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De gerações distintas nas salas de aula, mãe e filha relatam amor e respeito pelo aprendizado

Por Jade Coelho

Foto: Arquivo Pessoal

O passar do tempo, a mudança de costumes e a tecnologia podem modificar as escolas, aumentar as possibilidades e recursos de aprendizagem, mas o fato que não muda é a importância do professor, fator que pode impulsionar o desempenho dos estudantes.

 

A nobre profissão por detrás de todos os indivíduos letrados que compõe a sociedade, apesar da desvalorização salarial, com um piso que chegou aos R$ 2.557,74 em janeiro deste ano (lembre aqui), tem um dia no calendário nacional dedicada a ela. Em 15 de outubro se celebra o Dia do Professor.

 

Na família Duarte, das professoras Jacira e Gabriela, mãe e filha, o dom de ensinar surgiu como surpresa. A matriarca, aposentada na década de 1990 depois de 29 anos à frente de uma sala de aula, viu na profissão a única opção possível para a época. “Não entrei querendo ser professora, mas quando eu comecei a ensinar passei a gostar e digo sempre que eu gostaria de ser mais professora, mas a saúde não permitia mais”, lembrou entre risos.

 

Assim como a mãe, Gabriela Duarte tinha outros planos para o futuro. Inicialmente queria ser fonoaudióloga, mas ficou “presa” na segunda opção de curso. “Fiz o vestibular, passei para Educação Física, pensei em ir cursando e repetir a prova no final do ano, mas não consegui sair por conta da possibilidade de estar em uma quadra, ou dando aos meus alunos uma Educação Física que nunca tinha tido”, contou a professora da rede estadual desde 2004.

 

As lembranças de Jacira Duarte do tempo em que dava aula, literalmente no século passado, parecem uma realidade distante, da época em que escola era um local onde as crianças queriam estar, os pais participavam e frequentavam a instituição de ensino “sem precisar de convite”, e onde “o respeito é o que tinha de mais positivo”. “Meus alunos me respeitavam, é diferente de hoje”, comparou a aposentada.

Turma de Jacira em outubro de 1968 | Foto: Arquivo Pessoal

A realidade vivida por Gabriela é outra. Professora na ativa, ela enfatiza a falta que faz o acompanhamento da família e como isso impacta no desempenho dos alunos. “A gente sente muito a falta da presença da família, trabalhando junto com a escola. Existe muita resistência, ausência. A escola parece que é um lugar onde se deixa os filhos porque é obrigação. A escola faz reunião de pais e poucos aparecem”, lamentou a educadora.

 

O interesse e comportamento dos alunos também são diferentes agora. Gabriela se queixa do modo como os educandos encaram a escola, como obrigação, muitas vezes sem prazer e sem o entendimento de que o ambiente lhes pertence e pode possibilitar a eles ganharem o mundo. “As dificuldade são ‘N’: alunos desmotivados, sem perspectiva, etc. Estamos num mundo tecnologia que veio para ajudar, mas eles só se interessam por redes sociais, é muito mais complicado”, disparou a professora com tom de reprovação.

 

As diferenças pontuadas pelas professoras de diferentes gerações seguem com relatos que vão desde o material escolar, a quantidade de dias letivos em um ano, maior agora, e até a merenda.

Na memória de Jacira constam lembranças da boa comida, “na época em que até bacalhau os meninos comiam na sala de aula”, e de vaquinhas que volta e meia precisavam ser feitas para que os alunos dispusessem do material necessário, já que no tempo em que ensinava “o governo não fornecia o material”. Ela também lembra que às vezes uma turma tinha alunos com diferentes níveis de escolaridade e ela tinha que separar em diferentes grupos os que sabiam ler e escrever e aqueles que não sabiam.

 

Mãe e filha destacaram a responsabilidade da profissão, com a competência de educar, contribuir na formação dos cidadãos, formar e transferir conhecimento para os alunos. “É o nosso papel ensinar o conteúdo, fazer com que os nossos alunos tirem a nota para que passe de ano, para a aprovação, mas eu entendo que o papel do professor vai além”, disse Gabriela. “Todas as profissões dependem do professor, somos responsáveis pela vida de vários seres humanos, somos espelhos, ensinamos e mostramos tudo que eles podem ser”, completou ao atribuir a profissão a vocação e dom.

 

Jacira lembra saudosa de que as classes na sua época tinham cerca de 45 alunos e quando a aula acabava todos eles só saíam depois de cumprimenta-la. “Não saíam se não recebesse um beijo que eu tivesse dado, todos eles. Tanto eu dava, quanto recebia também, no fim da aula todos saíam falando comigo”, lembrou. Enquanto Gabriela diz que a rotina do professor é sempre de surpresa: “Nunca uma aula, turma ou turno é igual a outro”. Quanto ao sentimento pelos alunos, ela definiu com três palavras “carinho, preocupação, cuidado”.

 

Gabriela e Jacira representam milhares de professores em todo o Brasil, que apesar das dificuldades e independente da geração, têm uma enorme afeição pela educação, profissão e a relação com os alunos. “Eu fui muito feliz em ser professora, e até hoje eu sinto saudade. Se eu voltasse a ensinar eu entraria mesmo satisfeita, porque é um aprendizado, é gostoso”, garantiu Jacira.

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