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Alexandre Rodrigues fala de mudança em nova temporada de Cidade de Deus

Por Adrielly Souza | Folhapress

Foto: Divulgação

Depois de sobreviver a um atentado, perder pessoas próximas e enfrentar conflitos que colocaram em xeque suas escolhas, Buscapé terá de decidir que tipo de profissional e de homem quer ser.
 

Na segunda temporada de "Cidade de Deus: A Luta Não Para", o personagem vivido por Alexandre Rodrigues deixa de apenas observar os acontecimentos ao redor para assumir uma postura mais ativa diante dos problemas da comunidade. A mudança, segundo o ator, passa também pela reconstrução dos laços com a família e pela influência das mulheres de sua vida.
 

A nova fase da série, que estreia neste domingo (8), na HBO Max e no canal HBO, acompanha um Buscapé diferente daquele apresentado no início da história. Se antes ele parecia perdido e distante de algumas relações, agora começa a entender o que considera essencial.
 

"Ele vem numa crescente emocional muito grande. Na última temporada, passou por um atentado, por uma quase morte, e também perdeu a Lígia, uma mulher de quem era muito próximo", afirma Rodrigues.
 

Para o ator, experiências tão traumáticas provocam uma virada na maneira como alguém enxerga a própria existência.
 

A transformação também aparece na relação com a filha, Leka, interpretada por Luellem de Castro, e com a mãe. A preocupação de Buscapé aumenta quando percebe que ela começa a estabelecer alianças com pessoas envolvidas na criminalidade local.
 

O receio é que a filha repita escolhas que ele próprio fez no passado, quando se aproximou de integrantes do tráfico por serem conhecidos, vizinhos ou amigos de infância.
 

O ator explica que o personagem reconhece nessas relações uma espécie de repetição de sua própria história. Na juventude, as aproximações pareciam naturais: eram pessoas com quem havia crescido, estudado e convivido. Com o tempo, porém, Buscapé entende que determinados acordos podem trazer consequências perigosas.
 

"Ele transformou a arte dele em algo para sobreviver. Monetizou a arte e, com isso, consegue ganhar a vida. É um outro olhar do personagem", afirma Rodrigues.
 

A ORIGEM COMO MOTIVO DE ORGULHO
 

Alexandre Rodrigues não separa a trajetória de Buscapé da própria história. Por isso, não considera possível desvincular completamente o personagem da Cidade de Deus ou a própria carreira de sua origem. Ele nasceu na Baixada Fluminense e cresceu no Morro do Cantagalo, em Ipanema.
 

"Qualquer lugar que o Buscapé esteja, ele vai ser definido pelo lugar de onde veio. E qualquer lugar em que eu, Alexandre, esteja, também sou definido pelo lugar de onde venho", afirma.
 

Para ele, essa relação não deve ser encarada como uma limitação ou motivo de constrangimento. Ao contrário, o ator diz ter orgulho de carregar consigo a história da comunidade em que cresceu.
 

Rodrigues cita uma reflexão feita por colegas durante as conversas sobre a série: as favelas também fazem parte da sociedade, embora frequentemente sejam tratadas como territórios à parte. Ele lembra ainda a observação de que os centros urbanos, com seus prédios e estruturas, dependem do trabalho de pessoas que vêm justamente das periferias.
 

Essa divisão, diz, é discriminatória e reforça a ideia de que moradores de comunidades ocupam uma posição inferior. Para o ator, é necessário enfrentar esse pensamento, inclusive dentro das próprias comunidades, onde a desigualdade pode fazer com que as pessoas internalizem a sensação de que pertencem a um lugar menor.
 

"Temos feito um caminho contrário a isso, sem deixar de entender de onde viemos, mas fazendo com que o lugar de onde viemos seja visto como uma potência", afirma.
 

Rodrigues ressalta que a violência e os conflitos fazem parte da realidade retratada em "Cidade de Deus", mas não representam a totalidade da vida nas favelas. Ele destaca a importância de mostrar também as festas, os encontros, os abraços e as relações de afeto que fazem parte do cotidiano dos moradores.
 

"A porcentagem que faz mais barulho é tão pequena que não faz sentido com o que a gente vive, com a história e com as histórias que vivemos dentro da favela", diz.
 

A experiência de participar do filme "Cidade de Deus", lançado em 2002, também mudou a vida do ator. A partir dali, passou a ter oportunidades de conhecer culturas que antes pareciam distantes.
 

"Eu nunca imaginei que fosse sair daqui do Brasil e conhecer outras culturas. Um menino de favela não tem muitas referências", afirma. Hoje, ele considera um privilégio ter uma profissão e conseguir viver da própria arte.

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