
Show em praça pública é novidade para artistas do Festival Salvador Jazz
Por Júlia Belas
Ao som de "Eu Sei Que Vou Te Amar", o compositor e pianista Wagner Tiso abriu os shows no palco do Farol da Barra na noite deste sábado (3), no Festival Salvador Jazz. O artista foi o primeiro a se apresentar no segundo dia de evento no bairro da Barra e não escondeu o nervosismo antes de subir ao palco. "Estou tocando piano sozinho, abandonado ali, mas o bom é essa expectativa mesmo. O tempo todo a gente vê se pula uma música ou acrescenta uma. O público reagindo bem, a gente manda bala no repertório, não tem problema", brincou, em entrevista ao Bahia Notícias. Logo de início, a canção conhecida arrancou aplausos e um coro do público que lotou o largo do Farol no penúltimo dia de festas do Réveillon de Salvador.

Wagner Tiso | Foto: Diogo Macedo / Ag. Haack / Bahia Notícias
"O público daqui é muito bom. Nas vezes que eu toco no teatro, a recepção é muito calorosa. É a melhor possível. Agora isso aqui, para mim, é novidade. Já toquei em praça pública com orquestra ou com banda, mas em Salvador não, porque aqui é a terra da alegria, do Carnaval, aqui é diferente. Eu e Deus, assim, nunca", afirmou, antes de levar para o público versões em piano de músicas compostas com Milton Nascimento, como "Coração de Estudante", e canções de artistas nacionais e internacionais. "A minha ideia, aqui, é trazer obras de grandes compositores", explicou ao público já no palco, antes de apresentar a melodia da música de Tom Jobim.

Yamandu Costa | Foto: Jefferson Peixoto / Ag. Haack / Bahia Notícias
"É uma surpresa, para a gente, que exista essa programação aqui em Salvador. Inclusive o Armandinho, que participa com a gente, também está impressionado com essa programação toda. É uma coisa que, infelizmente, é um pouco fora do normal. A gente sente que existe uma força das autoridades daqui querendo mudar esse perfil", disse o gaúcho Yamandu Costa, um dos maiores violonistas do Brasil, ao comentar a participação no evento. Aos repórteres presentes, o músico e compositor falou sobre a escolha do repertório, que traz canções tradicionais do Rio Grande do Sul. "Para a gente, poder participar disso é um privilégio. Sair de casa e mostrar um Brasil de lá [do Sul], tão distante daqui, uma música completamente diferente, com uma formação inédita, é uma coisa que vai ser a estreia aqui. Eu estava comentando com a 'gurizada' que acho que vai ser um bailão gaúcho como Salvador nunca viu", brincou o artista.

Hermeto Pascoal | Foto: Jefferson Peixoto / Ag. Haack / Bahia Notícias
"O nosso país é tão diverso, tão rico, e se conhece tão pouco. Esse Festival nos dá a oportunidade de fazer isso", comentou Yamandu. Armandinho, que fez uma breve participação ao tocar bandolim durante o show, falou sobre a mistura do violão gaúcho com a guitarra baiana. "A Bahia tem o instrumental no inconsciente coletivo, no que eu faço com a guitarra baiana. O que eu faço hoje, apesar de ser acústico, traz essa comunicação. Eu tenho feito algumas vezes com orquestras, com a Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba), já fiz no Campo Grande, já fiz no Santo Antônio... Em alguns lugares, a gente já teve show com orquestra instrumental e sempre tem um povão assistindo e prestigiando, assim como tem um povão aqui assistindo e prestigiando", observou o músico. Para ele, a iniciativa de tornar outros estilos mais acessíveis ao público não pode parar. "Eu acho que o Farol da Barra nunca viu um evento instrumental. A Barra, tão acostumada com o axé, Carnaval, pagode, recebeu a música instrumental brasileira. Eu tenho elogiado muito, acho que essa iniciativa é um presente para a Bahia e para os baianos. É presentear o povo com a música instrumental, à qual eles não têm acesso. Até as pessoas que me conhecem não sabem dessa relação minha com a música instrumental acústica, com Yamandu, Hamilton de Holanda. O público precisava disso, e vai passando para aqueles que não têm esse conhecimento", avaliou.

Sanbone Pagode Orquestra | Foto: Valter Pontes / Agecom
Além destes artistas, o palco contou também com apresentações do multi-instrumentista Hermeto Pascoal e da Sanbone Pagode Orquestra. Tanto o artista quanto o grupo levaram misturas de ritmos poucas vezes vistas. "É um prazer para a gente tocar aqui nesse mundo da Bahia para uma plateia tão repleta", declarou Hermeto durante o show. Repleto de bom humor, o artista brincou sobre o valor do seu cachê, que, de acordo com o Diário Oficial do Município (DOM), seria de R$ 77 mil. "Se vocês leram no jornal que o meu cachê foi de R$ 70 mil, vou contar a verdade: ele não passou de R$ 15 mil. Esse valor foi para todos os gastos do show. Se eu recebesse os tais R$ 70 mil, estaria muito rico e muito burro", brincou, arrancando risos da plateia. A orquestra que mistura o ritmo do pagode com os instrumentos comuns à música erudita, por sua vez, tratou de agitar o público que lotou a Barra. "Tocar para uma plateia dessa maravilha, em praça pública é inesquecível", afirmou o maestro, sanfoneiro e trombonista Hugo Sanbone, que comandou os dezenove músicos entre o pagode baiano e o jazz. O Farol da Barra contará com shows da orquestra Neojibá, do cantor Ed Motta e da Orkestra Rumpilezz a partir das 18h deste domingo (4), encerrando a programação de shows do Réveillon Salvador 2015.
