Chance de Dilma voltar à Presidência é ‘próxima de zero’, avalia historiador
Por Rebeca Menezes
O governo de Dilma Rousseff sofreu a maior derrota do Partido dos Trabalhadores desde a posse do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003. Nesta quinta-feira (12), o Senado aprovou a abertura do processo de impeachment da presidente, que terá que ficar 180 dias longe do cargo até que o Congresso Nacional encerre a investigação por supostos crimes de responsabilidade. Mas para o historiador político Carlos Zacarias, a legenda ainda deve amargar a derrota por muitos anos, o que deve afetar as chances de uma eventual volta de Dilma ao cargo. “Eu acho que [a chance dela voltar é] quase nenhuma, próxima de zero. Teori e outros ministros do Supremo já declararam que a decisão cabe ao Legislativo e há várias negativas de recursos que foram interpostos. Isso mostra que o Supremo vai seguir. A não ser que haja alguma reviravolta absurda, o STF vai acompanhar a decisão do Congresso”, avaliou. Para o especialista, o que fez Dilma perder força foi a “incapacidade do governo de debelar a crise econômica e oferecer respostas rápidas aos setores da sociedade”: “A melhor solução seria evitar a catarse e levar o governo adiante, mas isso foi inviabilizado”, afirmou. Em março de 2015, Zacarias chegou a dizer que achava difícil que o impeachment fosse aprovado. Porém, mais de um ano depois, o aprofundamento da crise e a alta da inflação fizeram com que setores que até então criticavam o afastamento mudassem de lado. O historiador, contudo, demonstrou preocupação com o governo interino do vice-presidente Michel Temer, principalmente após o anúncio da nova equipe ministerial, que não conta com mulheres nem negros. “O ministério anunciado hoje, composto por homens brancos, são a expressão do que está por vir”, alertou. Para ele, o PT caiu “não pelo que ele fez, mas pelo que não se dispôs a fazer”. Carlos criticou, por exemplo, o que ele chama de “empoderamento pela metade”. “Pela metade porque não se concretizou, era apenas um aceno. Mesmo sendo a primeira presidente mulher, não se discutiu nem uma vez a sério a questão do aborto, nem mesmo com a crise da zika. Então, se essa expectativa não avança, a tendência é que ela recue”, lamentou. Por isso, além do impeachment, o partido de Dilma deve enfrentar as consequências de não realizar o projeto defendido desde 2002. E isso deve beneficiar o próprio Temer. “Temer deve aproveitar esse momento em que os vencidos vão colher os frutos da vergonha da derrota para desfrutar de algum prestígio da sociedade. Vai ser muito difícil os derrotados apresentarem uma verdadeira resistência. O PT vai sair dessa história muito desidratado. Não é o mesmo que venceu as eleições de 2002. O partido vai colher os frutos dessa derrota por muitos anos. Eu não acho que vai acabar, mas vai sofrer um baque muito grande. Agora vão ter que fazer um balanço dessa tragédia”, explicou. O historiador político acredita que a legenda poderia até ter resistido, mas “caiu melancolicamente porque se afundou na lama, se envolveu com o que há de pior na política no desespero”. Para Zacarias, a sigla não aproveitou a proximidade com os movimentos sociais, que poderiam levar a uma greve geral e reforçar a ideia de “golpe” antidemocrático, mas acabou seguindo o caminho inverso. “Dilma anunciou que queria fazer uma aliança nacional caso vencesse o processo de impeachment. Como é que você defende que é golpe e depois se une aos golpistas? [...] Mesmo com a derrota, o partido sairia melhor se não tivesse feito tantos acordos. Seria improvável que nesses poucos meses o PT conseguisse reverter toda a mácula que provocou nos últimos anos, mas sairia de uma maneira muito mais honrada, menos envergonhada [se não tivesse negociado cargos]. Mas eles cederam, até os últimos minutos, tudo que podiam ceder. Esse discurso que chamaria os golpistas pro governo é um acinte para aqueles que estavam lutando nas ruas. O único que não levou a sério o ‘não vai ter golpe’ foi o próprio governo”, resumiu.
