À sombra da eleição de Salvador

Coincidência, não mais do que coincidência, diversas vias de Salvador amanheceram com outdoors do comunicador Mário Kertész nesta terça-feira, anunciando uma estranha entrevista que fará com o jornalista Sebastião Nery, já que ele freqüenta, constantemente, a Metrópole com bons e curiosos comentários. Justo no dia em que, deste espaço, informei e analisei as adiantadas negociações na área da oposição para que MK seja candidato único do agrupamento a prefeito de Salvador.
A placa publicitária que, de resto, tinha como único significado divulgar a imagem do comunicador, como o próprio outdoor denuncia pelo destaque, apenas confirma e carimba, dando fé, à informação do provável candidato do PT, Nelson Pelegrino, sobre a possibilidade de um pleito plebiscitário para a Prefeitura. De outro modo, o principal articulador da candidatura Kertész que, se candidato for (e por ora é) integrará o PMDB se tudo se ajustar com as demais legendas - especialmente DEM e PSDB -, tem à frente o ex-ministro Geddel Vieira Lima.
O entendimento do ex-ministro é outro. Não bate com o de Pelegrino. Para ele, o caminho da oposição é o da união, mas julga que, dificilmente, o PT conseguirá unir as legendas que formam hoje o arco de aliança do governador Jaques Wagner. Entende Vieira Lima que plebiscito não acontecerá porque alguns partidos apresentarão pretendentes, como o PCdoB (com Alice Portugal), possivelmente o PSB (com Lídice da Mata) e o PDT (com o eterno e sempre frustrado pretendente deputado Marco Medrado), o PP, de Mário Negromonte, além de outras legendas que o ex-ministro não nomina.
Até este ponto, há lógica no que se articula. Porque ou os oposicionistas se unem ou sucumbem, não somente em 2012, mas nas eleições gerais de 2014. A eleição municipal poderia ser, de acordo ainda com Geddel, um mostruário ou uma antecipação do que poderá acontecer na sucessão de Jaques Wagner. O governador não quer, com justa razão, tratar da sucessão agora. Outros querem, como um dos nomes que se inclui dentre os muitos possíveis. O exemplo a que me refiro está em José Sérgio Gabrielli, que parece em pleno movimento. Ele tenta descortinar, com reuniões, votos antes de apresentar a produção do óleo do pré-sal da Petrobrás que comanda. O resultado é um visível mal-estar dentro do PT. O executivo da estatal está demonstrando, em termos de votos, uma fome de anteontem. Rompe uma regra básica em política, a que desaconselha a precipitação.
Os oposicionistas reúnem diversos argumentos para a união entre eles de modo a se qualificarem para a eleição municipal: Alguns deles: 1- passarão ser um pólo de atração política; 2- construirão uma base facilitadora à conquista do voto de Salvador, cuja densidade populacional dificulta qualquer campanha; 3- terão um instrumento de capital importância para facilitar a comunicação com o eleitor: tempo, muito tempo para propaganda eleitoral. De fato, os três partidos juntos (outros participariam) somariam um formidável espaço na mídia eletrônica - televisão e rádio. São fatores determinantes para o processo eleitoral, a não ser que surja um fenômeno político (a essa altura impossível) que, dispondo de pouco tempo, encante o eleitor.
O que se projeta, ainda relatando o pensamento oposicionista, é que a tendência é discutir-se Salvador a fundo, a sua gestão, a sua realidade e as suas soluções possíveis. Até aí nada demais porque em toda eleição é a mesmíssima coisa. Todos prometem transformações miraculosas, vendem sonhos e mentiras e desabam, quando se elegem, diante das dificuldades de uma cidade de três milhões de habitantes, sufocada pela falta de projetos urbanos qualificados e envolvida em muitos vícios. De todas as capitais importantes do País, seguramente é a mais pobre e carente.
Mudando o cenário do município para o Estado, concordam que a partir das eleições de 2012, como acontecerá com praticamente todos os governadores em segundo mandato, a tendência é a diminuição do poder. O encanto de atração do governo se esvai, a não ser que o petista de Jaques Wagner venha ser uma exceção contrapondo-se ao declínio inexorável. Assim como agregou, no seu auge, muitos adesistas, esses mesmos partidos e políticos que procuraram a sombra do poder para se lambuzarem nos seus interesses, podem iniciar, mais adiante, um processo de diáspora. É o retorno da matilha à planície a espera do que virá à frente. Especialmente no interior. Com a dispersão surgem as críticas que antecedem (é sempre assim) à traição.
Mais. A eleição de Salvador, com um candidato do PMDB, principal partido de sustentação da governabilidade de Dilma Rousseff e de sustentação do poder petista (leia-se Lula) para as eleições de 2014, inibirá um confronto com conotação nacional na Capital baiana. Assim, Dilma Rousseff e Lula tenderão a ficar de fora, à distância, deixando que os baianos se acertem, se entendam ou se desentendam. Diante desse panorama, será necessário que Wagner utilize todas as suas qualidades, já comprovadas, de articulador para organizar a estrutura das suas forças. Por ora, ele pretende se candidatar a deputado federal, de sorte a ficar de mãos desatadas justamente para conduzir o processo.
Quando se elegeu em 2006, todos sabiam, com antecedência, que seria ele o representante oposicionista, porque já fora candidato em 2002, quando perdeu para Souto. Faria o recall, mas teria ao seu lado, o que fez com maestria, a cola parceira de Lula. Apostou no milhar certo. Repetiu a dose em 2010. E em 2014, o que será? Entram no mosaico novos valores, novos fatores, novas circunstâncias e novos atores. Assim como ele era candidato antecipadamente declarado por direito adquirido, agora ele não tem à sua frente nenhum nome assim. Na verdade, sob esse aspecto, o que tem pela frente não é uma solução, mas sim um problemão.
* Coluna de Samuel Celestino publicada no jornal A Tarde desta quinta-feira (4).
