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Boipeba investe no desenvolvimento do turismo, mas luta para não perder essência de tranquilidade e segurança

Por Rebeca Menezes

Velha Boipeba | Foto: Rebeca Menezes / Bahia Notícias

“Você sente que é diferente”. O lema usado pelo Trade turístico de Boipeba, uma das ilhas ocupadas do município-arquipélago de Cairu, traduz o esforço de construir uma experiência em comunidade. As praias e a integração com a natureza são um espetáculo à parte, mas os números ainda estão aquém do potencial que o destino pode alcançar. Só que o desafio que se vislumbra é: qual estratégia seguir para garantir, antes do hype projetado, que a chegada de mais turistas não será proporcional à perda do que Boipeba ainda tem de mais sagrado - a paz e a segurança.

 

A preocupação é válida. Outros destinos - inclusive baianos - passaram pelo mesmo embate, e muitos deles perderam. Por lá, se anda tranquilamente com itens de valor na mão, é possível caminhar de madrugada sem riscos e os índices de criminalidade são baixíssimos. Um diferencial cada vez mais difícil de encontrar. Além disso, o potencial de uma região turística envolve outros fatores, que se destacam ainda mais quando o referencial é uma ilha, com espaço geográfico limitado. Especulação imobiliária, logística, sustentabilidade, saneamento básico, treinamento da mão-de-obra… elos de uma corrente que envolvem tanto o setor público quanto o privado.

Foto: Rebeca Menezes / Bahia Notícias

 

O assunto não é consenso entre os moradores da ilha. O caso mais emblemático que traduz a preocupação com o progresso é o resort de luxo projetado para a região da Praia dos Castelhanos, uma das mais procuradas. Idealizado por José Roberto Marinho e Armínio Fraga em um terreno que ocupa 20% da Ilha, o empreendimento sofreu uma intervenção do governo federal que determinou a suspensão da autorização do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema) para a construção do megaempreendimento. Os responsáveis pelo projeto argumentam que as edificações e intervenções diretas ocupariam menos de 2% da propriedade total de 1.651 hectares adquiridos, com supressão de vegetação estimada em cerca de 0,17% da área.

 

Entre os boipebanos, as preocupações se dividem. Por um lado, há quem vislumbre a atração de um turista mais qualificado, com retornos garantidos para a comunidade de Cova da Onça, e um investimento maior com a sustentabilidade da construção, dada a visibilidade da obra e de seus sócios. Por outro, a chegada de empresários tão influentes cria o receio de intervenções além do que está no papel.

 

Mesmo sem a primeira estaca batida, porém, o debate já provocou avanços. Um dos pontos de questionamento é a construção de um aeródromo na área e a proteção das aves da região - as quais você ouve todos os dias, independentemente do ponto em que estiver da ilha. Quantas são? Não se sabe… até agora. Um grupo criou um Observatório para catalogar todas as espécies de aves que habitam a área. A ideia é ter a real dimensão da importância da fauna, repleta de garças, guarás e colhereiros.

Foto: Alex Lemonis/Divulgação

 

AQUI SE PRODUZ, AQUI SE COME
Mas é preciso dar um destaque especial a um outro elo importante para o turismo: a gastronomia de Boipeba. Com restaurantes dos mais variados espalhados por seus vilarejos, a região consegue apresentar pratos - dos mais simples aos mais elaborados - que não deixam a desejar em nada em comparação com grandes cidades.

 

E um detalhe faz essa receita ainda mais especial. Muitos dos insumos que chegam aos pratos são produzidos lá mesmo, pelos próprios moradores. Do Dendê do Silvio, que se tornou um ponto de visitação dos turistas, à farinha produzida com a mandioca plantada por lá, os produtos são vendidos para os restaurantes da ilha. E tudo fresco, assim como a Pescada Amarela ou a Cavala, peixes mais encontrados na região, ou os mariscos colhidos nas praias, e até os camarões criados ali ao lado, nos vizinhos do Baixo Sul.

Foto: Alex Lemonis/Divulgação

 

CONEXÃO COM O ARQUIPÉLAGO
O processo de desenvolvimento do setor também passa por uma conexão maior com outros pontos do arquipélago. Na última semana, a Associação Comercial e Empresarial de Cairu (Acec) apresentou a marca conjunta de Morro de São Paulo e Boipeba. Com o conceito “Escolha sua maré”, a ideia é ampliar as formas de conexão entre os destinos, envolver as agências de turismo e promover as ilhas como visões diferentes de um mesmo mundo. Se, por um lado, Morro se consolidou como um caminho para quem gosta de agito, Boipeba surge como o descanso merecido logo ali ao lado.

 

Enquanto isso, a sede de Cairu quer se ver incluída nesse desenho de novos roteiros. Com o centro relegado a uma visão administrativa, a gestão municipal passou a desenvolver formas de abrir as portas para o turista que gosta de praia, mas também de história. Com o "Revitaliza", promoveu a desapropriação de terrenos abandonados em áreas estratégicas, entregando, em concessão, a quem queira investir por lá. O grupo já conseguiu, por exemplo, R$ 10 milhões, via Lei Rouanet, para criar o Museu de São Benedito - Santo que é homenageado na maior festa católica da cidade.

 

Mas a "menina dos olhos" do projeto é conseguir um investidor para o Convento e Igreja de Santo Antônio, um dos monumentos mais importantes da arquitetura religiosa e do barroco no Brasil. Construído em 1654, na segunda vila de descobrimento mais antiga do país, o convento recebia em seus 18 quartos os freis franciscanos que geriam a igreja. Agora, querem transformá-lo em um paradouro (espécie de pousada, mas com uma experiência imersiva na história da edificação).

Foto: Alex Lemonis/Divulgação

 

Por outro lado, o progresso também vem sob cobrança. Após a prefeitura anunciar o aumento da Tarifa de Uso do Patrimônio do Arquipélago (Tupa) de Morro, e o início da cobrança em Boipeba, foi obrigada a recuar e adiá-la. A exigência do próprio trade foi, antes, garantir mais estrutura para quem chega - justificando, assim, uma taxa que poderia inicialmente afastar novos visitantes. E a obra já começou, revitalizando o Atracadouro de Boipeba e transformando o atendimento de quem chega a Morro de São Paulo, em resposta a uma das principais críticas dos turistas.

Foto: Rebeca Menezes / Bahia Notícias

 

A partir das reformas e do avanço do trabalho em conjunto, Cairu quer entrar de vez no mapa do turismo da Bahia e do Mundo, com tudo que o arquipélago tem a oferecer.

 

A CARA DA ILHA
Fui convidada pela Associação Comercial e Empresarial de Boipeba (Ascoeb) para conhecer a experiência de viver - ou melhor, sentir - o que a ilha tem de mais real. Do que vi nos últimos dias, a virada de chave para resguardar a energia de Boipeba pode ser exatamente compreender que até mesmo o “privado” por lá tem um jeito diferente: com sotaque e sorriso no rosto. Talvez seja isso que traduza a “aura” inexplicável que cobre o lugar.

 

 

É a Nega, da barraca dos Castelhanos, mostrando ela mesma os nibs de cacau que acabou de preparar, para acrescentar à sua cocada (servida na folha da amendoeira). Ou o Silvio do Dendê, que conta rindo como levou picadas de cobra ao tirar os cachos do dendezeiro, e que de cabeça supõe que tira muito pouco de lucro do que produz, mas que continuará trabalhando para fazer o azeite de dendê mais puro, porque é sua paixão.

 

 

É Alexandre, do quadriciclo, que preenche os caminhos até as praias com explicações sobre a ilha e com histórias dos mais antigos - inclusive a ladeira em que ninguém sobe à noite, com medo de assombrações. É Gleide, que abriu as portas da própria casa pra receber amigos e clientes. É Dido, que aproveitou a rescisão do emprego num hospital em Salvador para buscar seu sonho, e que hoje anda pelas ruas divulgando cada um dos que fazem daquele lugar um canto especial do planeta.

 

 

O futuro bate à porta de Boipeba, com a reforma do seu Atracadouro, a pressão pela criação de mais leitos e a esperança de que mais gente conheça o destino - de preferência, em breve. Agora, é torcer para que, quando ele virar presente, todos tenham o direito de sentir a energia ancestral desse paraíso.

Foto: Rebeca Menezes / Bahia Notícias

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