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Luis Ganem: O novo axé! Como serão os futuros verões

Por Luis Ganem

Duas Medidas, Rafa Chaves e Oito7Nove4 comandam renovação, diz Ganem.

Duas Medidas, Rafa Chaves e Oito7Nove4 comandam renovação do axé, afirma Ganem

Poderia falar aqui de todos os aspectos deste carnaval que foi, como um todo na minha ótica, diferenciado. De entrada, começaria falando sobre o furdunço, que ouvi dizer por aí que já existia, mas com outro nome. Seja lá que nome teve, não diminuiu em nada o fato de ter voltado – se é que antes existiu mesmo. Poderia também falar da história do bloco sem cordas, ideia essa, que aí sim, já se falava há muito tempo, e que agora voltou reeditada pelas mãos de expressivos artistas da nossa música, que começam a entender que carnaval também pode existir sem cordas.
 
Enfim, poderia falar de muita coisa que vi nesse carnaval. Só que desse muito que vi, vou me ater a um detalhe imprescindível que pode ter passado batido para muitos, ou apenas formalizado de forma rápida em algum texto ou em algum outro comentário, mas que pra mim, alicerçou o fato mais importante da música baiana: a sua renovação.
 
E dentro desse caleidoscópio de efeitos visuais dos mais variáveis possíveis que é o Carnaval de Salvador, três produtos, cada um com a sua escola de aprendizado, vindos e chegados de forma distinta e por caminhos diferentes, tiveram a minha mais profunda atenção, quando da sua passagem pela avenida: a banda Duas Medidas, da qual já falei um pouco em um texto anterior, a banda ou dupla – como queiram - Oito7nove4 e o novo cantor da banda Chiclete com Banana, Rafa Chaves. 
 
Três formas diferentes de enxergar e fazer um mesmo som, o axé. Mais do que isso, três formas de recomeço para a nossa tão combalida e criticada música baiana. Começando pela banda Duas Medidas, posso dizer, sem medo de errar, que os caras estão no caminho certo. E olha que essa galera ralou e tem ralado muito para se tornar uma opção do novo. 
 
Oriundos do movimento jovem, que invade os intervalos de escola nos quais o som ao vivo sempre rola, vi uma banda altamente plugada com seus associados na passagem deles com o bloco Burburinho na Barra. Se percebia que a juventude que acompanhava o bloco estava ali pela banda e não por ser apenas um bloco de Carnaval. Vi a espontaneidade do produto, vi verdade e não a coisa forjada ou formatada para render matéria ou vender abadá. O que me fez perceber que quem deixou de comprar abadá é quem não aguenta mais ir atrás do trio. O jovem quando gosta, compra e vai atrás.
 
O outro produto, dupla ou banda – nunca sei como dizer – que me chamou a atenção na festa foi a Oito7nove4 de Rafa e Pipo. Me chamou a atenção mesmo ver que a rapaziada está fazendo um som de gente grande. Quando vi que na lista de blocos e bandas que iam passar estava a dupla, imaginei que fosse encontrar os mesmos dois meninos magrinhos, acanhados, todos sem jeito que conheci a dois anos atrás em um outro evento que eles tocaram. Mas o que vi foi dois adultos, maduros, conscientes do que estavam fazendo. Sinceramente, ali estavam Rafa e Pipo, e não os filhos do famoso cantor. Os caras tocaram de coração, como artistas já de longa estrada. Lógico, o novo ainda precisa ser muito trabalhado, mas já segue seu caminho, sem precisar de reboque. E digo mais: se “peixinho”, a música do Oito7Nove4, tivesse sido lançada mais cedo nas rádios – soube que só foi lançada em janeiro – teria dado muito trabalho a “Xenhenhém” de Márcio Vitor e sua banda Psirico, e a “Gordinho Gostoso” de Neto LX. 
 
E como a terceira referência da nova música baiana que vi passar nos meus dias de Carnaval, vou citar o cantor Rafa Chaves que assumiu os vocais do Chiclete com Banana. Olha, é muito difícil, mas muito mesmo, você assumir ou tomar a frente de algo que já é consolidado e que tem um referencial de mais de trinta anos, sem sofrer uma enxurrada de comparações de tudo quanto é lado. E mais difícil ainda é ter que em, tão pouco tempo, entender como funciona a engrenagem desse produto e conseguir imprimir a sua marca ou a sua personalidade, sem modificar a estética que já existia. É isso tudo que significa Rafa Chaves à frente do novo Chiclete com Banana. A vinda do novo, sem modificar o que já existia. Foi marcante vê-lo passar na Avenida, pois a minha curiosidade era justamente saber que marca ele iria deixar como o novo. E, sinceramente falando, na passagem dele o que mais gostei foi o fato de impor sua personalidade, não deixou se tornar a caricatura do antes.
 
Lógico, escolhi três artistas que passaram por mim. Fica faltando aqui o BaianaSystem, que muito ouço falar, mas que nesse carnaval acabei não tendo a oportunidade de ver passar, e alguns outros artistas. Sejam dez, vinte, ou quantos novos surgirem, no final de tudo, o que fica claro é que o novo está sim conquistando o seu espaço. Poderia estar mais, se pudéssemos renovar também as velhas raposas por novas. Mas se isso já é demais. Bom saber que a juventude já escolheu seus novos ídolos.

Luis Ganem

luisganem@bahinoticias.com.br