Ex-imigrante em situação irregular, brasileiro concorre a deputado nos EUA
Nascido em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, Felipe Sousa Lazaballet, 40, disputa uma vaga na Câmara de Deputados da Flórida, um espaço dominado por políticos republicanos, nas eleições do próximo 3 de novembro. Ele é democrata.
Seu partido não é a única característica minoritária em relação a esse Legislativo estadual, em um dos estados mais conservadores, ainda que mais latinos, dos Estados Unidos. Felipe é gay e, por mais de uma década, foi um imigrante em situação irregular no país.
Ele disputa pelo Distrito 42, na região metropolitana de Orlando. Se ganhar, será o primeiro brasileiro a ser deputado na Flórida. Também se tornará o primeiro imigrante abertamente gay a fazê-lo.
Filho de mãe solo e empregada doméstica natural do Ceará, ele foi levado aos EUA em 2001, aos 14 anos de idade, pela irmã mais velha, de quem era muito próximo e que emigrara havia seis anos para a Flórida. Viajou com um visto de turista, e já sem planos de retornar ao Brasil.
A irmã havia prometido que o levaria assim que se estabilizasse, para que Felipe pudesse ter um futuro de mais oportunidades. Ele foi matriculado no colégio, tornou-se um dos melhores alunos, segundo relata à reportagem, e criou uma rede de amizades. Uma vida feliz.
Foi em torno dos 16 anos, no entanto, que ele enfim tomou consciência de como sua vida poderia ser afetada por ser um imigrante em situação irregular, pois seu visto de turista há muito havia vencido. O orientador de profissões de sua escola disse que, nessa situação, ele não poderia ir para uma universidade.
Após meses desolado com a informação, dado que o ensino superior era um sonho que tinha, Felipe soube por um outro imigrante brasileiro, um conhecido da igreja que frequentava, que o Miami Dade College, uma das principais faculdades da Flórida, aceitava imigrantes que, como ele, estavam em situação irregular.
Isso já não ocorre atualmente, mas, naquela época, Felipe abraçou a oportunidade e estudou relações internacionais na instituição. Naquele período, ganhou ainda mais consciência de seu status migratório. Crescia nos EUA, afinal, um debate que lhe incluía diretamente: a mobilização para que imigrantes levados ao país quando crianças fossem legalizados pelo governo.
Essas pessoas eram e são, ainda, conhecidas como os "dreamers" (sonhadores). Felipe começou a se envolver com o movimento em 2006, a participar de reuniões e mobilizações. A mais expressiva delas ocorreu em 2010.
No começo daquele ano, ele e outros jovens adultos na mesma situação —imigrantes sem documentos levados para aos EUA antes dos 18— organizaram a chamada Trail of Dreams (trilha dos sonhos), uma marcha a pé da Flórida a Washington (1.500 km) para pedir pela legalização dos dreamers. Foram cinco meses de empreitada, de janeiro a maio.
Era época do primeiro governo de Barack Obama, tido como mais progressista e propenso a apoiar essa agenda, ainda que, anos depois, saiba-se que foi em seu governo que mais imigrantes foram deportados dos EUA, até a chegada do atual governo de Donald Trump.
A primeira tentativa de aprovar o projeto no Congresso americano falhou. Dois anos depois, porém, Obama criou o chamado Daca (algo como "ação diferida para os que chegaram quando crianças", no inglês), um programa que fornecia proteção temporária de dois anos e autorização de trabalho para imigrantes que haviam entrado nos EUA antes dos 16 anos e tivessem, então, menos de 31, além de um diploma do ensino médio. O benefício podia ser renovado.
Felipe comemorou. Não somente pela causa da qual era ativista, mas porque, então com 26 anos de idade, ele mesmo se enquadrava nos critérios, e recebeu o Daca.
Muitos brasileiros foram beneficiados. Entre os 436 mil imigrantes que ainda têm o benefício, há 2.990 brasileiros, configurando a sétima nacionalidade. Mexicanos são líderes, com 356 mil, seguidos por salvadorenhos, guatemaltecos, hondurenhos, peruanos, sul-coreanos e, enfim, brasileiros.
Desde então, o agora candidato a deputado na Flórida seguiu envolvido na defesa da agenda migratória. Após um breve período em Nova York, retornou para a Flórida em 2016 para ajudar a Prefeitura de Orlando.
Em junho daquele ano, em um ataque homofóbico, o atirador Omar Mateen deixou 49 pessoas mortas em uma boate gay da cidade. O massacre na boate Pulse ainda é considerado o maior ataque à comunidade LGBTQIA+ da história dos EUA. Felipe trabalhou no suporte aos sobreviventes e aos familiares das vítimas.
Depois, começou a liderar a Hope CommUnity Center, organização de apoio a imigrantes. Casou-se, conseguiu o green card e, em 2021, a sua cidadania americana.
Até que, em 2025, recebeu um convite inusitado. A deputada democrata Anna Eskamani o convidou para disputar uma vaga na Câmara da Flórida no seu lugar. Filha de imigrantes iranianos, mas nascida nos EUA, ela já não podia mais disputar no próximo 3 de novembro. Anna foi deputada por quatro mandatos consecutivos de dois anos, limite da legislação local para o cargo.
Segundo Felipe, Anna disse a ele que sua história falava por si só. E que o fato de sempre ter atuado por aqueles mais marginalizados, tendo sido ele próprio um imigrante em situação irregular, dava-lhe a credibilidade necessária para concorrer.
"Minha mãe sempre me ensinou a importância da educação, do trabalho duro, da honestidade", conta ele em conversa por videochamada feita a um mês das midterms.
