Brilhante Ustra morre rejeitado pela história do Brasil
Por Carlos Marighella Filho, como dito a Alexandre Galvão
Não sabia da morte do coronel Brilhante Ustra. Fui informado por este repórter e fiquei feliz. Lamento apenas, pois ele morreu sem ser julgado. Esperava que ele pagasse pelo mal que fez a mim e aos meus companheiros. Aos 27 anos, do alto da minha vitalidade física e mental, fui preso em uma ação coordenada por Brilhante Ustra. Lembro que fui preso no dia 5 de julho de 1975. Os outros foram presos nos dias que seguiram essa semana. Fiquei cerca de dez dias na chamada Fazendinha, em Alagoinhas, na Bahia. Não tinha noção se era dia ou noite, pois, junto com meus companheiros, estava encapuzado. Lá, sofri de todas as barbáries dos agentes da ditadura militar no Brasil: espancamentos, choques elétricos, afogamento em uma água imunda. Sessões de horror. Como eu sei que esta ação foi conduzida por Brilhante Ustra? Em um determinado momento destes quase dez dias, ele pegou um companheiro de codinome Murilo - um dos nossos que colaborava com a ditadura. Para provar que estava mesmo de posse de Murilo, nos levou até ele. Estávamos sem capuz. Naquele momento, não fazíamos ideia de quem era o militar, mas, tempos depois, o rosto de Ustra tomou os jornais quando – já depois da ditadura – a atriz Bete Mendes, que também foi torturada, reconheceu ele no Uruguai. Ficamos estarrecidos ao perceber que ele ocupava o cargo de conselheiro militar da embaixada brasileira no Uruguai, nomeado pelo então presidente José Sarney. Voltando à prisão em Alagoinhas, eu não estava só naquele lugar. Junto de mim, outras 41 pessoas foram presas – como o vereador de Salvador Sérgio Santana, seus dois irmãos e uma irmã. Após estes tortuosos dias, eu e mais 13 pessoas fomos submetidas ao julgamento fantasioso e sem motivo legal. Antes da injusta condenação, eu e meus colegas denunciamos em longos depoimentos os horrores do nosso cárcere. Como éramos pessoas da sociedade civil – e não “ilegais” – tivemos voz e fizemos barulho no tribunal militar.

Coronel Brilhante Ustra | Foto: Wilson Dias/ Agência Brasil
