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No 'novo normal', empresários não sabem se voltam a reabrir negócios em Salvador

Por Matheus Caldas

Foto Darío G. Neto/Agência Sebrae de Notícias

A pandemia do novo coronavírus concedeu modificações profundas em Salvador. As noites no Rio Vermelho e no Imbuí ficaram silenciosas, os becos da Avenida Sete se esvaziaram, e uma situação sui generis se estabeleceu na maior capital do Nordeste. Com a crise sanitária, parte das atividades comerciais ficou parada por mais de quatro meses e, na última segunda-feira (31), teve início o último ato de reabertura do comércio: a fase 3 autorizada pela prefeitura (entenda aqui). Contudo, mesmo com a liberação, qual o futuro destes empreendimentos? O Bahia Notícias procurou os donos de pequenos, médios e grandes negócios da cidade, pessoas diretamente impactadas pela crise econômica.

 

O dia 10 de agosto marcou o gatilho para o início da fase 2 de reabertura das atividades comerciais em Salvador. Nesta etapa, foi autorizada a reabertura de bares, restaurantes, academias de ginástica e salões de beleza – com restrições de funcionamento (entenda aqui).

 

Mesmo com a liberação, a Choperia Salvador, bar situado no boêmio bairro do Rio Vermelho, ainda não sabe se voltará abrir. De acordo com um dos sócios do espaço, Fábio Dias, ainda há uma análise sobre como outros estabelecimentos do setor vão se comportar após a reabertura.

 

“Estamos avaliando os primeiros dias de reabertura. Até porque, pelo que temos visto e pesquisado, muitos lugares que fizeram essa reabertura tiveram que fechar, porque houve o aumento no número de casos”, pondera, em entrevista ao Bahia Notícias.

 

Ainda de acordo com Dias, outras nuances são levadas em consideração para a retomada da choperia, como a recontratação de funcionários, reposição de equipamentos que foram vendidos para saldar dívidas e o pagamento de alguns outros poucos débitos. “A gente está com este receio de fazer o investimento e ter que fechar novamente. Ainda tem a questão do aluguel... Então, todas essas coisas estão sendo avaliadas para ver se realmente a gente vai reabrir”, explica.

 

Choperia Salvador fez campanha em maio pedindo ajuda para vencer crise

 

Problema semelhante vive a proprietária do restaurante Casa das Coisas, em Piatã, Claudia Partenostro. Ela conta que, apesar de seguir funcionando, teve que adotar um novo modelo de funcionamento no estabelecimento.

 

O local funcionava apenas aos finais de semana, mediante reserva antecipada. Com as medidas de fechamento estabelecidas pela prefeitura, ela precisou mudar a rotina: foi preciso adotar o sistema de delivery. “Durante a pandemia, meu movimento no final de semana caiu demais mesmo com delivery. Eu nunca tinha trabalhado desta maneira. Inicialmente, só aos fins de semana, comecei a fazer meio de semana também”, conta.

 

“Eu senti a necessidade de fazer um cardápio mais simples durante a semana para poder entregar e compensar o prejuízo do final de semana. E aí, durante a semana, trabalho com entrega programada”, acrescenta.

 

Ela explica que, ao modificar a maneira de funcionamento, conseguiu chegar perto do que faturava normalmente. Mas, ainda assim, foi abaixo do que ela ganhava no pré-pandemia. Mas ela frisa que também só conseguiu equalizar o orçamento após cortar outros gastos - ela precisou tirar a filha da escola e das aulas de natação. “Se eu continuasse na mesma rotina que eu tinha, não conseguiria estabilizar”, crava.

 

Diferente de Fábio e Claudia, Samuel Andrade não teve a mesma sorte no seu negócio, uma academia que ficava no bairro da Boca do Rio. Mesmo com a liberação da prefeitura, ele não conseguiu lidar com a crise financeira que começou antes da pandemia. “Eu tive que fechar principalmente por conta da pandemia. O movimento já não vinha tão bom por conta das mega academias. Aqui na região tem três e vai abrir mais uma. Perdi uma média de 30 a 50 alunos para cada uma que abriu”, lamenta.

 

“Depois veio verão, Carnaval. Assim que volta do Carnaval já não entra dinheiro. Em março começou a pandemia, teve que fechar, teve a quarentena. Por isso fiquei sem condição de reabrir. Preferi fechar”, emenda.

 

Ele explica que demitiu a maior parte dos funcionários e só manteve um, que recebeu salário através do benefício emergencial do governo federal. Além disso, contribuiu para o agravamento da crise a inutilização dos aparelhos da academia, que passaram a precisar de manutenção.

 

“Para reabrir, alguns colegas donos de academia gastaram de R$ 5 a R$ 6 mil. Queimaram quatro esteiras minhas. Um colega tinha 15 esteiras e 13 queimaram. Muitos outros equipamentos pararam de funcionar e seria um gasto muito grande”, diz.

 

Outro problema que ele identificou seria o gasto com equipamentos de higiene e proteção para funcionários e clientes. “Meu ex-sócio está gastando R$ 1 mil de álcool por mês. O custo está muito alto, e a maioria dos alunos que está indo treinar já pagou plano anual. Ou seja, está tendo o mesmo custo e gasto com funcionário e contas, mas o dinheiro que está entrando não é suficiente. Está entrando metade ou menos que a metade do que se ganha normalmente”, conta.

 

Casa das Coisas passou a vencer por delivery para sobreviver

 

MEDIDAS DO PODER PÚBLICO
Para Samuel, donos de pequenos negócios deveriam ter tido mais amparo dos governantes. “Para conseguir alguma coisa era empréstimo. E empréstimo, de qualquer forma, você tem que pagar. Era muita burocracia. Alguns donos de academia conseguiram auxílio. Eu não consegui nada, além do pagamento do funcionário que mantive”, reclama.

 

A Casa das Coisas não necessitou de crédito. Contudo, Claudia relata que amigos reclamaram da burocracia para conseguir auxílios. “Eu acho que poderia melhorar nesse sentido para ser mais fácil o acesso”, opina.

 

Fábio, por sua vez, também crê que faltou à prefeitura e ao governo do estado apoio aos pequenos empresários. Contudo, ele pondera e diz que os Executivos soteropolitano e baiano agiram de maneira correta no tratamento da crise. “Eu acho que a gente teve sorte até de ter aqui na cidade e estado dois governantes que se uniram para fazer uma série de medidas. Muitas funcionaram. Minha crítica fica mais em torno da ajuda financeira às pequenas empresas. Eu pelo menos não vi e não soube de nada. Mas não sei até que ponto o governo e a prefeitura conseguem dar essa ajuda. Não sei até que ponto isso depende mais do governo federal”, analisa.

 

Para conter os prejuízos da crise, a prefeitura municipal anunciou um pacote de 101 ações de reativação da economia. Os tópicos vão do reordenamento de espaços de ambulantes à renegociação de débitos municipais (leia mais aqui).

 

Para Claudia, além da intervenção do Poder Público, faltou consciência da população para conter a disseminação da Covid-19. “Eu acho Neto e Rui agiram certo, embora acho que a gente já poderia estar numa situação mais livre se as pessoas respeitassem. O problema é que eles colocaram algumas regras que não foram cumpridas. Eu estou aqui perto de Itapuã e é um negócio absurdo. Você percebe que lá ninguém tem noção de nada. Parece que nada está acontecendo”, observa.

 

DADOS DAS ASSOCIAÇÕES
Para o presidente da Associação Comercial da Bahia (ACB), Mário Dantas, os governos municipal, estadual e federal deveriam ser mais eficientes no socorro ao setor empresarial. “Aqui a prefeitura já fez um programa de refinanciamento dos tributos municipais. O governo aqui da Bahia ainda não fez e o governo federal, que é o principal e precisa fazer urgente, ainda não fez”, reclama.

 

No entanto, segundo ele, a prefeitura e o governo estadual vem sendo assertiva nas medidas. “A ACB montou um grupo de trabalho e, naquela linha de, em vez de jogar pedras, vamos catar as pedras e construir um muro que possa proteger a todos, formulamos um plano de retomada responsável que previa o acompanhamento do índice epidemiológico R e ocupação das UTIs. Efetivamente, o governo e a prefeitura adotaram em partes a medida de abertura em etapas como nós propusemos”, destaca.

 

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes na Bahia (Abrasel-BA), Luiz Henrique do Amaral, a preocupação, no momento, é que os estabelecimentos do setor não se recuperem da crise. “Essa equação, por mais que estejamos operando uma retomada em níveis satisfatórios do ponto de vista de atividade, não responde a viabilidade empresarial de cada operação. “Do modo que está não está havendo recuperação, mas um maior endividamento. Além do desafio da retomada e do quadro caótico, temos ainda que enfrentar essa readequação das condições ambientais de negócio para conseguir voltarmos a ter resultado”, preocupa-se.

 

Apesar de não haver dados consolidados a nível oficial, Amaral revela que monitoramentos da Abrasel-BA apontam que 1/3 dos bares e restaurantes podem fechar ou ter fechado em função da pandemia. Inicialmente, a estimativa que isso acontecesse para 1/4 dos estabelecimentos. 

 

Dantas ainda acrescenta que todos os setores sofreram com a crise, com agravamento para o comércio, turismo e hotelaria, e bares e restaurantes. “Uma frase que marcou essa pandemia é que nós não estamos todos no mesmo barco, mas na mesma tempestade. Uns em barcos mais estruturados, outros em barcos mais frágeis. Uns mais ao centro da tempestade, outros mais ao largo da tempestade. Mas todos estão nesta tempestade. Então, todas as empresas sem exceção sofreram com a pandemia”, ressalta.

 

DADOS DA CRISE
Se a Abrasel estima que 1/3 dos bares e restaurantes pode fechar, no geral houve o encerramento de 5.169 empresas na Bahia entre os meses de abril e julho deste ano, conforme levantamento divulgado nesta semana pela Junta Comercial do Estado da Bahia (Juceb), órgão vinculado à Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE). Contudo, segundo o órgão estadual, o índice é 31% menor no comparativo com o mesmo período de 2019 - apesar disto, outras 6.783 empresas abriram em território baiano no mesmo período deste ano.

 

Já a nível nacional, segundo levantamento elaborado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), 6,7% dos donos de bares e restaurantes decidiram encerrar o negócio permanentemente por causa da crise causada pela pandemia (leis mais aqui).

 

Os bares e restaurantes, inclusive, são empreendimentos constantemente fiscalizados pela prefeitura. De acordo com dados disponibilizados pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Urbanismo (Sedur), até a última terça-feira (1º) foram interditados na capital baiana 73 bares, restaurantes e similares, sendo 66 bares, três restaurantes, três lanchonetes e uma pizzaria. Todos descumpriram de alguma forma os protocolos estabelecidos pelo município para o funcionamento de atividades deste tipo. 

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