Em mensagens internas, Meta admite que contas de Lula foram prejudicadas por restrições; engenheiros falam em falhas técnicas
Em mensagens internas da Meta obtidas pela reportagem, funcionários da empresa admitem restrições que prejudicaram as contas do candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Instagram e recomendação algorítmica do perfil de Flávio Bolsonaro (PL) na plataforma e no canal do candidato no WhatsApp, prática vedada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Em uma das mensagens, o funcionário da Meta A. G. afirma que a conta de Lula estava "limitada" em comparação à de Flávio, e que isso seria negativo pela "alta chance" de haver ação jurídica.
A frase se refere a episódio do dia 9 de outubro, quando o perfil oficial de Lula ficou impossibilitado de impulsionar postagens feitas no feed do Instagram por quase 24 horas.
A campanha conseguia impulsionar novos conteúdos nos chamados dark posts, bem como os impulsionamentos antigos continuavam no ar. Estava impedida, porém, de pagar para aumentar o alcance de postagens que estavam no feed, que é a forma mais usada de impulsionamento e de maior eficiência para o treinamento do algoritmo.
Segundo a estimativa da campanha de Lula, cerca de 1,3 milhão de pessoas deixaram de ver os anúncios por causa da restrição.
Como o TSE proíbe a recomendação algorítmica de contas de candidatos, o impulsionamento é a única possibilidade de políticos aumentarem o alcance de suas postagens e fazerem propaganda eleitoral em ambiente digital. A Meta detém virtual monopólio em propaganda eleitoral pela internet na eleição de 2026, já que o Google deixou de vender anúncios políticos em 2024 e o Kwai oferece de forma muito restrita.
O problema com o impulsionamento foi reportado à Meta e registrado nas mensagens internas. A versão oficial é que havia um "problema técnico" no gerenciador de anúncios.
Engenheiros nos Estados Unidos foram contatados, mas passaram-se horas até uma resolução. Os próprios funcionários reclamaram da demora, dizendo que os engenheiros estavam tranquilos e talvez não tivessem entendido a urgência do assunto, ainda que se tratasse da conta de anúncios do presidente da República no meio da campanha eleitoral. Disseram, segundo as mensagens, ter alertado para a importância do caso e pedido que fosse classificado como SEV2, quando um problema é grave e demanda resolução com urgência.
Em mensagem, a funcionária M. A. disse que, quando houvesse solução para o problema, ainda seria preciso combinar como iriam se explicar para membros da campanha de Lula que estavam reclamando. O funcionário M. V. relatou que deputados que haviam passado a atuar na campanha de Lula estavam pedindo satisfações sobre o caso.
A justificativa inicial da empresa foi que o problema tratava de um "data outage" (interrupção de dados) global, que havia atingido mais de 3.000 contas no dia 7 de outubro. Várias contas estavam impossibilitadas de ver a contagem de visualizações dos posts. Um dos exemplos teria sido um impulsionamento do dia 7 de outubro que a campanha de Flávio Bolsonaro não conseguiu fazer e, na sequência, desistiu e partiu para outras maneiras de impulsionar.
Mas esse problema global, segundo mensagens internas, ocorreu no dia 7 e durou 5 horas. No caso de Lula, foram quase 24 horas no dia 9 sem conseguir impulsionar posts do feed.
Outro episódio foi a recomendação do canal de Flávio Bolsonaro nas buscas de canal de apoio a Lula no WhatsApp.
Segundo a regra do TSE, perfis e canais de candidatos não podem ter recomendação algorítmica. Eles só podem aparecer nas buscas caso o usuário insira o nome exato do canal ou perfil.
No entanto, conversas internas da Meta indicaram que os usuários, ao buscar pelo termo Exército do Lula no WhatsApp, recebiam como resultados o Canal do Lula, Tropa do Flávio (de apoio a Flávio Bolsonaro) e Partido dos Trabalhadores. O canal Exército do Lula é administrado pelo deputado André Janones e foi derrubado nesta semana pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, e depois voltou ao ar.
No início de outubro, o perfil de Flávio aparecia recomendado em buscas no Instagram, enquanto os dos outros candidatos, não. Nas mensagens, funcionários admitem que o perfil de Flávio aparecia nas buscas e não deveria, enquanto a conta de Lula não aparecia nem quando era feita a busca pelo nome exato, como deveria acontecer. Eles afirmam que a recomendação indevida de Flávio foi um furo.
A justificativa técnica foi que o nome de Lula era muito longo, mas a falha tinha sido resolvida. Ressalvaram, porém, que ainda havia variações nas sugestões de busca quando se procuravam os dois candidatos.
Problemas técnicos não são incomuns nos provedores. Segundo as mensagens internas, em 23 de setembro, as contas de Flávio e de Lula ficaram impossibilitadas de subir anúncios por cerca de uma hora por "atividade suspeita", devido a um erro.
Em 1º de outubro, ainda de acordo com mensagens internas da Meta, a campanha de Flávio teve vários anúncios bloqueados porque foi detectado uso de inteligência artificial dentro do período em que o uso da tecnologia é proibido pelo TSE. A campanha afirmou que não havia uso de IA.
As conversas internas indicam que, dentro da Meta, há a percepção de que uma narrativa sobre suposta interferência da empresa na eleição no Brasil estaria ganhando força. E que seria bom mostrar que também houve casos afetando Flávio.
Procurada, a Meta afirmou que "as alegações de que atua para interferir no processo eleitoral ou favorecer uma candidatura são falsas e não encontram respaldo nos fatos." Segundo a empresa, "os episódios citados pela reportagem tiveram causas distintas: falhas técnicas globais, um erro específico prontamente corrigido e a aplicação de normas eleitorais brasileiras que valem igualmente para todas as candidaturas."
"Alguns desses episódios tiveram alcance amplo e afetaram diferentes contas e anunciantes em diferentes países. Não damos tratamento preferencial a candidato, partido ou posição política, e nossos sistemas não são projetados ou operados para fazê-lo", disse a empresa.
Em nenhuma das conversas acessadas pela reportagem há admissão de interferência e só se discute a alta gravidade e a demora dos times de engenharia de resolver os problemas técnicos.
As mensagens internas registram também a reação dos funcionários à ordem de Kassio para bloquear o canal de WhatsApp de Janones. Em mensagem, o funcionário M. V. afirma que havia sido contatado por vários políticos de esquerda com reclamações. Mas M.V. diz ver "o copo meio cheio", uma vez que, segundo ele, se isso tivesse ocorrido com o candidato Renan Santos, ele estaria acampado na frente do escritório da Meta queimando pneus.
A campanha de Flávio Bolsonaro foi indagada sobre o bloqueio da conta em 23 de setembro e os anúncios rejeitados em 1º de outubro relatados nas mensagens internas da Meta, mas disse não ter havido nenhum problema que afetasse os perfis e canais do candidato.
"As informações apresentadas pela reportagem não procedem. A campanha cumpre todas as regras da plataforma e do TSE e, por isso, não registrou nenhum problema com a conta de anúncio do candidato, que segue operando de maneira adequada e sem interrupção."
A reportagem perguntou à campanha de Flávio como o candidato vê a atuação da Meta nas eleições brasileiras.
"A campanha entende que a plataforma está sujeita às regras da eleição brasileira e que, em função disso, o alcance e outras métricas do candidato podem ser afetados, o que tem sido compensado com estudos mais profundos e com o altíssimo rigor técnico da equipe."
