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Coluna

Blog do Marrrom: Escola Popular de Cinema Glauber Rocha será inaugurada em Santos

Por Osmar Marrom

Fotos: Divulgação - Nice Gonçalvez e Júlio Lucena

Um espaço onde moradores das periferias poderão aprender a transformar suas próprias histórias em cinema. Com essa proposta, o Instituto Arte no Dique inaugura, nesta quinta-feira, 8 de outubro, às 19 horas, a Escola Popular de Cinema Glauber Rocha, na sede da instituição, no Dique da Vila Gilda, em Santos. A cerimônia terá a participação especial de Pedro Paulo Rocha, filho do cineasta Glauber Rocha, um dos nomes mais importantes da história do cinema brasileiro.

 

A Escola representa um novo capítulo na trajetória do Arte no Dique, que há mais de duas décadas utiliza a cultura, a educação e a formação profissional como instrumentos para ampliar oportunidades na Zona Noroeste de Santos. Agora, o audiovisual passa a ocupar um espaço permanente dentro desse trabalho.

 

Mais do que ensinar a operar câmeras ou editar imagens, a proposta é formar novos realizadores e abrir espaço para que histórias normalmente observadas pelo olhar de quem vem de fora possam ser contadas por quem vive e conhece essa realidade.

 

Presidente e fundador do Instituto Arte no Dique, José Virgílio Leal de Figueiredo, o Zé Virgílio, destaca que a Escola mantém a essência que acompanha a instituição desde sua criação.

 

“O Arte no Dique nasceu acreditando que a cultura poderia abrir caminhos onde muitas vezes as oportunidades não chegavam. Mais de 20 anos depois, continuamos com o mesmo propósito: mostrar para cada criança e cada jovem que o lugar onde eles nasceram não determina onde podem chegar”, afirma.

 

Cinema feito a partir da periferia

A Escola Popular de Cinema Glauber Rocha é destinada a interessados em audiovisual das periferias da Baixada Santista. O curso é livre, gratuito e tem duração de dez meses.

 

Segundo a coordenadora Juliana Rodrigues, a formação foi pensada para aproximar os estudantes tanto da linguagem cinematográfica quanto da realidade profissional do setor. 

 

“A Escola é destinada a todos os interessados em audiovisual da periferia da Baixada Santista. O curso tem dez meses de duração e a nossa ideia é produzir dois filmes na conclusão de cada ano”, explica.

 

A grade contempla diferentes etapas da produção audiovisual, com disciplinas de Teoria e História do Cinema, Roteiro, Direção, Direção de Fotografia, Produção, Som, Montagem, Direção de Arte e Comunicação.

 

Os professores são profissionais que atuam no mercado de Santos e de São Paulo. Para Juliana, esse contato também permite que os alunos compreendam como funciona profissionalmente o universo do audiovisual, conheçam áreas de atuação, possibilidades de carreira e até referências de valores praticados pelo setor.

 

“É também uma forma de incentivo para quem se interessa em mudar de área ou enxerga no audiovisual uma possibilidade profissional”, afirma.

Da ideia à tela

As aulas combinam teoria e prática. Por meio de recursos provenientes de emenda parlamentar, o Arte no Dique conseguiu investir não somente na realização do curso, mas também na compra de equipamentos profissionais.

 

A estrutura inclui câmeras, equipamentos de iluminação e captação de som, além de computadores destinados à montagem e à edição. A proposta é permitir que os estudantes acompanhem e executem todas as etapas de produção de uma obra audiovisual.

 

“A ideia é que tudo seja feito pelos alunos, com orientação dos professores e também de grandes nomes do mercado que serão convidados para palestrar e orientar os estudantes”, explica Juliana.

 

Isso significa que os participantes poderão experimentar desde a criação de uma ideia e a elaboração do roteiro até produção, direção, fotografia, som, gravação, direção de arte, montagem e divulgação.

 

Ao longo da formação, os talentos e interesses individuais também serão respeitados. Um estudante que demonstre maior afinidade com roteiro, fotografia, som ou direção, por exemplo, poderá aprofundar essa vocação sem deixar de conhecer as demais áreas.

A comunidade contando a própria história

Um dos pilares da Escola é justamente o protagonismo dos alunos e do território onde eles vivem.

 

As histórias que chegam às salas de aula partem da realidade dos próprios estudantes. A partir delas, professores ajudam na construção de narrativas, no desenvolvimento de personagens e na busca de novos olhares sobre os temas escolhidos.

 

“As histórias partem sempre da realidade dos alunos. Os professores trabalham na orientação dessas ideias, ajudando a encontrar um caminho e um novo olhar sobre os temas abordados. Nossa ideia é que o aluno seja protagonista e pertencente ao todo, seja no tema escolhido ou no resultado final”, ressalta Juliana.

 

A expectativa é que a Escola ajude a revelar histórias, personagens, memórias e experiências da Zona Noroeste e das periferias da Baixada Santista a partir do olhar de quem pertence a esses lugares.

 

Para a coordenadora, a localização da iniciativa também carrega um significado especial.  “Sendo Santos a cidade do cinema, queremos colocar a Zona Noroeste como protagonista também da formação de novos talentos desse mercado.”

 

Filmes para ganhar o mundo

O projeto não pretende limitar as produções às salas de aula. A intenção é que os filmes realizados pelos estudantes sejam inscritos e apresentados em mostras e festivais nacionais e internacionais.

 

O Arte no Dique também trabalha na construção de uma parceria na França, que poderá ampliar o intercâmbio e criar novas oportunidades para os jovens formados pela Escola.

 

“Queremos que os filmes produzidos pela Escola passem em festivais em todo o Brasil e também no exterior. Temos uma parceria sendo construída na França que vai abrir uma porta muito grande para a expansão da Escola e para a revelação dos talentos que passarem por aqui.

 

Homenagem

A escolha de Glauber Rocha para dar nome à Escola reforça a proposta de estimular um cinema capaz de olhar para o Brasil, suas contradições, identidades, territórios e personagens. A presença de seu filho, Pedro Paulo Rocha, na inauguração aproxima simbolicamente esse legado de uma nova geração que começa a construir suas próprias narrativas a partir da periferia de Santos.

Para o Arte no Dique, a inauguração da Escola Popular de Cinema Glauber Rocha não representa apenas a abertura de um novo curso. É a criação de um espaço permanente para que novos olhares surjam, novas profissões sejam descobertas e, principalmente, para que a periferia deixe de ser somente cenário e passe cada vez mais a ocupar também os lugares de autoria, direção, criação e protagonismo.

SERVIÇO
Inauguração da Escola Popular de Cinema Glauber Rocha
Data: 8 de outubro de 2026
Horário: 19 horas
Local: Instituto Arte no Dique – Dique da Vila Gilda, Santos
Participação especial: Pedro Paulo Rocha, filho de Glauber Rocha