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Coluna

Festas de largo - Um dia fui feliz!

Por Luis Ganem

 

 

Olha como as coisas são. Meu texto já estava pronto, na ponta para mandar para o editor e, lendo a coluna dominical do jornalista Samuel Celestino que fala sobre o "sepultamento" da cultura e das festas tradicionais, veio à lembrança as festas de bairro que antecediam o carnaval e como elas eram significativas e importantes para meio artístico musical. E como elas ajudavam e ajudaram a consolidar bandas, artistas e músicas.
 
Pela ordem: Conceição da Praia, Bonfim, Pituba, Itapuã e Rio Vermelho. De pronto posso dizer que todas eram muito legais. Era mais ou menos como o carnaval, sendo que cada uma tinha seu dia principal. Do Bonfim até Itapuã, as "lavagens", como comumente se dizia, mesmo sendo apenas o Bonfim, Conceição da Praia, e Itapuã as únicas lavagens mesmo, eram tão importantes quanto os blocos de carnaval. Fossem eles tradicionais ou não, faziam fila para participar desses eventos.
 
No Bonfim mesmo, havia marcação de fila. Isso mesmo! Existia um "mercado informal" que guardava, mais ou menos uma semana antes, a vaga na fila para uma banda ou um trio específico. Esse espaço era disputado ao longo da Avenida Contorno até mais ou menos a frente do segundo Distrito Naval e, depois disso, tome festa pra mostrar a sua música. Até porque, na época, as rádios ainda estavam engatinhando nessa história de tocar os sucessos da terra. E como os shows eram poucos, pois os clubes não permitiam festa a toda hora, festas como a do Bonfim vinham a calhar para a divulgação das músicas para o carnaval.
 
A "lavagem" da Pituba era um pouco diferente. Acontecia ali na praça Nossa Senhora da Luz, em frente à igreja do mesmo nome, que ficava fechada, óbvio, era toda tomada por barracas e todo mundo ficava esperando o trio vir ou começar a tocar, para a festa começar. Sei que de dia era uma coisa mais light, mas à noite o bicho pegava pesado.
 
Após a da Pituba vinha a de Itapuã (se a ordem estiver errada, me perdoem) que tinha como expectativa anual a possível aparição da banda Chiclete com Banana, ao que me consta, e nos anos em que estive na festa nunca apareceu – ao menos que lembre – e foi também muito importante para os artistas. Mesmo sendo de todas a mais violenta, tinha como uma de suas características principais – não sei hoje – o encurtamento da distancia entre o artista e o povo, pois por não existir bloco nem corda, nem um grande espaço a andar, fazia com que o folião pudesse ir, literalmente, atrás do trio.
 
E ainda tinha a lavagem de Ondina e da Barra! Sim, por incrível que pareça, tivemos duas lavagens não tradicionais no nosso circuito, que infelizmente saíram do mapa. A lavagem de Ondina mesmo, diferentemente do nome, era um evento pago e feito dentro de um hotel! Sim, mais ou menos uma semana antes ou uma semana depois do dia 2 de fevereiro, Tomaz Valadares, um produtor cultural à época, fazia, na área interna do Othon, a “lavagem” paga mais disputada de Salvador. 
 
O mais engraçado era que do bairro em questão não se lavava nada nem uma rua sequer. O que se lavava mesmo, com grande festa e muita mulher bonita, era a entrada principal do citado hotel, com participação dos hóspedes, funcionários e até dos administradores do local! E depois dessa passada de água e sabão, todo mundo ia curtir as atrações do evento, na área verde do Othon, o que diga-se de passagem, teve esse nome dado, a partir dessa festa.
 
E o circuito de festas de bairro culminava com a Lavagem do Porto, que era feita no largo do Porto da Barra, e acontecia na quarta-feira antes do carnaval (que à época começava no sábado). No porto todo mundo aparecia. Por ser a última festa antes da folia, dos famosos aos anônimos, todos estavam lá e o coro comia. Nomes como Jorge Zarath, Nando Borges, Ricardo Chaves, Luiz Caldas e muita gente boa passarram pela Barra. 
 
Hoje, posso ressaltar e afirmar como foi importante para a música baiana as festas de largo ou "lavagens". Dentro do profissionalismo amador da época, muito se aprendeu, muito se desenvolveu. Pena que, como tudo que é bom, passa.
 
É muito pouco espaço para falar e, perdoem, mas não tenho mais linhas. Mas fica a saudade, a lembrança e a memória contada de forma retalhada de uma parte da historia da música baiana que, infelizmente, não vai voltar.


 

Luis Ganem
luisganem@bahianoticias.com.br
twitter: @luisganem