Brecha na nova regra? Naturalização pode reduzir impacto do limite de estrangeiros da CBF para a dupla Ba-Vi; entenda
Por Thiago Tolentino
A redução gradual do limite de jogadores estrangeiros relacionados por partida no futebol brasileiro começa a valer oficialmente a partir de 2027. Paralelamente à mudança aprovada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) nesta semana, parte dos atletas que atualmente ocupam vagas destinadas a estrangeiros reúne condições previstas pela legislação brasileira para solicitar a naturalização.
Atualmente, cada clube pode relacionar até nove estrangeiros por partida. O limite será reduzido para oito em 2027, sete em 2028, seis em 2029 e cinco em 2030. A mudança não limita o número de atletas estrangeiros contratados ou registrados pelos clubes, apenas quantos podem ser relacionados para um jogo.
O cenário também impacta diretamente Bahia e Vitória. Atualmente, o Tricolor possui nove estrangeiros no elenco profissional, enquanto o Rubro-Negro conta com seis. Entre os 15 jogadores, cinco apresentam, a partir de informações públicas, tempo de atuação no país ou condições pessoais previstas pela legislação para a redução do prazo necessário à naturalização.
Para efeito da norma, um atleta nascido fora do país deixa de ocupar uma dessas vagas caso obtenha a nacionalidade brasileira e tenha a nova condição registrada.
O exemplo mais recente é Walter Kannemann. Nascido na Argentina e no Grêmio desde 2016, o zagueiro concluiu o processo de naturalização em 2026 e deixou de ser contabilizado como estrangeiro.
A Série A também possui jogadores que não entram nessa conta por já terem nacionalidade brasileira desde o nascimento ou por vínculos familiares. Jorginho, do Flamengo; Maurício, do Palmeiras; Matheus Reis, do Fluminense; Carlos Coronel e Rafael Tolói, do São Paulo; e João Costa, do Cruzeiro, nasceram no Brasil, apesar ds pais de outras nacionalidades. Niclas Eliasson, do Internacional, nasceu na Suécia, mas é filho de mãe brasileira.
COMO FUNCIONA A NATURALIZAÇÃO
Pela legislação brasileira, a naturalização ordinária exige, em regra, quatro anos de residência no país, além de capacidade civil, comunicação em língua portuguesa e ausência de condenação penal, ressalvados os casos de reabilitação. O Ministério da Justiça exige ainda documentação que comprove o período de residência considerado no processo.
Existem situações em que o prazo pode ser reduzido. O período cai para um ano para quem possui filho brasileiro, mantém casamento ou união estável com brasileiro ou é originário de país de língua portuguesa.
Também há previsão de redução para dois anos em situações como prestação de serviço relevante ao Brasil ou recomendação por capacidade profissional, científica ou artística. Nesses casos, a avaliação cabe ao Departamento de Migrações da Secretaria Nacional de Justiça.
O tempo de atuação no futebol brasileiro, contudo, não comprova sozinho que o jogador atende ao requisito de residência exigido no processo. A situação depende do histórico migratório e da documentação individual de cada atleta.
Por isso, os períodos citados nesta reportagem funcionam como referência para identificar jogadores que podem se enquadrar nas regras, sem significar que todos estejam imediatamente aptos ou tenham interesse em solicitar a nacionalidade brasileira.
SITUAÇÃO DO BAHIA
O Bahia chegou a nove estrangeiros em 2026, número que corresponde ao limite atualmente permitido em uma mesma partida. O elenco conta com Alejo Véliz, Guido Herrera, Lautaro López, Mateo Sanabria e Roman Gómez, da Argentina; Marco Moreno, da Espanha; e os uruguaios Michel Araújo, Kike Olivera e Nicolás Acevedo.
Com a redução para oito em 2027, o Tricolor já teria que deixar pelo menos um deles fora de cada súmula caso mantenha a atual composição do elenco.
Dois jogadores, entretanto, aparecem em situações que podem alterar essa conta: Nicolás Acevedo e Michel Araújo.
Acevedo chegou a Salvador em dezembro de 2022 e construiu praticamente toda a passagem recente pelo futebol brasileiro no Bahia. Quase quatro anos depois, além da relação esportiva com o clube, o uruguaio constituiu família na capital baiana. Seus dois filhos, Valentino e Santino, nasceram na Bahia.

Foto: Maurícia da Matta / Bahia Notícias
Michel Araújo tem uma trajetória diferente. O uruguaio teve uma primeira passagem pelo Fluminense entre 2020 e 2021, antes de ser emprestado ao Al-Wasl, dos Emirados Árabes Unidos.
Ele retornou ao Brasil em junho de 2022 e teve o nome novamente registrado pela CBF em julho daquele ano. Desde então, permaneceu no futebol brasileiro, passando por Fluminense e São Paulo antes de chegar ao Bahia. A atual passagem do meia pelo país, portanto, já supera quatro anos.
Esse período não permite afirmar automaticamente que Michel está apto à naturalização, porque a legislação considera a situação de residência do estrangeiro e não apenas seu vínculo profissional com clubes brasileiros.

Foto: Maurícia da Matta / Bahia Notícias
SITUAÇÃO DO VITÓRIA
O Vitória possui atualmente seis jogadores considerados estrangeiros: os argentinos Emanuel Brítez, Tomás Pochettino, Emmanuel Martínez e Diego Tarzia, o português Rúben Ismael e o uruguaio Nacho Laquintana.
Pelo número atual, o Rubro-Negro continuaria dentro do limite de oito estrangeiros em 2027 e de sete em 2028. Os seis jogadores igualariam o teto previsto para 2029 e ultrapassariam em um o máximo de cinco estabelecido para 2030, caso todos permanecessem no elenco.
Dentro do atual grupo, Brítez, Martínez e Rúben Ismael apresentam situações que se encaixam nos períodos utilizados pela legislação como referência.
Emanuel Brítez chegou ao futebol brasileiro em julho de 2022, quando foi contratado pelo Fortaleza. Até aquele momento, o defensor havia desenvolvido toda a carreira em clubes argentinos. O zagueiro permaneceu no país desde então e se transferiu para o Vitória em 2026. Dessa forma, já acumula mais de quatro anos de atuação contínua no futebol brasileiro.
Assim como ocorre com Michel Araújo, do Bahia, a trajetória profissional indica o cumprimento do período esportivo, mas a possibilidade formal de requerimento depende da data considerada pelas autoridades migratórias e dos demais requisitos exigidos.

Foto: Maurícia da Matta / Bahia Notícias
Emmanuel Martínez também completou quatro anos no Brasil em 2026. O argentino desembarcou em Belo Horizonte em agosto de 2022 para defender o América-MG, após passagem pelo Barcelona de Guayaquil. Mais tarde, transferiu-se para o Fortaleza e, posteriormente, para o Vitória, onde é pilar no meio-campo da equipe, ao lado de Baralhas.
Desde a chegada ao América-MG, Martínez permaneceu no futebol brasileiro. A confirmação sobre eventual direito imediato de solicitar a naturalização, contudo, também depende de seu histórico migratório.

Foto: Maurícia da Matta / Bahia Notícias
Já o volante Rúben Ismael está em uma situação distinta dos companheiros argentinos. O atleta é português e chegou ao Vitória em julho de 2025, depois de construir toda a carreira profissional em Portugal. Seu contrato com o Rubro-Negro vai até o final de 2028.
Por ser originário de um país de língua portuguesa, Rúben pode ser enquadrado na hipótese que reduz para um ano o período mínimo de residência exigido para a naturalização ordinária. O jogador já ultrapassou um ano de atuação no Brasil. Ainda assim, a concessão da cidadania depende do cumprimento das demais condições estabelecidas pela legislação.

Foto: Maurícia da Matta / Bahia Notícias
Em um cenário no qual os três adquirissem a cidadania brasileira e o restante do elenco fosse mantido, o Vitória passaria de seis para três jogadores contabilizados como estrangeiros.
Outro jogador do Vitória pode entrar nesse grupo a partir de 2027. Tomás Pochettino chegou ao Brasil para defender o Fortaleza no início de 2023 e permaneceu no futebol nacional até acertar com o Vitória em 2026. Considerando apenas a trajetória esportiva, o argentino completará quatro anos no país no início da próxima temporada.
Diego Tarzia e Nacho Laquintana chegaram mais recentemente ao futebol brasileiro e, com base no histórico público de suas carreiras, ainda não alcançam o período ordinário de quatro anos.
OUTROS CLUBES TAMBÉM POSSUEM CASOS
O Brasileirão possui 159 atletas considerados estrangeiros, de 26 nacionalidades, segundo levantamento atualizado da Série A. A Argentina lidera a relação, seguida por Uruguai, Colômbia, Paraguai e Equador.
Entre jogadores com longas passagens pelo Brasil estão Gustavo Gómez, Joaquín Piquerez e Flaco López, do Palmeiras; Mathías Villasanti, do Grêmio; Germán Cano e Yeferson Soteldo, do Fluminense; Jonathan Calleri, do São Paulo; Gabriel Mercado, do Internacional; além de Erick Pulgar e Guillermo Varela, do Flamengo.
O Flamengo possui ainda dois casos em que movimentos pela cidadania brasileira já foram tornados públicos: Arrascaeta, que atua no país desde 2015, e Agustín Rossi.
Confira abaixo a lista com todos os estrangeiros do Brasileirão 2026 encaminhados para o processo de naturalização:

Tabela gerada por Inteligência Artificial
