Militantes criam 'Tinder do Exército do Lula' no WhatsApp para paquera na esquerda
Lula (PT) nunca criou o Ministério do Namoro. A pasta fictícia nasceu de um meme na campanha de 2022, mas o petista entrou na brincadeira e, já presidente, chegou a pedir desculpas por não ter cumprido a promessa. Coube à militância colocar a ideia em prática e distribuir os solteiros interessados em grupos, por DDD.
Batizado de "Tinder do Exército do Lula", o projeto foi anunciado ao meio-dia de terça-feira (27) em canal de WhatsApp. A missão do primeiro dia era uma só: recrutar.
"A brincadeira só fica legal com mais soldades de Lulinha", escreveu a página, que à tarde já sugeria um tema para engajar: se Flávio Bolsonaro (PL) tinha ou não fugido do país —após o pleito, o senador deixou o Brasil com a mulher e as filhas em um jato privado.
O sistema funciona em duas etapas. No canal, só os administradores publicam, e os seguidores apenas recebem os avisos e os convites. A paquera acontece nos grupos, separados por DDD, onde todos podem conversar —e onde cabem até 1.024 pessoas por vez.
Os primeiros grupos foram criados na noite de terça, para Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal. Vieram em seguida Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre. Antes das 20h, já estavam lotados. "Estamos contratando moderadores. Vamos contar com a paciência de vocês", avisou o "ministério".
Entrar, porém, ainda não significava conversar. "Tropa! Entrem nos grupos e aguardem!", orientou o canal. Os grupos só seriam abertos para mensagens às 10h do dia seguinte. "Descansem, soldadinhes do amor. Beijos revolucionários."
Na quarta (28), Recife, Curitiba, Belém, Fortaleza, Campinas e Ribeirão Preto ganharam grupos, com a mesma convocação: "Entre antes que ele lote".
Nos já abertos, começaram as apresentações. A Folha acompanhou a movimentação no de Curitiba. Muitas mensagens seguem uma ficha padronizada, com emojis: nome, idade, orientação sexual, pronomes, o que busca, se o privado está "aberto" e o perfil no Instagram.
Na noite de quarta, uma mulher de 34 anos se dizia fã de café e vinho e avisava que dificilmente daria conta de acompanhar o grupo: "Se tiver interesse pode chamar no privado".
Já um morador de Londrina contou ter dois empregos e cursar duas faculdades, o que chamou de "o terror dos que bebem detergente" —provocação a bolsonaristas que, em maio, saíram em defesa da Ypê depois que a Anvisa suspendeu a fabricação e o uso de lotes da marca.
No grupo, um autodeclarado paulistano de 47 anos já se antecipava a eventuais críticas: "votei no Aécio pro governo de MG - não me julguem". Na ficha, que incluía campos para drogas e álcool, respondeu que não curte surubas.
Entre uma apresentação e outra, os flertes se desdobravam. Uma participante divulgou um grupo paralelo para pessoas com mais de 30 anos "marcarem uns rolês que realmente saiam do WhatsApp". Outro quis saber se os colegas já se organizavam em algum partido político. E um terceiro resumiu as expectativas: "Se não desencalhar aqui, pode fechar o porto que o navio não vem mais".
Segundo o canal, ao menos três grupos serão abertos por dia. A ordem de lançamento ficou a cargo dos seguidores, convidados a votar no DDD da sua cidade nos comentários da página do Instagram namoro.gov.br, que originou o canal.
Em menos de quatro horas, o canal tinha 5.000 "soldades do flerte". Na manhã seguinte, saudava a "tropa mais tesuda e gostosa da esquerda", próxima aos 30 mil. Horas depois: "Atingimos 40k de delícias revolucionárias. O amor voltou! O tesão voltou!". Neste domingo (1), ultrapassava 58 mil seguidores —e já havia ao menos 15 grupos formados para as trocas de mensagens.
O vocabulário não é casual. Cada mensagem do canal reproduz o manual do deputado André Janones (Rede-MG), que transformou o canal "Exército do Lula" no quartel-general digital da campanha petista no segundo turno.
O "urgente" acompanha Janones desde 2018, quando se elegeu na esteira de vídeos para caminhoneiros em greve. O "explode", que viralizou nas madrugadas desta eleição, "surgiu pronto" em sua cabeça, segundo disse à Folha. A "missão" era o formato das tarefas que distribuía aos apoiadores, como coordenar postagens e impulsionar buscas contra o adversário.
Funcionou. Criado em abril, o "Exército do Lula" tinha cerca de 50 mil membros até o primeiro turno e passou de 10,8 milhões na véspera da eleição, segundo o deputado. Lula, que havia terminado a primeira rodada atrás de Flávio, virou a disputa e foi reeleito no domingo (25).
Mesmo a mecânica foi copiada. No "Exército do Lula", as missões tinham prazo; no Ministério do Namoro, a urgência vem da escassez: "São apenas 1.024 vagas. Explode esse convite para os seus amigos".
A piada, no entanto, é anterior. O perfil do Instagram, que se apresenta como extraoficial e tem 75 mil seguidores, existe desde 2023. A primeira publicação, com um vídeo de Lula, avisava: "O Ministério do Namoro está sendo montado. Aguardem!".
Nos meses seguintes, o perfil cobrou a pasta nos cem dias de governo, lançou o fictício programa Meu Crush Minha Vida para o Dia dos Namorados e criou o "Lula da Sorte", duende que traria um amor em menos de três meses a quem o compartilhasse.
Com a campanha de 2026, o humor encontrou um galã. Depois que um manifestante mascarado e sem camisa viralizou no ato pró-Lula na avenida Paulista, em 11 de outubro, e foi apelidado nas redes de "a picanha que o Lula prometeu", o perfil anunciou ter acesso à "ficha amorosa" do "Petista Misterioso".
Na mesma publicação, informou que o presidente procurava para chefiar a pasta alguém de perfil celibatário, para evitar conflito de interesses. E prometeu: "Vai ter Ministério do Namoro no Lula 4".
Passada a eleição, a tropa ganhou outra frente de batalha, e a conquista de território continua. Diante dos limites do WhatsApp, seguidores sugeriram migrar os grupos para o Facebook. O canal tratou a ideia como mais uma ofensiva: "Seria mais um território do bolsonarismo que invadiríamos? Já resgatamos a bandeira, a camisa amarela, a suruba... só falta o Facebook".
