Seca ameaça oferta de água no Nordeste e de energia na Amazônia
As inundações que castigam a região do Sul do país contrastam com a seca nas regiões Norte e Nordeste do país, cenário crítico causado pelo fenômeno El Niño que já pressiona o abastecimento de água e de energia em várias regiões.
A redução das chuvas e a perspectiva de agravamento da seca nos próximos meses comprometem os principais rios e açudes, afetando o transporte de combustível em áreas isoladas da Amazônia, enquanto afeta a oferta de água para consumo humano em estados do Nordeste.
A Folha fez um levantamento de situações já consideradas críticas e mobilizações que estão em andamento diante dos efeitos do El Niño, fenômeno que causa o aquecimento anormal do oceano Pacífico e que altera o regime de chuvas, geralmente levando seca ao Norte e Nordeste e chuva excessiva ao Sul do Brasil.
Usinas termelétricas que usam óleo diesel para gerar energia em regiões afastadas da Amazônia, onde não há conexão com a rede nacional de transmissão, pediram ao governo mais de R$ 100 milhões para antecipar a compra e estocar 17,2 milhões de litros do combustível antes que a queda dos rios impeça o transporte.
No Nordeste, a ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico) colocou oito sistemas hídricos da Bahia, Pernambuco e do Grande do Norte em situação crítica e avalia endurecer as restrições para captação de água.
Em boa parte do interior da Amazônia, o combustível chega de barco. Quando o nível dos rios baixa excessivamente, embarcações maiores não conseguem acessar determinadas cidades, ou passam a levar cargas menores. Isso dificulta e encarece o transporte.
Essas regiões são chamadas de "sistemas isolados". Sem acesso permanente à eletricidade distribuída pela rede nacional de transmissão, elas dependem, em sua maioria, de termelétricas movidas a diesel. Se o combustível não chega, há risco de interrupção na geração de energia.
Dadas as projeções de seca, as empresas querem antecipar as compras e fazer estoques antes do período mais crítico da estiagem. Os planos incluem armazenar combustível em tanques nas próprias usinas, além de usar balsas como depósitos flutuantes.
A empresa VP Flexgen pediu R$ 71,3 milhões para comprar 12,9 milhões de litros de diesel. A empresa opera termelétricas em Humaitá, Nova Olinda do Norte, Borba, São Gabriel da Cachoeira e Autazes, todas no estado do Amazonas. O pedido foi apresentado em 30 de junho e reiterado em 15 de setembro.
Já a empresa Powertech apresentou, em 26 de agosto, solicitação para comprar 4,2 milhões de litros de diesel. O custo estimado do combustível é de R$ 29,4 milhões, além de R$ 2,7 milhões para a operação logística.
Somados, os pedidos das duas empresas chegam a 17,1 milhões de litros e R$ 103,5 milhões. A discussão envolve um repasse que seria antecipado pela CCC (Conta de Consumo de Combustíveis), um encargo bancado pelos consumidores de energia de todo o país, para cobrir parte do custo de geração nos sistemas isolados. Esse encargo incluído na conta de luz dilui o impacto financeiro, para que a conta local não banque sozinha todo esse custo.
À Folha a VP Flexgen confirmou seus pedidos, mas declarou que, até o momento, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) "n?o se manifestou quanto à viabilidade do pedido apresentado".
A agência foi questionada pela reportagem sobre o assunto, mas não respondeu ao pedido de esclarecimentos. A empresa Powertech foi procurada pelos e-mails institucionais e telefones que divulga, mas também não retornou ao pedido da reportagem.
A VP Flexgen disse que mantém um "plano de contingência específico para o período de estiagem", com monitoramento contínuo dos níveis dos rios, estoques em cada usina, consumo projetado, carregamentos em trânsito e condições de navegabilidade das rotas.
"A empresa vem adotando medidas preventivas para reforçar os estoques e programar antecipadamente as entregas de combustível, em articulação com seus fornecedores, visando assegurar a continuidade e a segurança da geração de energia", declarou, acrescentando que seu pedido trata de antecipação projetada de valores, e não recursos adicionais.
O receio das empresas é que a análise demore e o dinheiro só seja liberado quando os rios já estiverem baixos demais. Outras geradoras também montaram planos para enfrentar a seca.
A Oliveira Energia, responsável por 42 usinas, informou capacidade para armazenar 19,7 milhões de litros e prevê estoques equivalentes a até seis meses de consumo em alguns pontos. A Aggreko, que opera 26 usinas, trabalha com a meta de manter diesel para 65 dias.
O Grupo Atem, que também atua no Amazonas, disse que mantém planejamento permanente para enfrentar os desafios da estiagem e que isso inclui antecipação de estoques e entregas, integração entre rios e rodovias e reforço de operações de transbordo de navios para balsas em Itacoatiara (AM).
"Essa capacidade vem sendo aperfeiçoada ao longo dos anos, especialmente a partir dos aprendizados das secas históricas de 2023 e 2024", disse.
Já na região Nordeste, o problema é outro. A estiagem atinge diretamente os reservatórios e os rios usados para abastecimento humano, irrigação, criação de animais e atividades econômicas.
O plano de preparação para o El Niño 2026-2027, aprovado pela ANA neste mês, já aponta oito sistemas hídricos em "estado hidrológico vermelho", a faixa mais crítica da classificação adotada pela agência.
Esses sistemas hídricos são conjuntos de rios, açudes e reservatórios conectados que fornecem água para cidades, irrigação e outras atividades. Quatro ficam no Rio Grande do Norte: Armando Ribeiro Gonçalves, na região de Assú e Itajá; Itans, em Caicó; Santo Antônio e Sabugi, em São João do Sabugi; e Cruzeta, no município de mesmo nome.
Na Bahia, estão Mirorós/Manoel Novais, em Ibipeba, e Riacho do Paulo, em Livramento de Nossa Senhora. Em Pernambuco, aparecem Barra do Juá, em Floresta, e Jucazinho, na região de Surubim e Cumaru.
A faixa vermelha indica que a disponibilidade chegou a um nível crítico. Isso permite à ANA negociar ou impor redução das retiradas, alterar a operação dos reservatórios, estabelecer rodízios, dar prioridade ao consumo humano e de animais e limitar usos como irrigação ou geração de energia por hidrelétricas.
O plano da agência prevê condições especiais para a operação de reservatórios e intervenções em 57 sistemas hídricos locais do Semiárido, caso o cenário piore.
Em agosto, dados já mostravam a fragilidade dos estoques de água. O acompanhamento de 542 reservatórios mostrava que 112 deles estavam abaixo de 20% da capacidade. O quadro não significa que todos estejam prestes a secar, mas mostra que uma parcela relevante entrou no período crítico com pouca reserva.
Questionada sobre o assunto, a ANA declarou que monitora o cenário, por meio da sua Rede Hidrometeorológica Nacional e uma sala de situação, adotando medidas preventivas para antecipar e reduzir os possíveis impactos do El Niño 2026/2027.
"Essa estrutura permanente integra dados de chuva, níveis e vazões de rios, armazenamento de reservatórios e previsões climáticas para identificar situações de risco e subsidiar decisões regulatórias e operacionais em tempo hábil", disse.
No Nordeste, segundo a agência, um grupo técnico atua na antecipação de cenários e no planejamento da alocação de água. Na Região Norte, a ANA mantém reuniões sobre as condições, com foco nos possíveis impactos de níveis e vazões críticas sobre o abastecimento, a navegabilidade e outros usos da água, incluindo a geração hidrelétrica.
A ANA trabalha com a possibilidade de persistência do fenômeno El Niño até março de 2027 e alerta para o risco de ele alcançar intensidade "muito forte". No Norte e no Nordeste, isso pode significar rios mais baixos, menor recarga dos açudes, pressão sobre o abastecimento urbano e rural e perdas para a irrigação. No Sul, o efeito esperado é o oposto: mais chuva, cheias e inundações.
