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Procuradores da Lava Jato vazavam informações para incentivar delação, diz site

Capa do Estadão | Imagem: Reprodução / The Intercept Brasil

Os procuradores da força-tarefa da Operação Lava Jato vazaram informações para a imprensa, a fim de manipular os suspeitos para que acreditassem que seriam denunciados de qualquer forma, ainda que isso não fosse verdade. O objetivo era fazer com que os alvos firmassem acordos de delação.

 

Um desses casos ocorreu em junho de 2015. No dia 21 daquele mês, o procurador Orlando Martello escreveu: "Qual foi a estratégia de revelar os próximos passos na Eletrobrás etc?". A mensagem foi endereçada ao colega Carlos Fernando Santos Lima, no grupo FT MPF Curitiba 2, que reúne membros da operação.

 

Quanto à pergunta, Santos Lima disse não saber do que Martello falava, mas completou, admitindo a prática: "Meus vazamentos objetivam sempre fazer com que pensem que as investigações são inevitáveis e incentivar a colaboração".

 

Essas mensagens foram divulgadas pelo site The Intercept Brasil, que teve acesso ao conteúdo e, desde junho, divulga irregularidades cometidas pela força-tarefa da Lava Jato e pelo ex-juiz Sérgio Moro. Os envolvidos negam e contestam a veracidade dos diálogos.

 

Neste caso, a reportagem pontua que, pela lei das organizações criminosas, que estipulou regras para as delações premiadas, o acordo só pode ser aceito caso a pessoa tenha colaborado "efetiva e voluntariamente".

 

A conversa acima citada ocorreu dois dias depois da 14ª fase da Lava Jato, que tinha como alvo as empreiteiras Odebrecht e Andrade Gutierrez. Na ocasião, os procuradores debatiam estratégias para fechar um acordo de delação com Bernardo Freiburghaus, apontado como operador de propinas da construtora baiana.

 

Então, no mesmo dia, Orlando e Deltan Dallagnol, coordenador da operação no MPF, anunciaram ter vazado para o jornal O Estado de S. Paulo a informação de que os Estados Unidos iriam ajudar na investigação.

 

Uma conversa de Dallagnol com o jornalista, que não teve seu nome citado por não se tratar de pessoa pública, indica que foi o próprio coordenador o responsável pelo vazamento.

 

"O operador da Odebrecht era o Bernardo, que está na Suíça. Os EUA atuarão a nosso pedido, porque as transações passaram pelos EUA. Já até fizemos um pedido de cooperação pros EUA relacionado aos depósitos recebidos por PRC. Isso é novidade. Vc tem interesse de publicar isso hoje ou amanhã, mantendo meu nome em off? Pode falar fonte no MPF. Na coletiva, o Igor disse que há difusão vermelha para prendê-lo, e há mesmo. Pode ser preso em qualquer lugar do mundo. Agora com os EUA em ação, o que é novidade, vamos ver se conseguimos fazer como caso FIFA com o Bernardo, o que nos inspirou", escreveu Dallagnol para o repórter.

 

Depois de ler a resposta do jornalista, o procurador comemorou no grupo FT MPF Curitiba 2. "Amanhã cooperação com EUA pro Bernardo é manchete do Estadão", adiantou aos colegas.

 

Apesar dos esforços, Freiburghaus não delatou. Mas a força-tarefa nega publicamente ter feito qualquer vazamento. A reportagem lembra que, em entrevista para a BBC Brasil em abril de 2017, ou seja, após o caso abordado, Dallagnol disse que "nos casos em que apenas os agentes públicos tinham acesso aos dados, as informações não vazaram". Segundo ele, "a brecha estaria no acesso inevitável a dados secretos por réus e seus defensores".

 

Agora procurada pelo Intercept, a assessoria de imprensa da Lava Jato negou que os procuradores tenha vazado informações do caso ao Estadão. Como argumento, a força-tarefa alegou que uma informação passada à imprensa deve ser ilegal ou violar uma ordem judicial para ser caracterizada como "vazamento". Com isso, eles afirmam que o material enviado por Dallagnol não violou nem a lei nem a ordem judicial, não podendo ser classificado como vazamento.

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