Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Marca Bahia Notícias
Você está em:
/
Notícia
/
Geral

Notícia

PartidA: Márcia Tiburi cria movimento para aumentar presença de mulheres na política

Por Luana Ribeiro

Foto: Simone Marinho / Divulgação
Desde o início do seu governo, a presidente afastada Dilma Rousseff, primeira mulher a ocupar o cargo, enfrenta uma disputa de poder, ainda, à época, no campo da linguagem. Escolheu ser chamada de presidenta, mas o epíteto não pegou: apenas a Empresa Brasileira de Comunicação, estatal, e alguns blogs de esquerda assumiam a palavra no feminino. O movimento partidA, criado pela filósofa e escritora Márcia Tiburi para ampliar a presença de mulheres na política, encampa uma briga semelhante, como ação feminista – ao falar do projeto, ela sempre usa o artigo feminino: “a partida”. Questionada sobre se partidA é de fato um partido, Márcia afirma que a pergunta resume o “ser ou não ser” da proposta. “A partidA começou com uma pergunta: vamos fazer um partido feminista? E as pessoas que podiam responder essa pergunta ficaram muito em dúvida. Porque existem muitas críticas à institucionalização, ao poder na sua forma tradicional. Então a partir dessa pergunta, nós criamos um movimento. E essa pergunta continuou em aberto e até hoje o movimento, que funciona como um partido, é um movimento, mas não o partido, e se coloca essa pergunta, novamente, a cada vez, é o nosso 'ser ou não ser'. É uma potência que se nutre dessa ambiguidade, desse devir”, explica. A partidA utiliza o Facebook para auxiliar na angariação de novas “filiadas”, para usar uma palavra não tão exata. “Como é uma ideia de um movimento, as pessoas pegam essa ideia e fazem à sua maneira. Então, um belo dia, o grupo que estava em São Paulo reunido descobriu que o pessoal lá em Palmas inventou uma partidA. Claro que depois as pessoas se conectaram todas e todo mundo vai se juntando”, afirma. Na página, que já tem 18.728 curtidas (até a tarde desta quinta-feira), são publicados textos sobre o feminismo e a cultura machista, ações de mulheres na política e questões gerais relacionadas à vida das mulheres e aos direitos humanos. Um post fixo que explica o que é a partidA recebe comentários como “Eu quero entrar?” e “Onde me filio?”. “Mas elas entenderam que o jogo da partidA é uma roda, uma reunião entre feministas, uma conversa sobre feminismo e uma conversa que tinha como objetivo reunir pessoas para empoderá-las por meio do feminismo, para protagonizar essas pessoas para ocupar o governo. Porque esse é o projeto, a gente usa o conceito de ocupação na direção dos poderes estabelecidos”, acrescenta Márcia. Além da página principal, em alguns estados já foram fundados perfis, como São Paulo, Rio de Janeiro, Tocantins, Paraná, Rio Grande do Sul, Pará, Sergipe e Bahia. A postagem é livre, utilizado a hashtag #partidA. Não há um diretório ou estrutura de cargos no movimento. “As feministas que participam desse projeto falam muito de 'fazer a partidA', porque é uma construção coletiva bem horizontal, não existe nenhuma regra preestabelecida, nenhum formato, nenhum comando, ninguém é coordenador da partidA, nem funcionário da partidA, ou coisa parecida. Não existe essa construção de cargos. Existem comissões, a gente chama de rodas, as pessoas vão trabalhando com audiovisual, com questões de estratégia política, de formação”, destaca.


Foto: Reprodução/ Gestão e Produção Cultural na Bahia

Na Bahia, a página da partidA foi criada pela jornalista e professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Nadja Vladi. “É importante ter mulheres na política, porque elas precisam tomar decisões que não podem estar com o poder patriarcal. E o patriarcado brasileiro é retrógrado, um dos piores que existe no mundo”, afirma Nadja, citando questões como estupro e aborto. “Muito importante para o empoderamento da mulher, para acabar com a violência contra a mulher, para que ela decida sobre coisas do seu corpo. Não é possível que o patriarcado é que decida sobre violência sexual contra a mulher, sobre aborto. São questões da mulher, que tem que ser decididas pelas mulheres”, aponta. Para ela, as intenções do movimento já podem ser expressadas nas eleições de 2016. “Então eu acho que essa ação está aí para que, por exemplo, nessas eleições municipais, a gente possa apoiar mulheres feministas candidatas a prefeita”, convoca. No âmbito nacional, apesar de considerar que o governo Dilma Rousseff teve “problemas”, Nadja avalia que o machismo foi determinante na forma como sua administração foi combatida. “Falam qualquer coisa de Dilma. Ela teve vários problemas e Michel Temer, pelo visto, está tendo mais problemas do que ela agora em uma semana de governo”, critica, mencionando também a composição do ministério do peemedebista, criticado pela ausência de mulheres pela primeira vez em 42 anos, desde o governo do general Ernesto Geisel. “A questão de gênero é muito importante e tem que estar na nossa pauta, é atualíssima. As pessoas ficam dizendo: ‘ah, não temos que perguntar se o ministério tem mulher ou não. Errado, errado. Porque se nós temos mais de 50% de mulheres no país, o ministério tem que mostrar essa diversidade. Tem que ter mulheres, negros, gays”, defende. Nadja destaca que há mulheres preparadas para assumir cargos de gestão, mas que o desafio é incentivá-las a entrar na disputa de poder. “Claro que os homens podem levar uma vantagem nisso porque eles estão há mais tempo nesse poder, nessa esfera política. Quanto mais essas mulheres ocuparem, mais elas vão saber, entender, e mais expertise elas vão ter sobre gestão”. Márcia Tiburi também aposta na ocupação como forma de resistência a eventuais assédios machistas que possam sofrer quando alcancem os postos políticos. “Acho que o único jeito de lidar com isso é aumentando o campo feminista. Os partidos brasileiros todos, da direita ou da esquerda, estão bastante desligados do feminismo. Ou são antifeministas, alguns, à direita, e na esquerda também não existe, com raríssimas exceções agora, como por exemplo o PSOL, que tem um cuidado com isso, você não encontra partidos de esquerda que a questão feminista seja colocada com o peso que deve ser ”, argumenta. A ideia é apoiar e propor candidaturas feministas. Durante a palestra “Mulher com a Palavra”, da qual participou como convidada no Teatro Castro Alves, nesta terça-feira (31), ela citou uma amiga que defendia o feminismo não como a defesa dos direitos das mulheres, mas da humanidade. “Eu penso que não é possível construir uma democracia sem feminismo. O feminismo é fundamental na produção da política contemporânea. Porque feminismo é uma ético-política, mais avançada do que todas que a gente conheceu até agora”, aposta. 

Compartilhar