer rítmo da sua preferência, procure saber o nome do compositor. Além de você poder conhecer mais um pouco sobre a obra que você estará ouvindo, poderá do seu jeito e da sua vontade começar a separar, na sua lista musical, o tal joio do trigo.
Luis Ganem
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