Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Marca Bahia Notícias Holofote
Você está em:
/

Coluna

Luis Ganem: A eterna briga pela vaga na fila!

Por Luis Ganem


Há mais ou menos um ano, mais precisamente em 2013, a venda de uma vaga na fila dos blocos, para que um artista pudesse cantar no carnaval de Salvador, virou uma polêmica que gerou inúmeras conversas nos quatro cantos da cidade. E, por tabela, essa discussão gerou alguns questionamentos, como, por exemplo: para o folião pipoca, ou para quem curte o carnaval, que relevância tem a ordem de passagem pelo circuito de uma “estrela” da música baiana?
 
Mas essa discussão não é de agora, vem dos primórdios do carnaval, do começo, do surgimento da nova música baiana –  isso na década de oitenta. Quando apenas o circuito Campo Grande (depois renomeado de circuito Osmar) existia. Foi naquele momento, com a profissionalização da folia, que começou a ficar mais forte essa discussão, por lugar e ordem na fila. A grande questão, para quem brigava por isso na época, era poder sair mais cedo, no pensamento de que, quanto mais cedo se saísse, mas cedo se voltava para casa e consequentemente, se vendia mais mortalha (pano único, que cobria o corpo apenas com um buraco no meio e que vinha sempre com desenhos alusivos à homenagem que o bloco fazia no ano), já que a noite não tinha o brilho de hoje.
 
A rua de noite, lembro bem, era um lugar perigoso, inóspito, meio que dantesco, feito para os que tinham coragem. Era, por assim dizer, heroico sair à noite. Das brigas entre agremiações de blocos de índios (blocos que tinham em seu nome tribos indígenas como apaches, comanches, e que quando se encontravam, brigaram) até as temidas passagens pelas patrulhas mistas das forças armadas (até perto do fim da década de oitenta, as forças militares federais ainda apoiavam a policia militar estadual no patrulhamento das ruas em dias de carnaval, com equipes das policias do Exército, Marinha e Aeronáutica atuando na manutenção da ordem). Quem ia pra noite a rua no carnaval de Salvador, sempre voltava com uma história pra contar.
 
Hoje é diferente. A tão temida noite se tornou a mais interessante das horas. Nem a avenida serve mais como referencial, e, por conseguinte, a rua – como dizem - ou o carnaval, hoje somente começa de verdade depois do raiar do Sol. Quem prefere pular de dia e no Campo Grande, o faz motivado por diversos outros fatores que não o medo da noite.
 
Fui ao passado para mostrar que essa briga por vaga é antiga e os motivos ainda são os mesmos. Desde que o circuito da Barra foi criado e que as redes de televisão migraram, em quase a sua totalidade, abrindo espaço na grade televisiva noturna para a transmissão da folia (pela falta de produção televisiva a noite e pela pequena audiência, já que de noite normalmente a maior parte da população está dormindo) que essa bagunça de lugar na fila começou novamente a acontecer. E mais: quem vende, cede, ou aluga um espaço, se o faz, é por uma questão meramente administrativa (retirar o que investiu ou por aperto financeiro), e só. Lógico, digo isso sem querer entrar no mérito de quem é o dono da vaga, o poder público ou o empresário, e se ele pode vender ou não.
 
Agora, me responda você: O quanto é tarde esse último lugar na fila de desfile da Barra, para ninguém querer? Para o carnaval como um todo, não seria interessante que, artistas já conhecidos e consagrados tocassem mais tarde, como forma inclusive de entreter o folião já que a noite é longa, e normalmente quem vai a rua fica até de manhã?
 
Soube que a grande dúvida do conselho do carnaval e seus pares é se a validade da lei já seria para o carnaval de 2015 – no entendimento de que o carnaval acontece no começo do ano vigente. Ou para 2016 – entendendo que o carnaval acontece de um ano para o outro, sendo que a vigência dele mesmo sendo o segundo mês do ano posterior, se dá pelo ano anterior.
 
Penso que, quem tem que sair ganhando com isso é a festa como um todo. E, vendo por esse ponto, seria mais interessante para a venda do carnaval lá fora o turista saber que existem grandes atrações tocando no começo, no meio e no fim da programação.
 
Criar uma nova cultura não é algo tão difícil como possa parecer. A Banda Harmonia do Samba e a sua "melhor segunda-feira do mundo" estão aí para provar que é só ter vontade. Pegaram a Segunda-feira um dia da semana normalmente ruim, já que é o primeiro dia da jornada de trabalho semanal, e transformaram em um sucesso de público, sempre com vendas esgotadas.

Como bem disse o Ministério Público, o entendimento aqui não é julgar ninguém, mas apenas fazer valer o que previamente ficou acordado e votado, e portanto, poder defender a festa enquanto instituição, enquanto coisa maior, e não os interesses desse ou daquele artista.


Luis Ganem
 
luisganem@bahianoticias.com.br