Aproximação entre PM e população é saída para descredibilizar boatos, dizem especialistas
Por Estela Marques
Há quase 80 anos uma transmissão de rádio causou pânico coletivo ao narrar uma invasão de marcianos na Terra. Há uma semana, reproduções de mensagens via WhatsApp fecharam comércios e paralisaram a vida de oito bairros em Salvador. Em três momentos distintos. A professora de jornalismo Malu Fontes acha exagero associar A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, com os boatos sobre toque de recolher que assustou parte da população soteropolitana, por ser uma “metáfora sofisticada que atribui à boataria valor maior do que ela tem”. Malu valora pouco os incidentes, mas "a população prefere não pagar para ver". E isso é reconhecido pelo coronel Sturaro, comandante do Comando de Policiamento Regional Central (CPRC). “O cidadão não quer pagar para ver, prefere se proteger e se antecipar aos fatos. Mas diante disso a gente se torna refém de uma situação como essa”, pondera o policial. Ambos os especialistas, cada um em seu mundo, reconhecem que a realidade à qual foi submetida a população dos bairros IAPI, Santa Mônica, Liberdade, Pero Vaz, Cajazeiras, Fazenda Grande, Boca da Mata e Narandiba é estimulada por “pessoas irresponsáveis” e “de má índole”, que tentam “tirar a tranquilidade do cidadão de bem”. “Qualquer marginal sabe espalhar o pânico pelas redes sociais, porque vai conseguir chegar à população que não está na rede dele. Ele tem a tecnologia, as ferramentas e, de alguma forma, amigos, parentes, namorados que não fazem parte do grupo de marginais, mas que eles conhecem, passam adiante o recado. E o recado gera esse pânico”, observa Malu Fontes. Conforme analisa a jornalista, a realidade de assaltos, assassinatos, chacinas e arrastões – para exemplificar – estimula na população o instinto de proteção, sem antes racionalizar as informações recebidas pelas redes sociais. “A população não vai pagar para ver. O medo é extremamente legítimo”, acrescenta Malu, ao destacar que o medo é duplo: da atuação da polícia na sua comunidade e da retaliação dos seus pares, caso acione o órgão de segurança pública.

Boato de toque de recolher em Cajazeiras foi acionado na última sexta-feira (13)
(Foto: Romildo de Jesus/ Tribuna da Bahia)
A reação é legítima e reconhecida, haja vista a diversidade de institutos que se debruçaram a pesquisar o modo como a população vê a polícia e a resposta é apenas medo. Contraditoriamente, quem é visto como inimigo deveria ser encarado como aliado na luta contra a ação da criminalidade, inclusive em se tratando de boataria. É o que destaca o coronel Sturaro. “Não podemos nem temos o direito de exigir que o cidadão não queira pagar para ver. Entendemos esse lado e tentamos ocupar todo o espaço possível para mostrar que a Polícia Militar se faz presente, embora não sejamos onipresentes. Na hora que acontecer qualquer boato desse, informe à PM, para que possamos ocupar esse espaço. É nosso dever dar tranquilidade ao cidadão”, destacou o comandante. Malu concorda com o chamado do oficial e acrescenta que a polícia tem que se mostrar e se revelar para a sociedade, de modo que esta sinta confiança em acionar a corporação. “Há ainda um distanciamento muito grande entre a polícia e a sociedade. Como vai resolver isso, não sei, mas é com aproximação. A polícia não pode causar medo na população de bem”, concluiu a jornalista.
