Em última sessão da OAB, Ana Patrícia lamenta agressões: 'Esperava manifestação mais firme'
A vice-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil - Seção Bahia (OAB-BA), Ana Patrícia Dantas Leão, fez um desabafo na última sessão plenária do Conselho da entidade, realizado nesta sexta-feira (10) - a última do ano e a primeira após as eleições da instituição, ocorridas no dia 24 de novembro deste ano.
Antes de iniciar o desabafo, Ana Patrícia parabenizou a advogada Daniela Borges pela vitória para presidência da Ordem, diante de um processo eleitoral difícil, e replicou os parabéns para Fabrício Castro. “De todos os líderes que participaram desse processo eleitoral, Fabrício foi verdadeiramente um adversário sério e respeitoso. Eu preciso dizer isso, Castro, porque temos muitas e muitas divergências políticas. Mas você é um homem sério e eu preciso fazer esse registro. Registro que eu não posso fazer para todos, lamentavelmente”, alfinetou.
Em sua fala, Ana contou que, quando entrou na OAB, em 2013, iniciou sua jornada na política da Ordem com muita vontade de transformar e de dar o melhor para a advocacia. E que, em fevereiro de 2016, dois meses depois de sua posse como vice-presidente de Luiz Viana, teve seu primeiro momento marcante. Naquela ocasião, a gestão participou da posse do Conselho Federal da Ordem e ela não foi por questões de trabalho. Naquele período, ela recebeu um telefone de Viana falando que sabia que ela estava insatisfeita com a gestão, e a chamou para uma conversa em Brasília.
No dia seguinte, ela foi para Brasília, e por todo o período em que esteve lá, Luiz Viana não teria parado para conversar com ela, conforme combinado. “Essa conversa não aconteceu até o dia de hoje”, lamentou. Ana emendou contando que, ao retornar a Salvador, Fabrício, “que é uma das pessoas mais sérias que eu conheço”, foi até seu escritório para conversar e dizer que ela precisava fazer “leitura política”, quando ela constatou que eles tinham visões diferentes sobre política e fariam gestões diferentes. Contou para ela que havia um projeto político que ele seria o próximo presidente da Ordem e que ela seria vice, pois era preciso manter a base política. Fabrício cuidaria das questões políticas e ela, das administrativas. “Mas eu disse a ele que seria vice-presidente na plenitude do que isso poderia significar”, declarou. Ele a teria dito “veremos quem tem mais unhas para subir pelas paredes”. “E eu olhei para as minhas unhas enormes e disse: vamos”. Ana contou que ligou para Viana para falar sobre a conversa e que ele a disse: “querida, que absurdo”. Ali teria começado sua mudança na política da Ordem.
“Eu não aceitei ser vice-presidente para ser um símbolo. Eu não aceitei ser uma fotografia. Eu lutei muito para não ser um símbolo. Eu lutei por cada uma de nós mulheres. Por que eu digo isso a vocês? Porque não fui eu que traí, não fui eu que fui desleal. Eu entreguei o mandato de vice-presidente por duas vezes a Luiz Viana. Eu disse: ‘estou renunciando, porque não vou ser símbolo. Ou serei vice-presidente na integralidade do que isso possa representar ou eu não vou ser uma fotografia'. Nas duas vezes eu ouvi: ‘querida, não faça isso. Você é a primeira mulher a ser vice-presidente, a sua renúncia pode ser muito ruim para o grupo'. E segui, segui".
Ana voltou a elogiar Fabrício, afirmando que ele preenche todos os requisitos morais para estar na presidência da Ordem. Mas que não poderia, jamais, apoiar a eleição de Luiz Coutinho para presidente da Ordem, com quem ela teve desavenças nesta última eleição, por ter sido alvo de críticas e xingamentos do atual presidente da Caixa de Assistência aos Advogados (Caab), ao ser chamada de puta e traidora (veja aqui). Ana disse que não poderia apoiar essa candidatura por seu compromisso com a pauta feminina e “com compromissos com valores que tenho muito firmes”. “Eu não traí, eu fui leal a tudo que me propus a fazer desde o dia que entrei por aquela porta. Não sou uma traidora, não sou desleal. Olhando para todos os líderes, eu disse que não apoiaria, e saí para defender aquilo que eu realmente acredito: uma OAB mais plural, uma OAB mais inclusiva, uma OAB que a mulher não tenha que ser subserviente”, revelou.
Para Daniela Borges, ela disse que ficou muito feliz em saber que ela será a próxima presidente da OAB da Bahia. Mas confessou uma tristeza. “Eu esperava de você, que você começasse gigante. Quando eu fui chamada de puta, eu esperava de você uma manifestação mais firme, além de duas linhas dizendo que é contra violência a qualquer pessoa”, reclamou. “Ter sido chamada de puta na frente da minha casa, na frente do porteiro, dos vizinhos, da minha filha, foi uma coisa que me machucou muito. Mas também me alegrou, porque me chamaram de puta e todo mundo aqui sabe quem foi, porque não pode me chamar de ladra e nem de corrupta. Porque não pode me chamar de desonesta”, bradou. Ana Patrícia ainda avaliou que, na sociedade, sempre que querem atingir uma mulher a chamam de puta mesmo. “Eu fui chamada de puta porque saí para ser candidata a presidente da OAB”. “Eu não fiquei triste quando um membro do mais alto escalão de vocês me chamou de puta, porque, quando ele me chama de puta, fala sobre quem ele é, e não sobre quem eu sou. Mas fiquei triste com o silêncio de cada uma de vocês conselheiras, algumas que caminham comigo há nove anos, algumas há seis, algumas há três. O silêncio de vocês me doeu muito”, lamentou, lembrando que a OAB fez campanha contra violência contra a mulher na sociedade. “Recebi o nome de puta e me senti mais forte, não constrangida”.
Para Daniela, ela informou que não fará uma oposição desrespeitosa, e que estará aplaudindo quando mostrar a força da OAB. Mas que fará críticas respeitáveis quando for necessário. Já para Coutinho, a quem atribui os atos contra sua honra em sua casa, ela diz que tinha uma mensagem especial. Coutinho foi eleito conselheiro federal pela chapa de Daniela Borges. “Mas ele não tem coragem, ele se esconde. Ele é um fraco, é um covarde, ele só tem coragem de fazer por trás. Eu sou uma mulher que só faço olhando de frente, olhando nos olhos, mas hoje ele fugiu mais uma vez. É um arregão. Ele sabe que é para ele”, declarou.
Ao fim de seu desabafo, Ana afirmou que “é lamentável ter um representante no Conselho Federal que tem coragem de chamar de puta e que nada é feito". "Mas muito será feito. Eu vou falar deste fato todos os dias enquanto ele estiver sentado na cadeira do Conselho Federal. Um conselheiro federal tem que respeitar as mulheres. E se ele não tem esse respeito, todos os dias que eu tiver oportunidade, eu vou lembrar quem ele é. E ele é exatamente o que cada um neste momento está pensando”, apontou. Por fim, declamou um trecho da letra da música “Não mexe comigo”, de Maria Bethânia: “onde vai valente?”.
Fabrício Castro afirmou que sempre buscou separar o lado político do lado pessoal de seus relacionamentos, e que, em toda campanha, tentou ao máximo não responder aos ataques que sofreu, que o magoaram. Avaliou que, enquanto estiveram do mesmo lado na política, tiveram mais encontros do que desencontros, e lamentou as duas conversas que tiveram na vida que foram os pontos cruciais da mudança de Ana Patrícia. “São conversas que ela entendeu tudo errado e que, enfim, mudaram o curso das nossas relações para sempre”, comentou. Fabrício ressaltou que sempre teve um bom relacionamento com a atual vice-presidente, de forma que cogitou se tornarem sócios de escritório. “Eu nunca quis que você não fosse vice-presidente. O que eu disse e digo sempre é que as pessoas exercem papéis independente do cargo que ocupam”, pontou. Reconheceu que Ana tem uma “liderança política incontestável”, e que, assim que tomou conhecimento dos ataques sofridos por ela, através da conselheira Daniela Portugal, a OAB se posicionou contra as agressões. “Você não é puta, você foi candidata a presidente da Ordem, por mais que eu não concorde com muitas coisas que você falou, com muitas manifestações que me magoou, não só a mim, mas a outras pessoas, mas você tem o direito de ser candidata, o direito de seguir o caminho que você quer”, declarou.
