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'Disciplina do Golpe': Última aula se divide entre reflexões e convenção de viúvos do PT

Por Bruno Luiz

Foto: Bruno Luiz/ Bahia Notícias

Auditório lotado, salpicado por um vermelho estampado nas camisas de alguns presentes. Em alguns momentos, alguém arriscava um grito de “Lula livre”, sendo acompanhado por uma maioria entusiasmada. Ao fim dos discursos que versavam sobre o chamado “golpe” de 2016, manifestado no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), aplausos calorosos. 

 

Para qualquer um desavisado que chegasse, não era muito difícil entender o que estava acontecendo ali. Tratava-se da última aula da “disciplina do golpe”, que ocorreu nesta sexta-feira (3), na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia (Ufba), no bairro da Federação, em Salvador.  

 

Criada para discutir as implicações do impeachment, a matéria “Tópicos Especiais em História: O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil” virou uma espécie de confraternização de viúvos e viúvas dos governos petistas em sua derradeira aula. No entanto, nem só de celebrações pelo fim da disciplina - polêmica, ela suscitou discussões acaloradas e correu o risco de ser barrada pela Justiça Federal - o momento foi feito. Houve também episódios de desagravo à presidente defenestrada, de muitas críticas ao “governo golpista de Michel Temer” e também de mea culpa sobre a falha resistência ao processo de deposição da petista.

 

A última aula não teve nenhum conteúdo programático específico. Ela se dividiu em uma mesa de debates e uma palestra feita pelo professor Armando Boito, que ministrou na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo, disciplina semelhante à da Ufba. A mesa foi formada pelos professores Graça Druck, Carlos Zacarias - ele foi um dos propositores da disciplina -, Sandra Siqueira, Raquel Nery, o reitor da Universidade, João Carlos Salles, e o auditor fiscal Mário Diniz - este último do comitê pela revogação da Reforma Trabalhista.  

 

Os professores buscaram fazer um balanço da disciplina e trouxeram algumas reflexões sobre o que foi debatido nas 18 aulas do semestre. Algumas falas não destoaram muito do script imaginado, com a palavra golpe sendo pronunciada várias vezes pelos participantes da mesa, além de uma narrativa que se tornou corrente dentro da esquerda brasileira: de apontar um desmonte de direitos sócio-econômicos por parte de Temer. 

 

Já João Carlos Salles saiu da questão meramente política e preferiu usar a fala para externar preocupação com o futuro da universidade brasileira, principalmente um dia depois de a imprensa brasileira noticiar um provável corte nas bolsas de pós-graduação fornecidas pelo Conselho da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). 

 

“As ameaças que a universidade sofre não são apenas ameaças à pesquisa. Tem todo um projeto de universidade que vive uma ameaça. A vocação da universidade não pode ser uma condenação a não pesquisar”, disse, em tom de denúncia.

 

O reitor ainda relatou que figuras de várias instituições de ensino superior (IES) pelo país têm sofrido intimidações por conta de posições políticas adotadas dentro da universidade. Para ele, isso prejudica a autonomia das IES. “Essas ameaças vêm de setores que veem a universidade apenas como uma repartição pública, não como um lugar de liberdade de expressão”, bradou. 

 

Apesar do tom “vermelho-petista” dos discursos, a aula não foi marcada por muitas manifestações pró-PT vindas da plateia. A aula transcorreu sem grandes arroubos, com um público comedido e que mais parecia estar atento às discussões travadas ali do que para meramente manifestar posições políticas. Em um momento, uma professora destoou do caráter mais polido predominante até então, levantou da cadeira, gritou “Lula livre”, fazendo um L de Lula com as mãos e foi acompanhada por alguns presentes. Na camisa dela, estavam estampados dizeres contra a privatização do pré-sal e a favor da educação pública, bandeiras próprias da esquerda. Foi possível também ver uma mulher vestida com uma camisa vermelha que trazia a inscrição #LulaLivre. Mas, apesar disso, não havia na maior parte do público algo que pudesse identificar visivelmente ligação com o partido. 

 

Logo após a mesa, a palestra de Armando Boito se converteu no momento mais analítico da aula. Por uma perspectiva marxista, ele tentou explicar como os conflitos de classe nos governos petistas acabaram fragilizando o segundo mandato de Dilma e possibilitando o impeachment. Chegou a dizer que a Operação Lava Jato é um braço do imperialismo estadunidense no Brasil, acusou a Justiça de ter as garras “pouco afiadas” para o senador Aécio Neves (PSDB) e também seguiu o discurso clássico do PT, ao dizer que imprensa, Judiciário e Legislativo se uniram para derrubar Dilma. Logo depois, a aula se encerrou com Boito respondendo perguntas da plateia.

 

Professor Carlos Zacarias | Foto: Bruno Luiz/ Bahia Notícias

 

DISCIPLINA SERÁ DADA NOVAMENTE
O professor Carlos Zacarias afirmou que a matéria voltará no próximo semestre, apesar de algumas leves mudanças. Agora, ele ministrará as aulas sozinho, e não mais as dividirá com vários professores, como ocorreu desta vez. 

 

Ainda de acordo com ele, dois papéis da disciplina foram cumpridos. Um, o papel político. O outro, de refletir sobre o impeachment. 


 

“O primeiro foi o papel político. Representou a posição da Ufba de dizer para o ministro que tentou intervir na Universidade de Brasília que não era possível, que isso só acontece em governos golpistas, de ditaduras. Foi uma atitude política muito corajosa da Ufba. O segundo foi o de refletir sobre o golpe, de uma perspectiva que não estávamos acostumados a refletir. Se não tivesse a disciplina, não teríamos a carga de discussão que tivemos, de posições divergentes. As pessoas se mostraram dispostas em discutir”, defendeu, em entrevista ao Bahia Notícias. Ainda segundo ele, a disciplina vai originar um livro, que será organizado pelos professores. 
 

 

Zacarias também aproveitou para responder o vereador Alexandre Aleluia (DEM), que ingressou com uma ação na Justiça Federal para barrar a disciplina. O pedido, no entanto, foi negado, mas a ação ainda não foi julgada. 


 

“Vamos seguir lutando, resistindo. Esse vereador é uma pessoa completamente desconectada das demandas da escola pública, da universidade pública. Por não entender o que é isso e expressar uma perspectiva de uma minoria da sociedade, é que ele quis calar a voz da universidade. Todas as pessoas que vieram para discutir conosco falaram, debateram. A gente não resolve divergência calando a voz. Isso é coisa de ditador”, criticou. 

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