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Segurar reajuste do metrô não é opção apenas técnica - é também político-eleitoral

Por Fernando Duarte

Foto: Manu Dias/ GOVBA

O governo confirmou na véspera do reajuste da tarifa de ônibus de Salvador que o sistema metroviário não teria variação no valor do bilhete. Enquanto o sistema rodoviário passou a cobrar R$ 4 desde a última terça-feira (2), o metrô manteve os R$ 3,70 pelo menos nos próximos 60 dias. É uma jogada iminentemente política, apesar da boa roupagem de que é necessário mais tempo para completar estudos técnicos.

 

De acordo com o levantamento utilizado por base para aumentar a passagem em R$ 0,30 dos ônibus urbanos, cerca de 7% dos usuários do sistema metroviário utilizam apenas os trens para se locomover na capital baiana. É um número baixo se comparado ao universo de integração, já que o restante dos 93% usam os dois modais integrados. E essa conta já demonstra que manter o valor antigo não impacta diretamente no funcionamento do metrô soteropolitano.

 

Engana-se quem acredita, inclusive, que a falta de reajuste não sai dos bolsos dos contribuintes. Ao manter um valor sem aumento, a demanda de recomposição de índices de inflação provoca o aumento do subsídio estatal, algo imprescindível para o funcionamento do metrô. Porém o foco aqui não é discutir a estrutura tarifária dos modais. Somente apontar que existe uma decisão política em não equiparar as duas tarifas em Salvador. Vide que o próprio governo autorizou que as linhas metropolitanas tivessem reajustes com percentuais muito similares aos permitidos pela prefeitura da capital baiana.

 

Pela qualidade do transporte público em Salvador, R$ 4 é um valor caro e até mesmo quem não anda de ônibus concorda. Entretanto, o buraco é muito mais embaixo, ainda que pelo menos 70% dos usuários usem apenas o sistema rodoviário. A promessa do ar-condicionado, se cumprida, pode servir até de alento para os usuários. Isso nem de longe resolve todos os problemas, porém a participação do Ministério Público da Bahia aumenta a lisura no processo e evita ataques despropositados da oposição.

 

Uma coisa é certa: o percentual dos usuários que utilizam apenas o metrô é muito pequeno. Por isso foi uma jogada importante. A longo prazo, simular que a tarifa do serviço permanecerá mais tempo abaixo do cobrado no principal meio de transporte público soteropolitano pode ter consequências eleitorais. Em 2020, logicamente. Ou seja, para além da exploração do metrô em si, os aliados do governador Rui Costa podem criticar as tarifas autorizadas pela prefeitura e que somente meses depois será incorporada no sistema metroviário.

 

Há problema nisso? Não. A construção eleitoral permite que as narrativas sejam estabelecidas da maneira mais apropriada aos interessados no assunto. No lugar dos aliados do governo, o lado da prefeitura iria fazer o mesmo uso político da situação. Portanto, não é tão exercício de premonição imaginar que na disputa pelo Palácio Thomé de Souza no próximo ano esse assunto vai voltar a ser discutido. Preparemos a pipoca!

 

Este texto integra o comentário desta quinta-feira (4) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Excelsior, Irecê Líder FM, Clube FM e RB FM.

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