“80 girassóis”: Alceu Valença exalta tempos que construíram clássicos da música brasileira
Por Laiane Apresentação
“O tempo se dilata como um fio, cordão, elástico, caminho, estrada que nos transporta”, diz a composição “Samba do Tempo”, de Alceu Valença. A música, lançada em 2005 no álbum “Embolada do Tempo”, ainda revela muito sobre a perspectiva do cantor 21 anos depois.
Prestes a completar 80 anos no dia 1º de junho, o artista se apresenta com a turnê “80 girassóis” na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, nesta sexta-feira (10). Na mesma composição, ele afirma que “a gente segue o tempo e ninguém nota, seus caminhos, suas rotas, por onde o tempo seguiu. Depois quer viver tudo que viu, vai bater na mesma porta de onde um dia saiu".
Ao BN, o cantor explica que, para ele, o tempo tem muitas portas. “Tem a minha porta da casa do Riachão, de papai, onde eu podia bater pra voltar no tempo. Tem o tempo Recife, onde morei. O tempo Olinda, onde às vezes eu moro. O tempo Rio de Janeiro, onde vão bater na orla do Rio. O tempo Paris, onde eu morei, batia na porta de um apartamento”, explica.
“O tempo, eu acho que ele vai pra frente, vai pra trás, ninguém sabe a questão do tempo não”, completa Alceu. Dono de grandes clássicos como ‘La belle de jour’, ‘Anunciação’ e ‘Morena Tropicana’, sua trajetória é tão extensa que se tornou enredo de documentário - de Lírio Ferreiro - e de musical - de Duda Maia.
De Pernambuco, da região do sertão profundo, o cantor teve contato com similaridades culturais com Salvador, onde visitou pela primeira vez durante seu período universitário. “Na terra de Glauber Rocha tem cordéis, eles fazem cantadas, tem cantadores, tem tudo isso”, explica o artista.
“Lá nós temos uma cultura que veio de Portugal. Às vezes a gente tenta negar isso, né? Aqui também tem. Então eu acho que existe uma similitude entre o Pernambuco e a Bahia, como existe entre Pernambuco e Paraíba, Pernambuco e Alagoas, com Sergipe, a Bahia e o Pernambuco”, completa Alceu.
Com quase 8 décadas de vida e na música desde 1970, após participar do Festival Internacional da Canção de 1969, o cantor também utiliza o tempo como guia para o repertório do show, que já passou por Rio de Janeiro e São Paulo.
“Eu segui uma linha do tempo, quase uma linha de tempo cinematográfica. Então eu começo com uma música de quando eu comecei, da década de 70, depois você vai com o tempo passando pelo tempo São Bento, da minha terra, depois vai acontecer o tempo Recife, depois vai acontecer o tempo Rio de Janeiro, o tempo Paris”, conta o artista.
Sem perspectivas de pausa ou despedidas em sua carreira futura, o cantor encarou ao longo da trajetória grandes mudanças sociais e políticas. Uma delas, é a dinâmica da internet e redes sociais.
Tendo demorado cerca de 10 anos - que neste período possuía lançamentos de álbuns, a Ditadura Militar em curso, um exílio voluntário à Paris e até mesmo uma peça - para que sua carreira obtivesse o primeiro grande sucesso de gravação, o cantor explica que não se daria tão bem com as redes sociais.
Seu primeiro disco lançado foi em colaboração com Geraldo Azevedo, “Quadrafônico”, em 1972. A partir daí, entre 1972 e 1998, cerca de 18 álbuns foram produzidos e lançados. Ao BN, o cantor cita alguns primeiros, como “Molhado de Suor” (1974), “Saudade de Pernambuco” (1979), “Coração Bobo” (1980) e “Cinco Sentidos” (1981).
“Quando a internet chegou, aí começaram a existir virais”, contou. Esses virais, para o cantor, são complicados de se entender ou prever, o que dificulta o caminho dos artistas nas redes sociais.
“O viral ninguém entende o que é. Porque se acontecesse viral e fosse uma coisa muito lógica… vamos dizer, o filho de um artista internacional bilionário, o artista ia colocar o filho dele pra poder cantar. Acontece que ninguém sabe, porque viral é viral”, argumentou.
“O viral é uma coisa que acontece, mas ninguém sabe porque e como acontece. É complicado. Mas o que acontece? Muitas pessoas, evidentemente, que tem muito talento, não consegue colocar a cara de fora porque é uma outra história, muito difícil”, completa.
