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Coluna

Qual é a música, maestro?

Melhor: adjetivo que demonstra a qualidade, estado ou característica de um substantivo. Podemos dizer que, se alguém ou algo é caracterizado como o “melhor”, está acima da media ou se destacou mais do que os outros. Assim explica mais ou menos qualquer dicionário sobre o adjetivo.
 
E por falar em melhor, e indo aos finalmentes, vinha retardando há muito tempo o texto sobre as melhores músicas do carnaval, pois queria ter um pouco mais de convicção sobre esse tema, muito complicado, diga-se de passagem, porque nunca é fácil desenvolver uma opinião sem que se pareça tendencioso ou partidário, principalmente quando se vale de uma escolha, como no caso da melhor música da folia.
 
Mas, desta vez, vou focar em apenas duas músicas que, para mim são as fortes concorrentes a música do carnaval, e seus intérpretes. Falo de “Raiz de Todo bem”, interpretada por Saulo Fernandes em sua estreia como cantor solo, e “Lepo Lepo”, interpretada por Márcio Vitor e sua banda Psirico.
 
Aqui, vou tentar falar um pouco mais de cada música – mais do que já se falou – e um pouco de cada artista e do envolvimento de cada um deles na música baiana, tentando mostrar mais ou menos como cada um chegou ao ponto que está.
 
Lepo-Lepo, poderia dizer que é uma arrochadeira (termo criado para denominar um arrocha com mais percussão, ou mais percussivo). Sua letra, que reflete de forma alegre e despojada a realidade da dureza da vida, tenta exprimir em dois momentos a vida do peão: grana e mulher. Sua letra simples mas direta diz que o cara está duro, perdeu tudo que tinha, e agora vai saber da namorada ou esposa se o amor por ele era somente pelo dinheiro ou se a forma de ele fazer amor (lepo-lepo) faz diferença.
 
A música é cantada por um artista que está para o pagode assim como Carlinhos Brown está para o axé, que é Marcio Vitor. Marqueteiro de marca maior, Márcio possui uma genialidade e um tino comercial diferenciado. A mudança feita por ele na forma de tocar músicas de pagode se tornou referência para o ritmo depois de ascensão do Psirico. Com uma veia percussiva ímpar e com a experiência de ter tocado com grandes artistas do mercado nacional, Márcio trouxe para o ritmo um novo formato de frases musicais, diferente do que se fazia no pagode da Bahia de então. Da Bacurinha, tocada com baquetas de nylon (flexíveis e que dão mais suingue ao instrumento) a uma percussão dobrada e um volume mais a frente, passando por um contrabaixo e uma bateria mais “groovados”, Márcio ainda trouxe para o ritmo uma forma de cantar que ficava entre o canto e o sofrejo das músicas.
 
“Raiz de todo bem”, de Saulo Fernandes, traz na sua letra a convicção de ser a cidade do Salvador, o centro de boas vibrações e das boas energias, e ressalta ainda na sua letra o orgulho da negritude. Em versos que denotam ao orgulho de uma raça, Saulo chama para si a responsabilidade de deixar claro o que de mais belo existe na cidade mais africana fora da África: a cordialidade e a hospitalidade do soteropolitanos e expõe seu amor e seu orgulho por Salvador e tudo que a cidade representa dizendo no seu refrão: “Africa iô iô / Salvador, meu amor a raiz / de todo bem de tanta fé / Do canto o Candomblé”. 
 
Posso dizer que Saulo está para o axé assim como Caetano esteve para a Tropicália. De gestos e fala mansa, Saulo consegue fazer da poesia música. Da mesma forma que Márcio Vitor fez com o pagode, Saulo conseguiu revolucionar o axé trazendo-o de volta a sua essência, o samba-reggae. De melodias doces e sempre falando da vida, do amor, da amizade e de tudo que gere energia positiva, Saulo hoje é referencia para qualquer artista que queira fazer boa música.
 
Cada um no seu estilo, cada um na sua forma, Saulo e Márcio, Márcio e Saulo e suas “raízes e lepos” significam, diferentemente da escolha, a esperança para uma música que estava praticamente falida e obsoleta e bastante repetitiva na sua fórmula.

Independentemente da música que venha a ser a escolhida dos foliões, para mim as duas são campeãs, por exprimirem cada uma do seu jeito e forma, nossa gente, nossa cidade.
 
Ave Marcio Vitor, paz e luz Saulo Fernandes.
 
Luis Ganem
luisganem@bahianoticias.com.br
Twitter: @luis_ganem