Nossa língua pátria!

Coluna fala sobre participantes do programa Superstar, da Rede Globo
Fico imensamente feliz quando tenho a oportunidade de ver na televisão programas semanais ou diários que dão oportunidade a novos talentos. Eu mesmo, a mais ou menos dois anos atrás, durante o tempo que estive a frente do Universo Axé na TV Aratu(SBT)/Bahia, ainda hoje apresentado pelo comunicador Alex Lopes, fazia questão - junto com o apresentador - de dar espaço ao novo. O que era pra mim motivo de orgulho, pois estava exercendo, antes de tudo, o papel de fomentador, de incentivador da música. E, por tabela, garimpando novos talentos para o nosso mercado.
Mas, no programa que dirigia, de vez em quando, a insistência e a influência que a língua estrangeira exercia nos aspirantes a estrela, fosse cantando ou dançando, se tornava um detalhe que, ao mesmo tempo, me deixava curioso e chateado, pois não conseguia entender o porquê renegar a nossa língua e a nossa música, em detrimento de qualquer outra.
Bem, passado o tempo e vindo agora para o presente, tenho ultimamente assistido nos fins de semana o programa Superstar da Rede Globo (game show onde bandas passam por eliminatórias até que uma seja a vencedora) e notei de novo que as bandas que se apresentam, ao menos nos programas que vi, tem uma tendência a cantar em outra língua que não a pátria. Não que isso seja um problema ou que não goste de músicas estrangeiras. Mas não consigo entender o porquê de um programa que se propõe a descobrir novos talentos da música brasileira venha a escolher e incentivar um talento que cante em um idioma que não o dele, e como isso vai se fazer valer no cenário musical nacional, já que o forte do produto é cantar em inglês.
Lógico, é importante dizer que esse fenômeno não é novo. Desde que a música estrangeira adentrou ao cenário nacional, isso na década de quarenta ou cinquenta, que essa tendência existe. A diferença do antes para o agora, é que, nos primórdios do disco de vinil, o artista de fora servia apenas de referência de tendência, estilo, e ritmo. Servia como um norte para a boa música brasileira. Quantos estilos já foram criados e até copiados, mas sempre cantando em português? Do rock’n’roll as músicas românticas, passando ainda pela black music, vários artistas nacionais surgiram ao longo desses sessenta e seis anos, contados a partir da criação do disco de vinil.
Por isso, para mim, nada mais incompreensível - do ponto de vista musical - do que ouvir novas e belas vozes e novos bons talentos que estão participando do programa, abrirem mão de se mirarem nos grandes valores nacionais, para cantarem sucessos comerciais, que se agora soam bonito, não vão significar nada, no momento seguinte.
Acredito que programas como esse da Globo e de outras emissoras deveriam incentivar interpretações de nossas músicas, como os lendários festivais da música popular brasileira de outrora que lançaram para o mercado uma geração de cantores como: Elis Regina, Guilherme Arantes, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jorge Ben, Raul Seixas, Djavan, Alceu Valença, o fantástico Luís Melodia, meu ídolo Emilio Santiago, Jair Rodrigues e uma outra tanta de compositores e letristas de reconhecimento até internacional.
Não sou preconceituoso, nem quero fazer aqui a linha do politicamente correto, mas prefiro em muito a minha música, com seus variados ritmos e seus artistas que cantam em português. É inquietante ver que enquanto lá fora somos cultuados e admirados pela beleza harmônica que nossa música possui, aqui existe um profundo desinteresse e desconhecimento sobre a história musical do País.
Mesmo sendo utopia, gostaria de ver um dia um festival de música que tivesse como primeiro e único critério se interpretar em português, dando voz e vez e espaço a tantos Roberto Carlos e Elis Reginas que devem existir nesse País.
Que sejam eternos nossos ídolos.
Luis Ganem
Luis Ganem
“Um povo que não conhece a sua História está condenado a repeti-la”
