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Mortes de motoristas alertam para fragilidade nas relações com aplicativos de transporte

Por Fernando Duarte

Foto: Francis Juliano/ Bahia Notícias

Desde a última sexta-feira (13), Salvador parou por mobilizações de motoristas de aplicativos. A reclamação é justa. Quatro deles foram barbaramente mortos e, até o momento, não existe explicação para esse crime terrível. Porém a situação desses motoristas é o resultado dos avanços do capitalismo moderno, cuja precarização das relações de trabalho foi exposta de maneira cruel. Infelizmente com quatro mortes. Agora esses mesmos motoristas que enxergavam em aplicativos como Uber e 99 uma fonte extra de renda começam a questionar as “garantias” dadas por essas empresas.

 

De acordo com relatos de representantes da categoria, um seguro será pago às famílias dos quatro mortos durante chamadas de aplicativo. Porém, durante o protesto, foi repetido que o único sobrevivente da chacina, um quinto motorista que conseguiu fugir, não terá direito a qualquer indenização. Motivo: sobreviveu. Mesmo que eventualmente haja um trauma que demore a ser superado ou que esse motorista eventualmente tenha que conviver o resto da vida com a sensação de ter sobrevivido a uma chacina pelo mesmo acaso do destino que tirou a vida de quatro pessoas antes dele.

 

As empresas reagiram. Garantiram estar dando todo o apoio necessário para esclarecer o crime e dar suporte às famílias das vítimas. A questão da insegurança não é nova, mas foram necessárias mortes brutais para que a sociedade passasse a discutir o tema. Há algum tempo, durante uma conversa, uma motorista de 99Pop relatou ter optado pelo aplicativo pela disponibilidade de uma câmera e um botão de pânico para casos graves. No entanto, o serviço era pago – e não seria uma garantia de segurança. Servia mais como uma tentativa de coibir abusos.

 

As relações trabalhistas estão em processo de aperfeiçoamento. Tanto que há uma discussão em todo o mundo e o Brasil não está fora desse contexto. Motoristas de aplicativos e entregadores de delivery – duas das categorias que fizeram protestos nesta segunda feira – são exemplos de como é necessário organizar vinculações e responsabilidades sociais das empresas que emergiram nesse boom de tecnologia. Não é meramente aumentar a burocracia ou dificultar a geração de renda e empregos. É criar meios de evitar que essas empresas não se eximam de qualquer relação quando, na verdade, há uma prestação de serviços por meio dessas plataformas.

 

É necessário avançar nesses debates, principalmente para entender essas novas relações criadas a partir de startups e companhias que usam a tecnologia como fonte primordial de funcionamento. É preciso que as regras do jogo estejam extremamente claras e que todos estejam cientes dos próprios papeis. Muitos desses prestadores de serviços sequer tinham noção de que poderiam ser vítimas desse novo modelo de trabalhismo – e que alguns deles poderiam perder a vida sem sequer entender que as empresas têm responsabilidades além do lucro. Às vezes nem elas entendem isso.

 

Este texto integra o comentário desta terça-feira (17) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Irecê Líder FM, Clube FM, RB FM, Valença FM e Alternativa FM de Nazaré.

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