Tratamento intensivo hospitalar supera canetas emagrecedoras na redução de peso e preservação muscular, diz pesquisa
Por Victor Hernandes
Emagrecer com mudança de hábitos reduz significativamente os impactos na perda de massa magra em comparação com as canetas emagrecedoras, que se popularizaram nos últimos anos. Um estudo realizado na Bahia apontou uma eficácia maior no tratamento hospitalar para obesidade grave, na comparação com as medicações. O levantamento, acessado pela reportagem, mostrou que a redução de peso durante 24 semanas chegou a uma taxa de 20 a 22% e superou a semaglutida (princípio ativo do Ozempic), que no período de 68 semanas registrou uma perda de 15%. Enquanto isso, a perda de massa magra foi até 13 vezes menor para quem não usou os injetáveis.
O processo de internamento ficou à frente também da Tirzepatida (princípio ativo do medicamento Mounjaro) em 72 semanas, que obteve 21% de perda. A pesquisa foi feita com pacientes do Hospital da Obesidade e publicada na revista PLOS ONE.
A pesquisa acompanhou pacientes submetidos a uma dieta de baixa caloria e mudanças intensivas no estilo de vida. Os resultados indicaram que tanto períodos de três quanto de seis meses de internação apontaram reduções drásticas no peso, gordura corporal e riscos cardiovasculares.
De acordo com o estudo, foi visto também uma queda de 36% no percentual de gordura em pacientes com obesidade grau II e III que passaram pelos tratamentos na unidade de saúde, ficando acima do que foi perdido no uso do Ozempic e Monjauro, que ficaram com 19% e 34%, respectivamente.
Na composição da perda massa magra comparada a gordura, pacientes que optaram pela internação perdem muito menos massa muscular. Na internação, apenas 1/8 (12%) do peso perdido é massa magra, contra 1/3 (33%) na Semaglutida e 1/4 (25%) na Tirzepatida.

Arte: Alana Dias/ Bahia Notícias
PERDA DE MASSA MUSCULAR
Os dados do estudo indicaram ainda uma perda de massa muscular maior com o uso das canetas comparado com o tratamento. O índice ficou em 10% com o Ozempic e 11% com o Monjauro, enquanto que a perda de massa magra em tratamentos ficou entre 7% e 8%.
Em entrevista ao BN, o médico endocrinologista e coordenador médico do Hospital da Obesidade, Cristiano Gidi, explicou que a perda de massa magra nos pacientes internados foi até 13 vezes menor do que a perda de gordura, enquanto nos tratamentos com canetas, a perda de peso é proporcional entre gordura e músculo.
“Normalmente, quando é feito qualquer processo de emagrecimento que não é acompanhado de um tratamento especializado, o normal é que a pessoa perca mais ou menos a mesma quantidade [de peso]. Se a redução de peso não for feita da forma correta ou natural, o corpo não saberá de onde está sendo tirado a energia. Então, será retirado a energia do músculo e também da gordura. Com isso, o paciente acaba perdendo massa muscular numa velocidade semelhante”, disse.
De acordo com o médico, a “abordagem transdisciplinar” com aporte nutricional adequado e exercício físico personalizado permite preservar a massa muscular e perder apenas gordura.
“É um dado que apenas comprova a eficácia da abordagem multidisciplinar, ou como a gente gosta de dizer no Hospital da Obesidade, transdisciplinar, porque as especialidades se conversam. É feito um aporte nutricional adequado. Você consegue fazer para aquele paciente um exercício físico personalizado e, ao mesmo tempo, na intensidade e quantidade correta. Então, com o trabalho feito da forma correta, você consegue preservar a massa muscular e o paciente só perde a gordura”, explicou.
O médico afirmou ainda que as canetas emagrecedoras são instrumentos importantes, mas não são “soluções mágicas” e devem ser usadas com acompanhamento adequado para evitar a perda de massa muscular.
“Incluímos também quando necessário o uso da caneta. Não somos contrários ao uso do produto. Porém, se o uso não é feito da forma correta, acompanhado de uma alimentação adequada acompanhado de atividades físicas, existe um grande risco de se perder massa muscular e daqui a algum tempo essa massa vai fazer muita falta, já que no processo de envelhecimento, a pessoa perde força e funcionalidade muscular. Isso vai ser um dano para a qualidade de vida muito grande. A medicação pode ser uma ferramenta, sim, mas em alguns momentos e para alguns perfis de pacientes. Não é a solução mágica para tudo”, observou.
Segundo o especialista, em alguns momentos da dieta, o profissional orienta que o paciente internado não use a caneta para se alimentar melhor e fazer mais atividade física. “É um tratamento muito mais complexo do que simplesmente parar de comer. É se alimentar bem, comer da forma correta”, comentou.
O médico afirmou que o tratamento intensivo com internação permite que o paciente com obesidade severa faça uma perda de peso de qualidade, perdendo gordura e preservando a massa muscular.
“Realizamos o tratamento intensivo, um tratamento de imersão onde o paciente passa o dia todo se alimentando bem, fazendo exercícios, fisioterapia e reabilitação. Isso permite que o paciente tenha uma alimentação adequada permitindo que ele faça uma perda de peso de qualidade. É uma perda de peso que ele reduz gordura, mas não perde ou perde muito pouca massa muscular proporcionalmente”, concluiu.
A avaliação acessada pelo BN apresentou ainda melhorias significativas em marcadores metabólicos, como glicose e colesterol, além de uma queda acentuada em indicadores inflamatórios.
PERFIL
No perfil, homens e pacientes mais jovens conseguiram resultados mais rápidos. No entanto, o modelo multidisciplinar do tratamento se mostrou eficaz para ambos os sexos e diversas faixas etárias. Eles apresentaram uma resposta maior, alcançando reduções de 23,6% do peso e 45,3% da massa gorda em 6 meses, além de atingirem as metas de perda mais rápido do que as mulheres.
Pessoas com menos de 60 anos tiveram uma redução de peso e IMC superior a 21,8%. Já os idosos registram 19,8% e conseguem preservar melhor a massa muscular esquelética durante o processo. O estudo contou com o Hospital da Obesidade, localizado em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), e com o Departamento de Ciências da Vida da Universidade do Estado da Bahia (Uneb). Os números foram coletados de prontuários médicos de pacientes hospitalizados entre outubro de 2016 e outubro de 2022
O artigo foi publicado em 2 de janeiro de 2025 e começou com uma amostra de conveniência de 1.151 indivíduos com obesidade grave. No entanto, cerca de 295 pacientes que não possuíam dados laboratoriais ou de bioimpedância completos foram excluídos do documento. A análise final incluiu 856 pacientes.
Desses, 777 pacientes apresentaram dados completos no marco de 3 meses de tratamento e 402 pacientes apresentaram dados completos aos 6 meses.