Depois de Guns, quem vem para Salvador? Para empresários, show colocou capital de volta na rota internacional
Por Bianca Andrade
“Depois desse show, Salvador está na rota das turnês internacionais”. Com certeza você leu essa frase após a passagem de Beyoncé pela capital baiana em 2010. E a mesma declaração foi dada após a apresentação de Elton John na Fonte Nova em 2013, após o show de Maroon 5 no Parque de Exposições em 2016, os de Paul McCartney e Roger Waters em 2017 e 2018, respectivamente, na Arena Fonte Nova, e agora com Guns N’ Roses em 2026.
A frase se tornou piada pronta para o público que há anos anseia pelas “portas abertas” por alguma estrela internacional que porventura incluiu a capital baiana como destino em sua turnê. E a pergunta a se fazer é: por que agora será diferente?
Segundo Nei Ávila, nome por trás da vinda de Guns N’ Roses para o Brasil, empresários internacionais já acionaram atores do setor de entretenimento na capital após a repercussão do show de Guns em Salvador, demonstrando interesse em trazer turnês para a cidade. “A gente colocou Salvador de novo na rota do show internacional. Este ano já vai ter um show internacional na Arena, mas não somos nós que estamos trazendo, é uma outra empresa”.
Foto: Luis Vasconcelos/ Bahia Notícias
Não há como negar: o show de Guns N’ Roses em Salvador, no último dia 15 de abril de 2026, entrou para a história. De acordo com a organização local do evento, a Salvador Produções, a apresentação de Axl, Slash, McKagan, Dizzy, Fortus e Carpenter conseguiu colocar aproximadamente 40 mil pessoas na Arena Fonte Nova em uma noite de quarta-feira.
Mas como Guns N’ Roses conseguiu mexer com a cabeça do empresariado a ponto de finalmente conseguir cumprir uma promessa feita há anos? De acordo com Marcelo Britto, CEO da Salvador Produções, a apresentação do grupo de rock foi um dos eventos mais bem avaliados pela produtora.
“Nós fizemos essa produção local com sucesso de público, de aceitação, de produção, de mídia. Tudo realmente ocorreu muito bem. Estamos muito felizes, porque não vai parar por aqui. Abriu portas para a gente realmente ser uma rota das grandes bandas internacionais e trazer essa cultura de fora para dentro, trazer esse turismo de fora para dentro. Potencializar essa economia criativa é o nosso objetivo.”
COMO O GUNS CHEGOU A SALVADOR?
Segundo Nei Ávila, sócio local do evento e head de produção, uma ligação de um outro empresário fora da capital baiana foi o que conectou o Guns a Salvador. A proposta veio com um questionamento e quase um desafio: a cidade consegue comportar esse projeto?
E Salvador provou que sim, dá conta do recado. Assim como Britto, Ávila afirma que a apresentação foi bem avaliada pelo setor, com a mobilização de diversos atores do entretenimento para “fazer bonito”.
Marcelo Britto e Nei Ávila
“O projeto chegou para a gente aqui em Salvador através de um amigo do Rio Grande do Sul; ele me convidou e me disse que estava com a possibilidade de fechar sete datas de Guns N' Roses no Brasil e perguntou se Salvador tinha capacidade. Eu disse que tinha sim, e queria muito botar Salvador no roteiro internacional de novo. Nós tivemos muito cuidado com os detalhes, especialmente com a não superlotação das áreas, comodidade, serviço, transporte... E a gente conseguir fazer um evento bem bacana numa quarta-feira, 42 mil pessoas, muitos turistas enchendo a rede hoteleira, táxi, restaurante; então, tudo isso para a gente é muito bacana. Se a gente não deixar um legado legal dos eventos que a gente faz, não valeu a pena.”
GRANDES ESTRELAS, GRANDES PÚBLICOS
O crédito, no entanto, não se dá apenas ao sucesso do rock. Afinal, outros grandes nomes do gênero passaram pela capital baiana e conseguiram levar um bom público para os espaços, a exemplo de Beyoncé e Maroon 5, que colocaram, respectivamente, 45 mil e 30 mil pessoas no Parque de Exposições.
No Rock, Paul McCartney foi o que mais trouxe público para a capital: 50 mil pessoas assistiram ao ex-Beatle na Arena Fonte Nova. Já Roger Waters colocou 30 mil pessoas no estádio — 10 mil a menos que o Guns.

Montagem feita por Igor Barreto para matéria do Bahia Notícias em 2024
Mas sem essa história de que o rock está morto ou respirando por aparelhos. Para quem vive em Salvador, é quase o mesmo que dizer, após cada Carnaval, que o Axé morreu. Entender movimentos e estilos musicais é saber que a sazonalidade existe e, além disso, a forma de consumo do público é o que verdadeiramente dita o sucesso de algo.
O sucesso com Guns N’ Roses em Salvador se dá por diversos motivos que não apenas a paixão pelo rock — que, é claro, mobilizou fãs de várias partes da Bahia e de outros estados próximos que escolheram a capital para assistir ao show.
Entre os fatores estão a demanda reprimida de um público que clama há anos por uma grande atração internacional na cidade e não perderia a oportunidade de viver um momento histórico para Salvador; o status de estar em um show internacional; e a famosa sigla da internet, a "FOMO" (Fear of Missing Out), em tradução literal para o português: o medo de ficar de fora de algo.
Sem julgamentos. Se o ingresso está sendo vendido sem restrições, quem tem dinheiro para comprar o tíquete, que vá curtir o show; afinal, um show cheio atrai o olhar do empresário, ainda que quem tenha o ingresso não saiba cantar uma palavra do maior sucesso da banda.
Para Britto, é necessário entender o que o público quer, mas também entender o que puxa o público. A demanda fala mais alto e conversa não só com um estilo musical em específico — lógica que justifica, por exemplo, o sucesso dos shows de arrocha e sertanejo na cidade; é o que chama público.
“Há uma exigência do público, há um pedido. Hoje, devido a alguns apoios de patrocínio e também dessa demanda reprimida, a gente consegue nos fortalecer, porque o show internacional não é uma festa que se paga com cinco, dez mil pessoas. É uma festa cara e, obviamente, a gente precisa trazer esses grandes festivais para cá. É um desafio, mas um desafio gostoso, porque não vai parar por aqui”.
CASA CHEIA E COM TURISTA
A Arena Fonte Nova lotada no dia 15 de abril se dá, é claro, pelos fãs locais, mas também pelo público de fora, que escolheu a capital para curtir a banda e não outros sete destinos anunciados pelos norte-americanos.
“Vieram 17 ônibus de Vitória da Conquista, ônibus de várias regiões da Bahia. De Aracaju, se eu não me engano, foram vendidos 500 ingressos; em Maceió foram 1.800 ingressos. Para a gente, é só uma forma de reafirmar que existe público, e eu acho que Salvador tem que estar sempre lembrada no roteiro de grandes atrações nacionais e internacionais. Teve gente de Caruaru, teve gente de Recife, teve gente do Nordeste todo. Logicamente a cidade de São Luís, no Maranhão, vai ter show, então a pessoa não desceu. A Bahia ficou muito privilegiada porque não teve nada ao nosso redor.”
Ao BN, Ávila explicou a questão da disputa entre as cidades do Nordeste para receber as atrações internacionais. Ao colocar Salvador como privilegiada com a situação do Guns, o empresário explica que, caso a banda escolhesse uma cidade mais próxima da Bahia que não fosse Fortaleza, provavelmente o público da capital seria reduzido a quase metade.

Foto: Divulgação
“Nós disputamos com Recife, e aí foi meu papel de entrar e forçar a barra para Salvador. Então, se Recife tivesse feito, a gente estaria talvez perdendo, porque Maceió fica a 200 km de Recife e fica a 600 km de Salvador. Então o povo ia para lá. A gente conseguiu trazer todo mundo para cá e foi bem bacana.”
Uma das questões citadas pelos empresários em entrevistas ao Bahia Notícias sobre shows internacionais foi justamente sobre a vinda de um público externo para a capital baiana e a disputa com outras capitais nordestinas.
Em 2026, a GOL, por exemplo, anunciou um novo banco de conexões com o objetivo de expandir a malha aérea a partir do aeroporto da capital baiana. O banco aumenta a frequência de voos de forma estratégica a nove destinos: São Paulo/Congonhas (CGH), Belo Horizonte (CNF), Natal (NAT), Vitória (VIX), Maceió (MCZ), Recife (REC), Fortaleza (FOR), Campina Grande (CPV), na Paraíba, e Petrolina (PNZ), em Pernambuco — ideal para deixar a capital baiana na rota dos shows internacionais.
“COMO ESSE PESSOAL ARRUMOU DINHEIRO PARA INGRESSO CARO?”
Curtir um show, em especial um internacional, se tornou um luxo pelo valor cobrado na entrada. Mas de qual lugar o valor sai na hora de pagar o ingresso em alguma bilheteria pouco importa ao empresário. A questão com os grandes shows internacionais envolve planejamento, tanto de quem traz o show para a cidade, quanto de quem é fã e quer comprar o “bilhete premiado”.
Nas últimas apresentações internacionais em Salvador, o ingresso para o show não chegou a comprometer metade de um salário mínimo, por exemplo. Se colocar na ponta do lápis, o ingresso mais barato para o show de Guns em Salvador custou R$ 285 no 1º lote. Na época, o salário mínimo era de R$ 1.518,00, o que comprometeu, para quem comprou a cadeira superior, 18,77% da renda mensal.
Ao site, Ávila afirmou que, durante o processo para a captação dos shows, é necessário levar em consideração o bolso do público, é claro. Quando se trata de Salvador, show internacional em janeiro, fevereiro e março — como aconteceu com Bad Bunny em São Paulo, por exemplo — é um tiro no pé; afinal, a cidade respira Carnaval e o folião não "transpira" dinheiro para tratar isso como prioridade.
“Eu sei que depois do Carnaval o público de Salvador está sem dinheiro porque gastou todo o dinheiro na festa; então, não adianta eu trazer uma grande atração porque ele não vai ter aderência. Todo esse estudo que a gente faz de logística para poder pensar e planejar um grande espetáculo em Salvador demanda tempo.”
Para 2026, o público pode ter uma folga no valor dos ingressos, caso o Projeto de Lei do deputado Guilherme Cortez (PSOL) consiga derrubar a taxa cobrada pelas tiqueterias sobre os ingressos vendidos pela internet. A mobilização ganhou ainda mais força após a venda das entradas para os shows do grupo coreano de k-pop BTS em São Paulo, 20% do valor do ingresso.
A proposta determina transparência na cobraça das taxas, que acabam afastando o público dos eventos pelo aumento no valor do ingresso, dificultando, assim, o acesso da população a cultura.
SE TEM ROCK, PODE TER POP, RAP, REGGAE E K-POP
O show do Guns provou que sim, o rock tem público por aqui — ainda que seja com as grandes atrações consideradas “mainstream”, isto é, os grandes artistas impulsionados pela mídia. Tem público também para os artistas locais, respeitando suas limitações e especificidades.
Mostrou que o mesmo público que consegue colar na corda de Bell também curte a experiência de abrir uma roda em um show de punk. Que dá para sofrer tanto com o piano de Axl em ‘November Rain’ quanto com a voz inconfundível de Pablo em ‘Contato’. Provou que quem usa spikes também pendura colar de Gandhy no pescoço em fevereiro. Mas, para além de estilo musical, o show mostrou que Salvador tem capacidade de ser palco para shows de grandes estrelas internacionais.
A questão ainda é a falta de espaço físico para receber essas estrelas, até porque vontade não é o que move o mundo, apesar de os sonhadores pensarem dessa forma. De acordo com o prefeito Bruno Reis (União Brasil), a Arena Multiuso será um respiro para o setor e uma oportunidade de trazer artistas para a capital em espaços menores que a Fonte Nova.
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E a ideia, segundo Marcelo Britto, é experimentar na capital shows internacionais para um público menor, atendendo aos desejos nichados. “A gente precisa trazer para Salvador bandas menores também, shows para 5 mil pessoas, mas que tenham um cachê mais baixo, que tenham grandes hits aqui no Brasil; esses nomes também precisam estar em Salvador. E a gente está trabalhando com essas possibilidades”.
Para 2026, há um novo nome internacional garantido na capital baiana, além do show da cantora britânica Jorja Smith no Afropunk Brasil. O presidente da Arena Fonte Nova, Alexandre Gonzaga, confirmou a novidade, mas ainda faz suspense quanto ao nome.
“O mercado de eventos é um segmento importante para a economia local, pois movimenta a rede hoteleira, restaurantes e o setor de serviços. Esse impacto vale tanto para atrações de fora quanto para shows nacionais. Temos um trabalho contínuo de captação e, este ano, nossa programação está repleta de grandes artistas. Estamos viabilizando a vinda de novos nomes, com artistas do Brasil e do exterior, que serão divulgados em breve.”
Com tudo isso dito, a certeza é de que a primeira capital do Brasil está de portas abertas para receber um novo e grandioso show. Pode ser hippie, pop, reggae ou rock. Sendo uma grande estrela da música, acredite: terá sucesso em Salvador.
